Capítulo 1

Ponto de vista da Maya:

O sol do meio da tarde cortava as janelas do chão ao teto da sede da Garrison Industries, projetando sombras nítidas sobre a minha nova mesa de mogno. O Distrito Financeiro de Boston se estendia lá embaixo, um cânion de aço e vidro onde a ambição subia como ondas de calor do asfalto.

— Maya, como está a adaptação?

Levantei os olhos e vi Sarah encostada na minha divisória, segurando uma caneca fumegante de café como se fosse uma tábua de salvação.

— A transição de Cleveland está sendo tranquila? O ritmo aqui pode ser... bem puxado. Até para quem é daqui.

Antes que eu pudesse formular uma resposta educada sobre a eficiência do metrô ou o custo assustador do aluguel em Somerville, Mark deslizou com sua cadeira até nós com o entusiasmo de um golden retriever.

— Falando em Cleveland — ele interrompeu, com os olhos brilhando por trás dos óculos de aro grosso. — Meu colega de quarto da faculdade mora lá. Ele não para de falar sobre a cena gastronômica. Ele vive mencionando uma coisa... como era mesmo o nome? Pierogi? Uma espécie de massa recheada com batata e queijo?

A pasta parda escorregou das minhas mãos e atingiu o carpete com um baque surdo que soou ensurdecedor no silêncio repentino da minha mente. Pierogi não era apenas uma comida — era uma chave, enferrujada e irregular, girando violentamente em uma fechadura que eu havia passado cinco anos tentando soldar para manter trancada.

O escritório estéril de Boston se dissolveu. O horizonte da cidade desapareceu. Um inverno nevado do Centro-Oeste atingiu meu peito em cheio, me roubando o fôlego.

Cinco anos atrás.

A lembrança me atingiu junto com o cheiro de cebola frita e café barato. A lanchonete da Sra. Kowalski nos arredores de Cleveland — janelas embaçadas, cabines de vinil rachado e os melhores pierogis da cidade. Eu tinha vinte e dois anos, era recém-saída da faculdade, e estava me afogando em dívidas estudantis e no meu primeiro emprego de verdade. E ele estava lá.

— Você está aqui de novo — eu disse, deslizando para o assento da cabine de frente para ele, sem pedir licença. — Terceira vez esta semana. Ou você está me perseguindo, ou é seriamente viciado nesses pierogis.

Ele levantou os olhos de um livro de bolso, com um sorriso lento e tranquilo. — Eu poderia te perguntar a mesma coisa.

— Maya. — Estendi a mão, ainda fria da caminhada até lá.

— Adam. — O aperto de mão dele era quente e firme.

Foi assim que tudo começou. Por seis meses, achei que tinha encontrado a exceção para todas as regras cínicas sobre os relacionamentos modernos. Éramos dois zés-ninguém lutando contra o mundo, dividindo comida barata para viagem e sonhos de um futuro que não envolvesse taxas de cheque especial.

E então, ele se foi.

Aconteceu depois de uma briga. Eu esperava vê-lo no dia seguinte na lanchonete da Sra. Kowalski, nosso lugar de sempre. Mas a cabine dele estava vazia. Esperei durante todo o almoço, e então tentei ligar. "O número discado não está mais em serviço." Fui até o prédio dele, um edifício de tijolos comum e sem elevador, apenas para encontrar o proprietário raspando o nome dele da caixa de correio. — Mudou-se ontem — o velho resmungou. — Pagou em dinheiro vivo para quebrar o contrato.

Fui até a filial onde ele trabalhava, mas a recepcionista apenas me olhou com pena — ninguém com aquele nome jamais estivera na folha de pagamento. Todos os vestígios de "Adam" haviam sido apagados. Passei dias chorando até dormir, agarrada aos canhotos de ingressos e à escova de dentes que ele tinha deixado na minha casa, com o vazio ameaçando me engolir por inteiro.

Então veio o segundo baque: o teste positivo.

A náusea que eu havia atribuído ao estresse acabou se revelando enjoo matinal. Grávida e apavorada, continuei trabalhando durante os dois primeiros trimestres, me agarrando ao meu emprego como uma tábua de salvação, mesmo enquanto meu corpo inchava e meu coração continuava partido. No sétimo mês, o desespero finalmente venceu. Ele tinha mencionado uma vez, por alto, que era de Boston. Então, pedi demissão, empacotei o pouco que tinha e me instalei no quarto de hóspedes da Chloe, com uma conta bancária cada vez mais vazia e uma barriga enorme.

Todos os dias, durante três semanas, vaguei pelas ruas de Back Bay, Beacon Hill e Seaport. Convencida de que o destino simplesmente... o colocaria na minha frente.

Mas não aconteceu.

O que ele me trouxe foi um sangramento e um susto que me deixou internada no hospital por uma semana.

"Maya." Chloe sentou-se ao lado da minha cama, segurando minha mão. "Se Adam quisesse ser encontrado, ele daria um jeito. Você está grávida. Precisa se cuidar agora."

"Mas—"

"Se vocês dois tiverem que se encontrar de novo, isso vai acontecer. Mas, agora, você precisa parar de procurar e começar a sobreviver."

Então, voltei para Cleveland. Tive a Amy. Construí uma vida.

"Maya? Ei, Maya?"

A voz de Sarah parecia vir debaixo d'água, distorcida e distante. Pisquei rapidamente, forçando o escritório estéril a voltar ao foco. Meu coração martelava contra as costelas como um pássaro preso. Olhei para baixo, para a pasta caída no chão, e depois para cima, para o rosto preocupado de Sarah e a expressão confusa de Mark.

"Estou bem", eu disse, minha voz soando frágil para meus próprios ouvidos. Abaixei-me para pegar a pasta, usando o movimento para esconder o tremor nas mãos. "Só... um pouco de tontura. Não tomei café da manhã. Estou bem." Forcei um sorriso, tenso e pouco convincente, mas o suficiente para fazê-los recuar. "Voltando ao trabalho."

Antes que o silêncio se tornasse constrangedor, o interfone na minha mesa zumbiu, salvando-me.

"Maya", a voz de Julian Garrison estalou pelo alto-falante. "Deixe sua noite livre. Vamos comparecer ao baile de gala beneficente da Sterling Global hoje à noite. 19h. Traje a rigor."

"Sim, Sr. Garrison."

Eu já conhecia a rotina. Uma transferência recente para Boston significava eventos de networking, e Julian precisava garantir o projeto Austin. Isso era parte do trabalho.

Duas horas depois, eu estava no quarto de hóspedes do apartamento de Chloe em Back Bay, com o sol do final da tarde filtrando pelas persianas. O quarto era um caos de caixas fechadas e brinquedos — eu estava em Boston havia apenas uma semana, muito sobrecarregada de trabalho para sequer olhar os anúncios de aluguel.

"Mamãe, você está parecendo uma princesa!"

Amy estava sentada de pernas cruzadas no chão, tagarelando com um vaso de samambaia que ela havia chamado de 'Sr. Verde'. Ela se virou, com os olhos verde-acinzentados brilhando de encanto. Seus cachos dourados balançaram enquanto ela se punha de pé.

"Você acha, meu amor?" Eu me agachei, alisando o vestido azul-meia-noite que Chloe havia me emprestado. Era uma peça Christian Louboutin, muito além do meu orçamento, uma seda que caía como água.

"Com certeza", disse Chloe, encostada no batente da porta. "Vá. Arrase."

Abracei Amy com força, inalando o cheiro de xampu de bebê. "Seja boazinha com a tia Chloe, ok?"

"Eu sou sempre boazinha!" Amy declarou.

O local era um dos hotéis históricos à beira-mar de Boston, um lugar que cheirava a fortunas antigas, mogno e lírios. O Grande Salão era iluminado por lustres dos quais pendiam cristais como lágrimas congeladas, e já estava se enchendo com a elite da cidade.

Caminhei ao lado de Julian, segurando minha bolsa como um escudo. Eu me sentia uma impostora naquele vestido de seda. Julian, por outro lado, movia-se pelo salão com a desenvoltura de quem tem prática, acenando para potenciais investidores, com uma postura calma e controlada.

"Fique por perto", Julian disse baixinho, pegando uma taça de champanhe de uma bandeja que passava. "Precisamos causar uma boa impressão nos executivos da Sterling esta noite."

De repente, o burburinho das conversas diminuiu. Não um silêncio total, mas uma quietude que se propagou a partir da entrada principal no topo da escadaria. O ar pareceu se carregar de uma gravidade repentina.

Olhei para cima, seguindo o olhar da multidão.

No topo da escada estava um homem em um terno chumbo, caminhando com uma graça solitária e predatória. Alto, de ombros largos, o tipo de presença que atraía a atenção sem esforço. Um broche de lapela de safira reluzia friamente contra o tecido escuro.

Minha respiração falhou. O mundo saiu do eixo.

Era um rosto que eu havia traçado com as pontas dos dedos no escuro. Um rosto que eu havia procurado em todas as multidões durante cinco anos agonizantes.

Próximo Capítulo