Capítulo 9

Ponto de vista de Maya:

Voltei para o escritório da Garrison Industries no final da tarde. Fui direto para a sala de Julian.

— Missão cumprida? — ele perguntou.

— Entregue — eu disse, colocando o recibo na mesa dele. — Diretamente ao Sr. Sterling, como solicitado.

Julian estudou meu rosto por um momento, com uma expressão indecifrável.

— Ele dificultou as coisas para você hoje?

Eu congelei. — Como assim?

— O Sr. Sterling e você tiveram alguns desentendimentos lá em Cleveland, não é?

— Ah, sim! E parece que ele ainda não superou isso. — Fiz uma pausa, avaliando a reação de Julian, e então prossegui: — Acho que a minha presença é uma distração. Pode ser mais eficiente para a empresa se outra pessoa lidar com as interações cara a cara com a Sterling Global. Talvez a Sarah pudesse entregar os documentos da próxima vez?

Julian me olhou pensativo. Por um segundo, achei que ele fosse insistir por mais detalhes.

Em vez disso, ele apenas assentiu.

— Justo — ele disse. — Não preciso que as vinganças pessoais dele atrasem o nosso acordo. Vou pedir para a Sarah cuidar das entregas a partir de agora.

O alívio tomou conta de mim com tanta força que quase desabei contra o batente da porta. — Obrigada, Sr. Garrison. Eu agradeço muito.

— Não seja por isso. — Ele olhou para o relógio. — São cinco e meia. Você já devia ir. Precisa de uma carona?

— Ah, não, obrigada — eu disse rapidamente. — Vou pegar o ônibus. Ele para bem perto da creche da Amy.

— Tem certeza?

— Absoluta. Tenha uma boa noite, Sr. Garrison.

Eu praticamente voei de volta para a minha mesa, enfiando meu notebook e meu caderno na bolsa com as mãos trêmulas. O elevador parecia não chegar nunca. Apertei o botão três vezes, torcendo para que andasse logo.

Quando finalmente saí apressada do saguão para a Rua Tremont, vi as luzes traseiras do ônibus 43 se afastando do meio-fio.

— Não, não, não... — Corri alguns passos, acenando com o braço inutilmente. O ônibus se misturou ao trânsito e desapareceu virando a esquina.

Merda.

Olhei o celular: 17:45. O próximo ônibus só passaria dali a dez minutos.

A buzina de um carro tocou suavemente atrás de mim.

Eu me virei. O Audi prata de Julian estava parado no meio-fio com o motor ligado e o vidro do passageiro abaixado.

— Entra — ele chamou.

Hesitei, apertando a alça da minha bolsa. — Sr. Garrison, é sério, está tudo bem. O próximo ônibus...

— Só passa daqui a dez minutos — ele disse, me interrompendo. — E você acabou de perder o seu porque eu a segurei conversando. Entra, Maya. Não é um pedido.

Olhei para o meu celular de novo. Eu não tinha escolha.

— Tudo bem — eu disse, abrindo a porta. — Obrigada.

O interior cheirava levemente a couro e cedro. Coloquei o cinto de segurança enquanto Julian entrava suavemente no trânsito.

— Endereço?

— Creche Comunitária Sunny Days. Fica em Somerville, perto da Avenida Highland.

Ele digitou no sistema de navegação sem fazer comentários. Dirigimos em silêncio por um tempo, as luzes da cidade borradas pelas janelas riscadas de chuva. Eu continuava olhando para o relógio no painel, vendo os minutos passarem.

18:02.

18:08.

18:14.

Demos de cara com uma parede de luzes de freio na Rua Cambridge. Julian batucou os dedos no volante e, em seguida, virou bruscamente à direita em uma rua secundária que eu não reconheci.

— Atalho — ele disse.

Ele navegou pelas ruas residenciais estreitas com a facilidade de alguém que morou aqui a vida toda. Encostamos no meio-fio em frente à creche às 18:28.

Tirei o cinto de segurança imediatamente. "Muito obrigada, Julian. De verdade. Você me salvou de pagar uma multa por atraso."

"Não se preocupe com isso." Ele acenou com a cabeça em direção ao prédio. "Vá buscar sua filha."

Pulei para fora e corri em direção à entrada. O prédio era uma casa de tijolos adaptada, alegre, mas desgastada. Empurrei a porta da frente, sem fôlego.

A Sra. Anderson, a diretora, estava parada perto da lista de saída, batendo uma caneta em sua prancheta. Ela olhou para o relógio na parede e depois para mim.

"Srta. Bennett", disse ela. Seu tom era seco. "Chegou no limite."

"Eu sei, me desculpe mesmo", eu disse, assinando a lista com a mão trêmula.

"Você conhece as regras", ela interrompeu, estreitando os olhos por trás dos óculos. "Seis e meia em ponto. Se você se atrasar, é um dólar por minuto. E se acontecer mais de duas vezes por mês, teremos que reconsiderar a matrícula da Amy."

Meu estômago gelou. "Não vai acontecer de novo."

A expressão da Sra. Anderson suavizou só um pouquinho. "Ela está no cantinho da leitura. É a última."

Apressei-me pelo corredor. Amy estava sentada em um pufe perto da janela, com sua mochilinha já nos ombros. Ela estava seguindo os contornos da estampa do tapete com o sapato.

Quando ela me viu, seu rosto inteiro se iluminou; aquela alegria pura e instantânea que fazia cada parte terrível do meu dia desaparecer.

"Mamãe!"

"Oi, meu amor." Eu a peguei no colo, afundando meu rosto em seu cabelo macio e cacheado. Ela cheirava a baunilha e tinta guache. "Pronta para ir?"

"Sim! A Sra. Anderson disse que você estava vindo."

"Eu sempre venho te buscar. Sempre."

Eu a carreguei para fora. Julian ainda estava estacionado no meio-fio, encostado em seu carro.

Julian sorriu. "Oi, pequena. Como foi a escolinha?"

"Legal! Nós aprendemos sobre pinguins."

"Pinguins, é? Que legal."

Coloquei Amy no chão e peguei sua mão. "Nós já vamos. Obrigada de novo pela carona."

Julian assentiu. "Até amanhã, Maya."

Caminhamos em direção ao apartamento. Amy tagarelou o caminho todo, me contando sobre o documentário de pinguins que eles tinham assistido e como os pinguins conseguem prender a respiração por vinte minutos.


Ponto de Vista de Adam

Levantei os olhos do contrato que estava revisando.

Maya estava dormindo.

Sua cabeça estava inclinada para trás contra a almofada, os lábios levemente entreabertos. Uma das mãos repousava em seu colo.

Pousei minha caneta.

Levantei-me e caminhei até o sofá. Sentei-me ao lado dela.

Ela acordou num sobressalto, arregalando os olhos. Por um segundo, pareceu confusa. Depois, envergonhada.

"Me desculpe, Sr. Sterling." Ela se endireitou rapidamente, as bochechas corando. "Eu não queria dormir. Seu escritório é que... é muito confortável, e eu não dormi bem noite passada..."

"Por que você não dormiu bem?"

Ela piscou. "O quê?"

"Na noite passada", eu disse. "O que tirou seu sono?"

"Não foi nada. É só que..."

"O que você estava fazendo?"

Ela trincou o maxilar. "Sr. Sterling, com todo o respeito, isso não é da sua conta."

Inclinei-me para trás. "Você estava com o Julian?"

Ela arregalou os olhos. "O quê?"

"Você estava transando com ele?"

Ela se levantou. Rápido. "Isso... isso é completamente inapropriado..."

"Sente-se."

"Não."

"Maya." Minha voz saiu baixa. Perigosa. "Sente-se. Agora."

Seus olhos brilharam de raiva, mas ela não se mexeu.

Uma batida na porta.

"O que foi?", disparei.

A porta se abriu. Um dos assistentes juniores estava lá, parecendo apavorado.

"S-Sr. Sterling, me desculpe interromper, mas a Srta. Victoria Garrison está aqui. Ela gostaria de convidá-lo para jantar esta noite..."

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