Capítulo 2
Os sinos da capela começaram a tocar.
Roland conduziu Coralie para fora, de mãos dadas. Meus pais foram atrás, sorrindo como se tivessem ganhado alguma coisa. Nenhum deles olhou para trás, para mim.
Fiquei sozinha na sala vazia.
Em vez disso, entraram alguns dos padrinhos de Roland, paladinos de prata, oficiais da Ordem. O vice-capitão, Bram, me examinou de cima a baixo, avaliando o vestido simples que eu usava.
— Bem. A noiva que quase tivemos. — Ele sorriu. — Eu sempre disse. Uma garota do interior, desenterrada do nada, nunca ia servir para o nosso capitão.
— E a Lady Coralie é delicada. Ela é a estrela gêmea. Ela é aquela que os deuses destinaram a ele.
Disseram isso na minha cara e riram.
Então Coralie voltou, com o segundo vestido, criadas se agitando ao redor dela. Ao me ver cercada pelos cavaleiros, levou uma mão à boca.
— Você ainda não foi embora? — Ela veio até mim e estendeu a mão, palma para cima, com a mesma naturalidade de quem pede para passarem o sal. — Ótimo. O rito me drenou de novo. Como presente de casamento, me dê metade do seu mana. Roland quer que eu esteja num corpo perfeito esta noite.
Ela deu ênfase à última parte e ficou observando meu rosto.
— Você ouviu a lady — disse Bram. — É uma honra alimentar a esposa do capitão.
Olhei para ela como se olha para algo grudado na sola do sapato.
— Saiam daqui.
O rosto dela desabou. Em seguida, as lágrimas vieram, na hora certa.
— Como você pode dizer isso pra mim… Bram, meu peito, está doendo…
A espada de Bram saiu da bainha, e a ponta subiu até a minha garganta.
— Você machucaria a esposa do capitão? Eu vou te ensinar o preço disso.
A lâmina avançou na minha direção.
Então o chão saltou.
A catedral inteira tremeu. A luz sumiu das janelas de uma vez, como se alguém tivesse jogado um lençol sobre o sol. Algo pressionou o ambiente, pesado como uma mão de pedra, e todos ali se dobraram sob aquele peso.
A espada de Bram bateu no chão. Os joelhos dele cederam. Ele tossiu sangue no mármore.
Coralie foi esmagada onde estava, gritando, incapaz de levantar sequer um dedo.
O ar se rasgou. Uma longa fenda abriu-se no meio da sala, e a escuridão jorrou de dentro.
Um homem atravessou.
Vestes de ouro escuro. Cabelos prateados caindo pelas costas. Olhos vermelhos que percorreram a sala e não se detiveram em ninguém.
O Senhor do Abismo. Eu só tinha ouvido esse nome em histórias para assustar crianças. A coisa que até os deuses evitavam.
Ele passou pelos cavaleiros como se não estivessem ali e parou diante de mim. Seus olhos encontraram os meus, e todo o frio se esvaiu deles.
— Você enfim me chamou — disse ele. A voz era baixa e áspera. — Minha noiva.
Ele se ajoelhou, tomou minha mão e pousou um beijo gelado no dorso dela.
— Me leve embora — eu disse. Minha voz não tremeu.
— Como desejar.
Ele me ergueu nos braços. Não desperdiçou um olhar com Coralie. Levantou uma mão, e metade da parede atrás de nós virou pó. Os gritos recomeçaram quando ele entrou na escuridão, e Velmoria ficou para trás.
Não havia sol para onde ele me levou. Só a noite, e lírios pálidos crescendo na borda da lava.
Sentei-me num trono de pedra fria. Ele se ajoelhou à minha frente com um cálice. O líquido dentro brilhava de um azul fraco.
— Esta é a poção de Lete — disse ele. — Beba, e você vai parar de amá-los. Vai parar de sofrer por qualquer coisa disso. Você vai se lembrar de cada rosto. Só não vai sentir nada.
Ele hesitou. Sua voz ficou cautelosa.
— Tem certeza?
Olhei para o azul rodopiando no cálice.
Por anos eu tinha implorado aos meus pais como um cachorro. Eu tinha dado a Roland tudo o que uma pessoa pode dar. Em troca, ganhei traição, roubo e uma sala cheia de gente rindo enquanto uma espada apontava para a minha garganta.
— Tenho.
Peguei o cálice e engoli tudo.
O frio desceu pela minha garganta e se espalhou pelas minhas mãos. Algo se desprendeu lá no fundo, sob minhas costelas, e se elevou, indo embora.
Anos sendo a segunda opção. Desejar Roland e nunca ser desejada de volta. Sumiu. Tudo rareou e se dissipou, e meu coração ficou quieto, regular.
Pensei nos nomes deles. Garrick. Rosamund. Roland. Coralie. Soaram como os de estranhos. Eu lembrava de tudo. Nada me tocava.
Alaric observou meus olhos se esvaziarem, e sorriu.
Encostou a cabeça no meu joelho.
— Agora você é só minha.
