Capítulo 2 Capítulo 2 - Você Nunca Será Uma Verdadeira Thunder
Hope quase não dormiu naquela noite.
Sempre que fechava os olhos, lembrava da voz na floresta. Era baixa, distante, mas ainda parecia presa dentro da cabeça dela.
Durante horas tentou se convencer de que foi apenas o vento passando pelas árvores ou o cansaço brincando com sua mente. Mesmo assim, alguma coisa dentro de seu peito continuava diferente.
Não era dor.
Era presença.
Como se existisse alguma coisa atrás de uma porta trancada, empurrando devagar, tentando encontrar uma passagem. Hope levou a mão até o peito enquanto descia as escadas naquela manhã. Respirou fundo e tentou ignorar aquela sensação estranha.
— Você está ficando louca — sussurrou para si mesma. — Era só uma voz. Pessoas cansadas escutam coisas.
Ela parou.
— Certo. Isso não melhorou em nada.
Hope decidiu evitar a casa durante a manhã. Depois do que havia acontecido no café do dia anterior, não tinha vontade de encontrar Mirella ou Elara tão cedo. Seguiu diretamente para o campo de treinamento, onde os guerreiros já praticavam combate em forma humana.
Mesmo sem conseguir se transformar, Hope havia encontrado formas de ser útil.
Ela aprendeu primeiros socorros ainda adolescente. Conhecia ervas, sabia limpar cortes, preparar compressas e reconhecer quando uma ferida precisava da atenção de um curandeiro mais experiente. Não era a vida que imaginou para si, mas ao menos ali podia ajudar.
— Não mexa o braço.
Um jovem guerreiro sentado diante dela fez uma careta.
— Está doendo.
Hope apertou o pano contra o corte.
— Que descoberta incrível. Normalmente cortes profundos são conhecidos por fazer cócegas.
Ele riu apesar da dor.
— Você é cruel.
— E você tentou bloquear uma lâmina com o braço.
— Funcionou.
Hope apontou para o sangue.
— Claramente.
O guerreiro saiu alguns minutos depois, com o braço limpo e enfaixado. Hope começou a organizar as ervas sobre a pequena mesa quando alguém colocou uma maçã diante dela.
— Você não tomou café.
Ela reconheceu a voz antes de levantar os olhos.
Rowan estava parado ao lado da mesa.
Ele tinha vinte e quatro anos e era um dos melhores jovens guerreiros de Thunder. Hope o conhecia desde criança. Rowan estava presente na primeira vez em que ela caiu de uma árvore, na primeira briga com Elara e também no dia em que todos esperaram pela primeira transformação dela.
E, diferente de quase todos, nunca a tratou de maneira diferente depois que ela não aconteceu.
— Como sabe que não tomei café? — perguntou Hope.
Rowan puxou um banco.
— Porque você sempre aparece aqui irritada quando briga com sua família.
— Eu sou irritada naturalmente.
— Também.
Hope pegou a maçã.
— Obrigada.
Rowan permaneceu olhando para ela.
Hope mordeu a fruta.
— O quê?
— Você está estranha.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Essa talvez seja a pior maneira possível de iniciar uma conversa com uma mulher.
— Não falei que está feia.
— Melhorou um pouco.
Rowan sorriu, mas depois ficou sério.
— Estou falando de verdade. Desde que chegou, você olha para os lados como se esperasse alguém chamar seu nome.
Hope parou de mastigar.
Ele percebeu.
— Aconteceu alguma coisa?
Hope olhou para os guerreiros ao redor. Ninguém prestava atenção neles.
Então aproximou o rosto de Rowan.
— Se eu contar que ouvi uma voz dentro da minha cabeça, você promete não pedir para me trancarem?
Rowan ficou alguns segundos calado. Depois soltou uma risada.
— Depende. A voz mandou você matar alguém?
Hope segurou o sorriso.
— Ainda não.
— Então temos tempo.
Ela acabou rindo também. Foi bom. Durante alguns segundos, Hope conseguiu esquecer tudo.
— Estou falando sério.
— Eu também.
Rowan se aproximou um pouco.
— Onde ouviu?
— Ontem, na floresta.
— Alguém estava perto?
— Não.
— Pode ter sido um lobo se comunicando por engano.
Hope balançou a cabeça.
— Não foi assim.
Ela colocou a maçã sobre a mesa.
— Parecia vir de dentro de mim.
Rowan ficou sério.
— Hope...
— Eu sei.
— Você sentiu mais alguma coisa?
Ela hesitou.
— Meu peito doeu. E desde então parece que existe alguma coisa aqui. — Hope levou a mão ao coração. — Como se estivesse tentando acordar.
Rowan olhou para ela de um jeito diferente. Não com pena. Com esperança.
— Talvez seja sua loba.
Hope desviou o rosto.
— Não faça isso.
— Fazer o quê?
— Me dar esperança. — Rowan ficou quieto. Hope respirou fundo. — Eu já esperei seis anos. Não quero acreditar que finalmente está acontecendo e descobrir que minha cabeça resolveu enlouquecer de vez.
— Você não está louca.
— Essa é exatamente a frase que alguém diria antes de me levar para uma sala fechada.
Rowan começou a rir novamente. Então uma voz cortou o momento.
— Que cena bonita.
Hope fechou os olhos por um segundo.
Elara.
Ela vinha do campo de treinamento com os cabelos presos e as roupas suadas depois da prática. Parou diante dos dois e olhou primeiro para Rowan, depois para Hope.
— Não sabia que a enfermaria também servia para encontros.
Hope voltou a organizar as ervas.
— Não sabia que o campo de treinamento havia liberado você tão cedo.
Elara ignorou a provocação.
— Rowan, deveria tomar cuidado.
Ele franziu a testa.
— Com o quê?
Elara lançou um olhar para Hope.
— Algumas mulheres podem interpretar gentileza como interesse.
Hope respirou fundo.
— Elara...
— Estou só tentando ajudar.
Rowan levantou.
— Não parece.
Elara cruzou os braços.
— Ela nem consegue sentir um vínculo de companheiros. Seria cruel criar expectativas em alguém assim.
Hope sentiu o golpe. Rowan ficou imediatamente sério.
— Hope não precisa de uma loba para merecer respeito.
Elara soltou uma risada curta.
— Você fala assim porque sente pena dela.
— Chega.
Hope se levantou. Rowan olhou para ela.
— Hope...
— Não fale por mim, Rowan. Eu consigo me defender. — Ela então encarou Elara. — E não se preocupe com quem vai querer ficar comigo. Preocupe-se em descobrir por que você precisa me diminuir para se sentir grande.
Elara ficou vermelha.
— Eu não preciso diminuir ninguém.
— Precisa sim. — Hope deu um passo à frente. — Porque se estivesse realmente tão segura de quem é, minha existência não incomodaria tanto você.
Elara apertou a mandíbula.
— Você nunca será uma verdadeira Thunder.
O campo pareceu ficar mais silencioso. Hope sustentou o olhar dela.
— Talvez. — Elara pareceu surpresa. Hope continuou: — Mas se ser uma verdadeira Thunder significa precisar ferir alguém para se sentir importante, então talvez eu não queira ser.
Elara não respondeu. Hope pegou suas coisas e saiu antes que a discussão crescesse. Mas as palavras ficaram dentro dela.
— “Você nunca será uma verdadeira Thunder.”
Ela já havia escutado aquilo de outras formas durante anos. Mesmo assim, doía.
No fim da tarde, Hope tomou uma decisão. Procuraria o pai. Não para discutir sobre Elara. Queria respostas.
Encontrou Evon sozinho no escritório. Ele analisava documentos quando Hope entrou sem bater. O Alfa ergueu os olhos.
— Eu mandei entrar?
— Não.
— Então saia e bata.
Hope fechou a porta atrás de si.
— Não vim aprender etiqueta.
Evon largou o papel.
— O que quer?
Hope respirou fundo.
— Quero falar sobre minha mãe.
A mudança foi imediata. Evon ficou imóvel.
— Não.
— Nem perguntei ainda.
— E não vai perguntar.
Hope aproximou-se da mesa.
— Por que ela morreu?
Evon apertou a mandíbula.
— Você sabe como ela morreu.
— Sei o que me disseram.
— É a mesma coisa.
— Não para mim.
Evon levantou.
— Hope.
Ela não recuou.
— Por que quase não existem retratos dela? Por que ninguém fala sobre a família dela? Por que sempre que pergunto alguma coisa você muda de assunto?
Evon ficou mais frio.
— Não volte a perguntar sobre sua mãe.
Hope sentiu a raiva crescer.
— Por quê?
— Porque estou mandando.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Claro.
Evon estreitou os olhos.
— O que significa isso?
— Significa que você sempre manda. Nunca explica. Nunca conversa comigo. Nunca responde nada. — Hope sentiu a garganta apertar. — Nunca olha para mim como olha para Elara.
Evon fechou o rosto.
— Não coloque sua irmã nisso.
— Ela sempre está nisso.
— Elara cumpre o papel dela dentro desta alcateia.
Hope engoliu em seco.
— E eu não?
Evon demorou alguns segundos. Então falou:
— Elara tem uma loba.
A frase atingiu Hope como um tapa. Ela ficou imóvel.
— E eu sou sua filha.
Evon respirou fundo.
— Você é uma filha de Alfa que não consegue se transformar. Entenda a diferença.
Os olhos de Hope encheram de lágrimas. Ela não deixou nenhuma cair. Não diante dele.
— Eu entendi há muito tempo. — A voz saiu mais baixa. — Só esperava que um dia você entendesse que eu continuo sendo sua filha.
Evon desviou os olhos. Foi suficiente. Hope assentiu lentamente.
— Não se preocupe. Não vou perguntar sobre mamãe novamente.
Ela virou de costas.
— Hope...
Hope parou. Por um segundo, esperou. Talvez ele finalmente dissesse alguma coisa. Evon permaneceu calado. Ela abriu a porta.
— Foi o que imaginei.
Hope saiu. A porta fechou. Evon permaneceu sozinho. O velho Alfa ficou parado durante vários segundos, olhando para o lugar onde a filha estivera. Então caminhou até a escrivaninha.
Abriu uma pequena gaveta. Retirou alguns documentos. Pressionou o fundo de madeira. Um compartimento secreto se abriu. Lá dentro havia um pequeno medalhão prateado.
Evon o segurou com mãos tensas. Abriu. O rosto de Lyanna estava diante dele. Jovem. Sorrindo. Exatamente como Hope quando sorria de verdade.
Evon passou o polegar pela imagem.
— Está começando, não está?
Ele virou o medalhão. No verso havia uma pequena inscrição. Palavras que Evon conhecia há vinte e dois anos. Palavras que temia desde o nascimento de Hope.
— “Quando a herdeira despertar, a Lua responderá.”
Evon fechou o medalhão rapidamente.
Mas já não conseguia afastar uma certeza.
Se Hope realmente estivesse começando a despertar, todos os segredos que ele enterrou durante duas décadas estavam prestes a voltar à superfície.
