A queda orgulhosa

A tampa do caixão foi empurrada para o lado, o aço negro rangendo contra o gelo com guinchos de rasgar os ouvidos.

Um ar gelado, carregado do cheiro metálico de sangue seco, irrompeu para fora. Meu cadáver destruído jazia lá dentro, como um espécime.

Eu não precisava olhar para saber o quão grotesco eu parecia.

Braço esquerdo arrancado, perna direita faltando, ossos esmagados em fragmentos e recolhidos como troféus.

Meu sangue drenado até a última gota, a carne ressecada e afundada como couro de animal seco.

Um breve silêncio caiu do lado de fora do caixão.

Aqueles puro-sangues que riam no salão instantes antes agora engoliram em seco, cautelosos.

Por fim perceberam — aquilo não era teatro.

Mas o choque de Serena durou só meio segundo.

A arrogância dela voltou ao lugar como uma armadura.

Ela encarou meu cadáver; sua voz ficou ainda mais fria e afiada, como se tentasse esmagar aquele instante de hesitação com desprezo.

— Lobisomem de nono nível, com regeneração quase imortal — disse ela, de propósito. — Caleb, você está exagerando na atuação.

Viktor emendou na mesma hora:

— Ele chegaria a se mutilar só para fazer Vossa Majestade aparecer. Verdadeiramente desprezível e risível.

Eu ouvi sem a menor ondulação de emoção.

Antes, eu me despedaçava por qualquer mal-entendido dela, desesperado para provar minha lealdade.

Agora, eu tinha acabado com isso.

Serena apontou para o caixão:

— Arrastem-no para fora. Façam-no se ajoelhar e responder imediatamente.

Os guardas hesitaram, mas não ousaram desobedecer.

Duas mãos agarraram os ombros do meu cadáver e puxaram com brutalidade.

Os ossos rasparam no aço congelado com estalos que davam nos dentes.

Meus restos rolaram para fora, as feridas rígidas se reabrindo em rasgos, e o ferimento perfurante no peito ficou totalmente exposto — atravessando em linha reta do esterno à coluna.

A ferida não mostrava sinal algum de cicatrização; havia apenas um anel de energia cinzenta e negra de morte, como “nunca cicatrizar” entalhado na carne.

Eu “vi” as pupilas de Serena se contraírem.

Mesmo assim, ela não recuou. Em vez disso, deu um passo à frente, como se quisesse pisotear a realidade de volta para dentro do caixão.

— Ajoelhe-se — ela ordenou ao cadáver, com a voz ainda carregada daquela autoridade automática. — Caleb, eu permito que você se explique.

Naturalmente, ninguém respondeu.

O vento uivou pelos corredores do palácio, agitando as bordas do manto dela.

Naquele instante, ela pareceu estar à beira de um penhasco desolado, ainda acreditando estar sobre um trono.

Viktor soltou uma risadinha:

— Vossa Majestade, lobisomens são excelentes em fingir de mortos. Basta expô-lo publicamente, e as matilhas entenderão quem é o verdadeiro mestre deles.

Um lampejo de irritação passou pelos olhos de Serena. Ela estendeu a mão e, pessoalmente, segurou os fechos da armadura quebrada sobre meu peito.

— Então deixe-me ver até onde você vai levar essa encenação.

Ela puxou com força.

Fragmentos de armadura se soltaram em rasgos, as bordas de metal raspando na carne ressecada.

Os dedos dela tatearam dentro da minha cavidade torácica vazia, procurando o que ela supunha ser o meu “núcleo”.

No instante seguinte, as pontas dos dedos tocaram algo sólido.

Frio, afiado, com o ardor da prata.

— Uma estaca de prata amaldiçoada.

A estaca estava cravada fundo onde meu coração deveria estar, a superfície entalhada com runas de maldição. Ela deveria ter perfurado o coração de Serena, pregando a alma dela à danação eterna.

Agora estava pregada em mim.

Enrolado do lado de fora da estaca havia um rolo de pergaminho.

O Contrato de Sangue Primordial.

Aquele pergaminho estava encharcado com o sangue do meu coração, o vermelho infiltrando-se em padrões antigos até escurecer e ficar negro, e ainda assim mantendo teimosamente a forma final do contrato.

Serena congelou.

Ela tentou falar; os lábios se moveram, mas não conseguiram formar um deboche completo.

A arrogância dela falhou, pela primeira vez.

Eu sabia exatamente por que ela vacilou.

Porque ela reconheceu aquele pergaminho.

O “fundamento” entregue pessoalmente a ela pelo conde anterior, destinado a ser tocado apenas pelo guardião predestinado.

Ela já tinha dito, com condescendência, na minha presença, que aquilo não passava de uma corrente para domesticar bestas.

Agora, essa corrente ardia com uma luz de sangue dentro da minha cavidade torácica.

O sorriso de Viktor também enrijeceu por um momento, mas ele logo retomou o tom brando:

— Vossa Majestade, tenha cuidado. Ele pode ter adulterado a estaca de prata, justamente para atraí-la para perto.

Serena pareceu não ouvir.

A ponta do dedo dela traçou de leve as marcas entalhadas na estaca.

Hum—

O eco residual da maldição ressoou instantaneamente com a energia de sangue dela.

Não era alucinação — era a maldição da morte se repetindo de dentro das linhagens sanguíneas.

Senti o corpo dela estremecer.

Ela “viu” aquele momento: o campo de batalha noturno, uma estaca de prata disparando das sombras, destinada a perfurar o coração dela; e eu me lançando à frente, não apenas para bloqueá-la uma vez, mas usando a minha cavidade torácica, a minha câmara do coração, para engolir à força a maldição da morte inteira, junto com o contrato de sangue em pergaminho — selando-a, matando-a.

O preço de selar a maldição da morte daquele jeito foi único — perdi minha regeneração a partir daquele instante.

Foi por isso que eu fui dilacerado de forma tão completa no cerco que veio depois.

Não por fraqueza.

Mas porque eu já estava pregado à morte.

A respiração de Serena acelerou, e o olhar dela começou a se estilhaçar como porcelana fina exibindo a primeira rachadura.

Ainda assim, ela tentou manter a própria teimosia: “...Impossível. Lobisomens não—”

As palavras morreram.

O olhar dela caiu sobre as camadas de feridas antigas no meu peito e no meu abdômen.

Orifícios de bala atravessados, cicatrizes rasgadas, marcas de correntes queimadas... nenhuma era recente de hoje.

Cada uma pertencia ao passado de “remover obstáculos por ela”.

Eu me lembrava de uma vez em que ela encostou no meu peito, as pontas dos dedos traçando essas feridas, sussurrando baixo: “Você é o meu único escudo.”

Eu também me lembrava de ela declarar friamente no tribunal: “Lobisomens não passam de ferramentas.”

Agora essas duas frases colidiam nos olhos dela, estilhaçando ainda mais alto.

Ao vê-la vacilar, a voz de Viktor ficou mais suave, mais venenosa: “Vossa Majestade, não deixe que ele a manipule. Clãs de lobos são especialistas em usar martírio para extorquir a misericórdia real. Se a senhora demonstrar fraqueza agora, estará mostrando vulnerabilidade para as alcateias.”

“Misericórdia?”

Serena reagiu como se tivesse sido picada, erguendo a cabeça num estalo.

Ela queria usar a raiva para se empurrar de volta para a posição superior, mas a mão dela continuava dentro do meu peito oco, as pontas dos dedos tocando a estaca de prata, tocando o contrato de sangue — tocando uma prova irrefutável.

A voz dela tremeu pela primeira vez: “Essa estaca de prata... originalmente era para pregar quem?”

Viktor sorriu com delicadeza: “Naturalmente, para o coração de um traidor. Caleb trouxe isso para si mesmo.”

Serena encarou Viktor, a cor de sangue subindo devagar nos olhos dela — não a excitação da sede de sangue, mas medo e dúvida de si mesma.

Ela não discutiu mais.

Deslizou os dedos até a borda do Contrato de Sangue Primordial, como quem se agarra à última palha que poderia provar “isso ainda é mentira”.

Ela puxaria o pergaminho.

Confirmaria com os próprios olhos.

Beliscou o pergaminho e começou a puxá-lo devagar. O movimento foi lento demais, como arrancar um laço de enforcamento do próprio pescoço.

No instante em que o pergaminho deixou a minha cavidade torácica —

Runas de sangue se acenderam, e uma luz branco-prateada jorrou do sangue real escuro.

Tss.

Sem chamas.

Apenas um frio até os ossos de “conclusão”.

O rolo de pergaminho se incendiou sem fogo nos dedos dela, virando instantaneamente uma cinza prateada e fria que se esfarelou entre os dedos dela como um veredito.

O contrato de sangue se consumiu.

Sujeito do contrato — absolutamente morto.

Serena ficou congelada no lugar, mantendo a postura de quem ainda agarra algo, segurando apenas cinzas.

O orgulho dela foi triturado por completo por aquele punhado de pó prateado, deixando-a sem palavras.

Do outro lado da praça, a respiração dos nobres ficou pesada, e alguns começaram a recuar.

Eu “ouvi” a barreira acima emitir uma rachadura extremamente tênue.

Como vidro atingido na primeira fissura.

Era o som da barreira começando a afrouxar.

E mais claro ainda era algo no fundo do meu corpo — não, dentro daquele cadáver despedaçado — algo que estava adormecido e, por fim, ergueu uma garra no momento da “conclusão do contrato”.

A estaca de prata tremeu de leve.

O selo da maldição da morte começou a se soltar, como um novo coração se preparando para pulsar das cinzas.

Serena se virou bruscamente, olhando para a cúpula do palácio.

A barreira de runas de sangue escureceu um tom, e rachaduras em teia de aranha se espalharam em silêncio.

A barreira que protegia todo o castelo dos vampiros estava prestes a se estilhaçar.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo