Capítulo 3

De volta à catedral, o casamento tinha chegado ao seu momento mais grandioso.

Milhares lotavam a praça do lado de fora. Assistiam a tudo pelos Cristais de Eco suspensos no ar sobre a cidade, e os votos do capitão eram levados a cada rua.

Coralie estava diante do altar com o vestido de luz estelar roubada e se embebia dos aplausos. Ela era — tinha certeza disso — a mulher mais feliz e mais elevada viva.

Quando o rito terminou, escapou para uma sala lateral para retocar a maquiagem.

Osric já a esperava. O Sumo Sacerdote esfregou as mãos uma na outra.

— Meus parabéns, Lady Coralie. Agora que está tudo feito... havia aquele pequeno detalhe do saldo que combinamos.

Ela deu um sorriso de canto, puxou uma bolsa pesada de dentro do manto e jogou para ele.

— Dez mil de ouro. Pegue, velho.

Osric apanhou, pesou a bolsa na palma e sorriu até o rosto inteiro se enrugar.

— Generosíssima, minha lady. Fique tranquila. Esse assunto das estrelas cruzadas apodrece na minha barriga para sempre.

Coralie se virou para o espelho e encarou o próprio rosto perfeito, e riu.

— Que idiota. — Ela tirou a coroa do cabelo. — A Maren realmente acreditou. Magia de luz, cruzar as estrelas de uma paladina. Ah, por favor.

— A senhora é esperta, minha lady — disse Osric. — Eu dei ao duque qualquer motivo e ele engoliu inteiro.

— Claro que engoliu. Eles sempre gostaram mais de mim. — A voz dela ficou áspera. — Aquela ninguém do interior. Como se mana pura fizesse ela valer alguma coisa. Eu peguei o vestido dela. Peguei o homem dela. E vou ficar com a última gota de mana que existe nela antes de terminar.

Agora ela estava sorrindo.

— O desmaio, o sangue que eu cuspi... eu fingi tudo. Eu choro um pouquinho e o Roland não consegue pensar direito. Ele nem olha para ela.

— E a melhor parte... — Ela se inclinou mais perto do vidro. — A Maren vai morrer sem nunca saber que o homem por quem ela quase se matou para salvar era meu desde o começo.

Ela estava embriagada com aquilo. Os braços foram se abrindo, cada vez mais.

A manga dela pegou na quina da penteadeira.

Alguma coisa pequena tilintou no chão e rolou para o canto.

Era um dos cristais menores, aqueles instalados em cada cômodo para levar os votos até a cidade. Era para ter apagado quando o rito terminou. O mago que os operava tinha sido jogado ao chão quando o Abismo rasgou a capela, e ele tinha se esquecido de desligar.

Ainda estava brilhando.

Cada palavra que Coralie disse saiu direto por ele, para o grande arranjo no centro da praça, e do arranjo para toda a capital.

“...o desmaio, o sangue que eu cuspi, eu fingi tudo...”

“...a Maren vai morrer sem nunca saber que o homem que ela salvou era meu desde o começo...”

A voz dela rolou pela praça, enorme e nítida.

Então não houve som nenhum.

Milhares de pessoas ficaram de boca aberta e se esqueceram de respirar.

No salão da frente, os nobres congelaram com as taças erguidas. A taça de vinho do duque Garrick escorregou da mão dele e se estilhaçou no chão. A duquesa Rosamund empalideceu e vacilou sobre os próprios pés.

Roland estava no meio da multidão. O sangue fugiu do rosto dele.

As estrelas eram falsas. O sangue era falso. Tudo para tomar tudo o que Maren tinha.

Ele viu de novo os olhos dela, o jeito morto que tinham quando ela foi embora. Viu-a sangrando no Mistwood. Viu-a sorrindo para ele, branca como papel, depois de terem drenado ela até secar.

Não. Não é possível.

— Não — ele disse em voz alta. A voz tremeu. — Não.

Garrick foi o primeiro a voltar a si. Os olhos dele ficaram vermelhos. Ele empurrou a multidão como um animal e correu para a sala lateral. Rosamund e Roland foram cambaleando atrás dele.

A porta se escancarou sob a bota de Roland.

Coralie ainda contava ouro com Osric. Ela se assustou com o estrondo.

— Roland? Mãe, pai... por que vocês estão aqui? — Por instinto, ela compôs aquela expressão macia, ferida.

Roland encarou Coralie. Havia algo no rosto dele que ela nunca tinha visto voltado para ela antes. Fúria. E, por baixo, medo.

Ele se abaixou e arrancou o cristal do chão. A mão tremia tanto que ele mal conseguia segurá-lo.

— O que você acabou de dizer... — A voz saiu como pedra arrastada. — A cidade inteira ouviu.

O sorriso de Coralie morreu.

Ela olhou para o cristal brilhando na mão dele, e tudo na cabeça dela ficou branco.

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