Chapter 3

Valéria chegou às sete e quarenta e dois, antes do café, com uma pasta preta, um coque baixo e a expressão de quem já tinha processado homens mais ricos que Ricardo por menos arrogância.

Atrás dela vinha uma escrevente do cartório, chamada Sílvia, carregando uma maleta discreta. Cartório dentro da minha sala de jantar. A vida, quando queria ser irônica, tinha bom gosto.

— Você dormiu? — Valéria perguntou.

— Não.

— Melhor. Gente descansada costuma perdoar demais.

Marina, ao meu lado, quase sorriu.

Fomos para o escritório do térreo. Valéria abriu os documentos como quem monta uma mesa cirúrgica.

— A Casa Duarte opera em três camadas — ela disse para Marina, mas olhando para mim. — A holding familiar concentra as quotas da operação. A marca, os desenhos registrados e parte do acervo têm registros e contratos próprios. O arquivo histórico pertence à holding, mas o acesso é regulado por termo interno aprovado antes do casamento da sua mãe com Ricardo.

Marina franziu a testa.

— Meu pai não controla?

— Seu pai representa muito. Controla pouco.

Eu inspirei. Na outra vida, essa diferença morreu sufocada por culpa.

Valéria virou uma página.

— Helena tem maioria qualificada. Ricardo pode convocar conselho em situações específicas. Não pode alterar sucessão, liberar arquivo sensível ou criar direito econômico para terceiros sem anuência da controladora e sem seguir o acordo de quotistas.

— E se o conselho votar contra ela? — Marina perguntou.

Valéria sorriu.

— Conselho não transforma vontade em propriedade.

Sílvia começou a registrar nossa reunião em ata notarial. O clique do teclado soava melhor que música.

Às oito e dez, pedi ao segurança que me enviasse os registros da noite anterior. Eu ainda me lembrava do ponto exato em que Caio se levantara durante a sobremesa. Na primeira vida, achei que ele fosse ao banheiro. Hoje pedi as câmeras.

O vídeo chegou pelo tablet.

Caio apareceu no corredor do atelier às vinte e duas horas e treze minutos. Olhou para trás. Digitou algo no celular. Aproximou-se da porta do arquivo. Não entrou, porque a fechadura biométrica ainda recusava visitantes sem cadastro. Mas levantou o telefone e fotografou a placa interna colada ao vidro: ARQUIVO DUARTE - MAPAS DE CRAVAÇÃO, MATRIZES, DESENHOS ORIGINAIS.

Marina ficou imóvel.

— Ele tirou foto da porta?

— Da porta, por enquanto — eu disse.

Valéria estendeu a mão.

— Me mande o arquivo original, não print. Júlia Nair consegue preservar metadados e cadeia de custódia.

Encaminhei o vídeo. Em seguida, mandei outra mensagem para o gerente do atelier: suspender temporariamente todos os acessos não essenciais, revisar assinaturas do livro de retirada, trocar senha da sala de digitalização.

Ricardo entrou sem bater.

Ele viu Valéria. Viu Sílvia. Viu Marina. O rosto dele mudou.

— Você trouxe advogada para dentro da nossa casa?

— Você trouxe um conselho para dentro do nosso casamento.

Valéria fechou a pasta com delicadeza.

— Bom dia, Ricardo.

— Dra. Valéria, isso é assunto familiar.

— Holding familiar continua sendo holding. A parte familiar não suspende a lei.

Ele me encarou.

— Você está transformando uma promessa em guerra.

— Não. Estou impedindo que uma promessa vire escritura.

Ricardo soltou uma risada curta.

— Bianca e Caio perderam o pai. Eu não vou deixá-los sem chão porque você acordou desconfiada.

Marina abaixou os olhos. Eu toquei o pulso dela por baixo da mesa.

— Eles podem ter apoio financeiro, estudo, moradia, tratamento. Nada disso exige quotas, cargo, sobrenome comercial ou arquivo.

— Você fala deles como aproveitadores.

— Eu falo dos documentos como documentos.

Ricardo jogou uma folha sobre a mesa. Convocação do conselho. Pauta: revisão emergencial de governança; inclusão de Bianca Reis em comitê institucional; inclusão de Caio Reis em programa de criação; deliberação sobre poderes unilaterais da controladora.

Valéria leu sem mover uma sobrancelha.

— Quem redigiu?

— Nosso jurídico.

— O jurídico da operação, que responde à controladora, ou o advogado particular que ontem tentou coletar assinatura num jantar?

Ricardo não respondeu.

Marina levantou o rosto.

— Pai, por que isso precisa ser hoje?

Ele suavizou a voz na hora. Era o talento dele: parecer humano quando havia plateia.

— Porque sua mãe está assustada e pode tomar decisões injustas.

Na outra vida, eu teria me defendido. Teria explicado que não odiava Bianca, que não queria punir Caio, que ainda amava Ricardo. Explicações eram areia movediça.

— Marina — eu disse — pegue seu caderno.

Ela obedeceu.

Ricardo piscou, impaciente.

— O que isso tem a ver?

— Tudo. A partir de hoje, qualquer desenho dela será datado, digitalizado e preparado para registro. E nenhum terceiro sem contrato específico terá acesso ao atelier enquanto eu estiver viva.

O rosto de Caio apareceu na porta nesse exato instante.

Ele tinha ouvido.

Bianca surgiu atrás dele, pálida e perfeita.

— Tia Helena, isso é por minha causa?

— Não me chame de tia em reunião de governança.

A máscara dela rachou por meio segundo.

Ricardo bateu a mão na mesa.

— Basta. Às dez, todos estarão na sede. Eu já confirmei presença dos conselheiros. E, Helena, a pauta de sucessão está mantida.

Valéria levantou os olhos.

— Sucessão?

Ele percebeu tarde demais que tinha dito mais do que devia.

— Vou propor que Bianca e Caio sejam reconhecidos como beneficiários afetivos da estrutura familiar, com previsão de ingresso futuro.

Ali estava. O golpe, vestido de bondade, colocado em ata antes mesmo de nascer.

Sílvia digitou tudo.

Eu olhei para meu marido.

— Obrigada por confirmar.

Ricardo empalideceu.

E eu soube que a guerra tinha acabado de sair da sala de jantar para o papel.

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