Chapter 2
À meia-noite, a casa parecia ter engolido o jantar inteiro e deixado apenas o veneno.
Os garçons foram embora. Os parentes também, levando nos celulares versões diferentes da mesma história: Helena Duarte humilhou dois órfãos. Helena Duarte enlouqueceu de ciúme. Helena Duarte nunca aceitou o peso da gratidão. O tipo de fofoca que atravessava Jardins antes do café da manhã e chegava aos camarotes de leilões como se fosse notícia de mercado.
Eu subi a escada sem tirar os brincos. Precisava sentir o peso deles. Rubis antigos, montados pela minha avó num desenho que a imprensa chamava de "sangue de jabuticaba" e ela chamava apenas de trabalho bem-feito.
No corredor, encontrei Marina parada diante da porta do quarto.
— Mãe.
Quantos anos eu passei ouvindo essa palavra como ruído de fundo? Quantas vezes escolhi pacificar Ricardo e depois prometi a mim mesma que conversaria com minha filha no dia seguinte?
— Entra comigo.
Ela obedeceu devagar, desconfiada da própria esperança.
Meu escritório ficava no fundo da suíte, com vista para a copa de um ipê. Tranquei a porta, liguei a luminária e tirei do cofre pequeno uma pasta azul. Na outra vida, eu só voltei a procurar aquela pasta quando já era tarde. Os documentos estavam lá: contrato social da holding familiar, acordo de quotistas, testamento da minha mãe, procurações revogáveis, relação de marcas registradas no INPI e uma cópia dos termos de acesso ao arquivo histórico.
Marina olhou para os papéis como quem vê armas sobre a mesa.
— Você vai brigar com o papai?
— Não vou brigar. Vou proteger o que é nosso.
Ela engoliu em seco.
— Eu achei que você fosse assinar.
A frase não acusava. Era pior. Era costume.
Sentei diante dela.
— Eu também teria achado.
Marina abraçou o caderno.
— Bianca disse que eu estava sendo egoísta por ficar quieta. Que se eu gostasse mesmo do papai, ia querer que ele honrasse o amigo dele.
— Bianca não decide o tamanho do seu amor.
Minha filha piscou rápido, como se a defesa fosse uma língua estrangeira.
— E Caio? Ele quer trabalhar com criação. O papai disse que talento precisa de chance.
Na outra vida, usei a mesma frase para abrir a porta que Caio arrombou.
— Talento não precisa de chave do arquivo da minha avó.
Marina olhou para o próprio caderno. Eu estendi a mão.
— Posso ver?
Ela hesitou. Eu merecia aquela hesitação.
Depois me entregou.
As páginas estavam cheias de desenhos pequenos, nervosos, brilhantes. Não eram cópias dos clássicos Duarte. Eram conversas com eles. O jeito como ela quebrava uma linha de esmeraldas para criar espaço para o vazio. A curva de um brinco que parecia flor e lâmina. Um anel inspirado nas grades antigas da varanda, mas com uma pedra suspensa como se desafiasse gravidade.
Senti raiva. Não de Marina. De todos os anos em que deixei esse mundo escondido debaixo de capas escolares.
— Você desenhou isso quando?
— Sempre que dava.
Sempre que dava. Entre jantares onde ninguém perguntava. Entre elogios a Bianca por "saber se portar". Entre Ricardo dizendo que Marina era sensível demais para a pressão da marca.
Fechei o caderno com cuidado.
— Amanhã você não vai à escola.
Ela arregalou os olhos.
— Mãe, se for por causa da reunião...
— É por causa da reunião. E por causa do atelier.
Peguei uma folha em branco e dividi ao meio. No topo de uma coluna, escrevi: EU SEI. Na outra: EU POSSO PROVAR.
Marina se inclinou.
— O que é isso?
— A diferença entre sofrer de novo e vencer.
Na primeira coluna, escrevi: Ricardo convocou conselho sem me avisar. Caio se interessa pelo arquivo. Bianca usa culpa como moeda. Monteverde observa a Casa Duarte. Marina tem desenhos originais.
Na segunda: ata de convocação. registro de entrada. câmeras. caderno datado. e-mails. documentos da holding. INPI.
Marina ficou pálida.
— Você fala como se já soubesse o que vai acontecer.
Minha mão parou. Eu não podia dizer: eu vi você ser destruída. Eu vi minha assinatura virar sua sentença. Eu voltei de uma vida onde morri sem conseguir pedir perdão.
— Eu sei o suficiente sobre pessoas que confundem bondade com renúncia.
Ela aceitou a meia verdade, talvez porque precisasse dela.
À uma e quinze, mandei mensagem para Dra. Valéria Menezes.
Preciso de você amanhã às oito na Casa Duarte. Ricardo convocou conselho extraordinário. Não quero reação emocional. Quero estatuto, acordo de quotistas, ata notarial e revogação de acessos preparados.
A resposta veio em menos de um minuto.
Finalmente.
Sorri pela primeira vez.
Depois Valéria completou:
Não assine nada. Não entregue pasta original. Não deixe ninguém entrar no arquivo. Vou levar uma escrevente de cartório se necessário.
Marina leu por cima do meu ombro.
— Ela já esperava isso?
— Valéria espera tudo. É por isso que eu pago caro.
Um barulho veio do corredor. Passos masculinos, lentos. Ricardo parou diante da porta. A maçaneta mexeu.
— Helena, abre.
Marina encolheu.
Eu apaguei a folha, não no sentido de esconder, mas de virar a página. Peguei outra e escrevi uma única frase: A partir de amanhã, nenhum favor entra sem documento.
— Helena — Ricardo insistiu. — O conselho não vai aceitar esse seu surto.
Olhei para Marina.
— Está ouvindo?
Ela assentiu, assustada.
— Isso é o som de alguém descobrindo que perdeu o controle.
Do outro lado da porta, meu marido disse:
— Se você bloquear a inclusão deles, eu vou pedir ao conselho que limite seus poderes operacionais.
Marina levou a mão à boca.
Eu respondi sem levantar a voz:
— Tente.
