Capítulo 3 Capítulo 3 - A Ômega Que Não Se Curva
A tempestade da noite anterior havia derrubado duas árvores, arrancado parte de um telhado e espalhado lama por quase toda a parte mais baixa do território da alcateia de Thunder.
Hope soube do estrago antes mesmo do café e saiu de casa sem esperar autorização. Preferia sujar as botas ajudando alguém do que passar a manhã ouvindo Mirella reclamar de sua presença.
A família atingida era de ômegas. O pai trabalhava nos estábulos, a mãe ajudava na cozinha comunitária e tinham três filhos pequenos.
A casa simples deles havia perdido metade do telhado e a água entrou nos dois quartos. Quando Hope chegou, encontrou móveis do lado de fora, cobertores encharcados e duas crianças tentando salvar brinquedos da lama.
— Isso aqui está parecendo uma guerra — comentou Hope, prendendo os cabelos.
A mãe das crianças, Mara, virou-se surpresa.
— Hope? O que está fazendo aqui?
— Vim ajudar.
— Não precisa.
Hope olhou para a casa destruída.
— Precisa sim.
Mara ainda hesitou.
— Se sua família descobrir...
— Minha família sempre descobre alguma coisa para reclamar. Pelo menos hoje vão reclamar por um motivo útil.
Mara acabou sorrindo.
Hope passou a manhã inteira carregando tábuas, limpando água e ajudando a separar o que ainda podia ser salvo. Não se importava quando alguém dizia que aquilo não era trabalho para filha de Alfa.
Na verdade, frases assim sempre a deixavam irritada. Hope odiava a ideia de que algumas pessoas deveriam nascer apenas para mandar enquanto outras eram obrigadas a obedecer.
Um senhor mais velho tentou levantar um móvel pesado e quase caiu. Hope correu até ele.
— Pare com isso.
— Ainda consigo carregar uma mesa.
— Também consegue ficar com a coluna travada por duas semanas. Quer testar?
O homem soltou uma risada.
— Sua língua continua afiada.
— É uma das poucas coisas que despertaram na idade certa.
Ele riu ainda mais.
Aquela era uma das coisas que Hope amava naquela parte da alcateia. Ninguém andava ao redor dela medindo o que faltava. Os mais simples conheciam suas dores, mas raramente as usavam contra ela. Talvez porque estivessem acostumados demais a também serem tratados como menores.
Quando percebeu que quase não havia comida na casa, Hope ficou séria.
— Mara, vocês comeram?
A mulher desviou o olhar.
— Vamos dar um jeito.
Hope cruzou os braços.
— Isso não foi uma resposta.
— As provisões molharam.
— E as crianças? — Mara olhou para os filhos. Hope já sabia. — Certo. Não saiam daqui.
Ela voltou para a residência principal e entrou pela parte lateral, evitando o salão. Conhecia bem os horários da cozinha. Pegou dois sacos pequenos de farinha, pão, frutas secas, carne salgada e algumas ervas. Também colocou leite e queijo em uma cesta.
Uma cozinheira viu.
— Hope...
Ela colocou o dedo diante dos lábios.
— Você não viu nada.
— Se Mirella descobrir...
— Mirella vai sobreviver.
— E você?
Hope levantou a cesta.
— Provavelmente também.
A mulher tentou esconder o sorriso. Quando voltou, as crianças correram até ela. O menor, Finn, tinha seis anos e os cabelos castanhos sempre bagunçados. Ele olhou a cesta como se Hope tivesse aparecido carregando um tesouro.
— Tem pão?
— Tem.
— Com mel?
Hope fez uma expressão séria.
— Eu sabia que tinha esquecido alguma coisa importante. — Finn abriu a boca decepcionado. Hope então tirou um pequeno pote escondido no fundo. — Estou brincando.
O menino sorriu enorme. Mara levou a mão ao peito.
— Hope, eu não posso aceitar tudo isso.
— Pode.
— Isso veio da casa do Alfa.
— Então tecnicamente veio da alcateia.
— Seu pai não vai gostar.
Hope entregou a cesta.
— Meu pai não gosta de metade das coisas que faço.
Finn segurou a barra da blusa dela.
— Hope?
Ela se abaixou.
— O que foi?
Ele olhou para ela com curiosidade verdadeira.
— É verdade que você não tem loba?
Mara ficou tensa.
— Finn!
Hope ergueu a mão.
— Está tudo bem. — Ela se abaixou diante do menino. — Até agora, não.
Finn franziu a testa.
— Então você é humana?
Hope sorriu.
— Não. Continuo sendo eu.
O menino pensou por alguns segundos.
— Mesmo sem loba?
— Mesmo sem loba.
Finn assentiu, como se tivesse chegado a uma conclusão importante.
— Minha mãe fala que você é a melhor Thunder.
Hope ficou sem resposta. Mara ficou vermelha.
— Finn...
— Ela fala.
Hope olhou para a mulher. Mara respirou fundo.
— Eu só digo a verdade.
Hope sentiu os olhos queimarem. Precisou piscar algumas vezes.
— Obrigada.
Finn abriu os braços.
— Posso abraçar?
Hope riu.
— Isso você nem precisava perguntar.
Ela abraçou o menino. Por alguns segundos, o mundo pareceu menos pesado.
Hope voltou para a residência principal perto do fim da tarde, coberta de lama e com os braços doloridos. Assim que entrou, percebeu que havia alguma coisa errada.
Mirella estava no salão. Elara também. Evon permanecia de pé diante da lareira. Esperando. Hope parou na entrada.
— Isso parece uma emboscada.
Mirella cruzou os braços.
— Onde estava?
— Ajudando a família de Mara.
Evon virou.
— Você retirou provisões da despensa.
Hope respirou fundo.
— Então já sabe.
— Sem autorização.
— Eles estavam sem comida.
— Você roubou provisões da casa do Alfa.
Hope ficou séria.
— Eu dei comida para pessoas da nossa alcateia.
Evon deu um passo à frente.
— Não era sua decisão.
— Então tome decisões melhores.
O silêncio caiu pesado. Elara arregalou os olhos. Mirella abriu a boca. Evon ficou completamente imóvel.
— O que disse?
Hope sustentou o olhar dele.
— Você ouviu.
— Está começando a esquecer com quem está falando.
— Não. Sei exatamente.
Evon se aproximou.
— Cuidado com a maneira como fala comigo.
Hope sentiu o peito apertar, mas não recuou.
— Eu tive cuidado durante vinte e dois anos. Não melhorou nada.
Mirella interferiu.
— Isso é falta de respeito.
Hope virou para ela.
— Falta de respeito é deixar crianças sem comida porque estão no lado errado da hierarquia.
Elara revirou os olhos.
— Você sempre precisa bancar a salvadora.
Hope encarou a irmã.
— E você sempre precisa transformar tudo em disputa.
— Porque você faz isso para chamar atenção.
Hope riu sem humor.
— Sim. Eu passei a manhã carregando madeira na lama porque queria aplausos.
Evon bateu a mão na mesa.
— Chega! — Hope se calou. O Alfa apontou para ela. — Dois dias confinada.
Ela ficou incrédula.
— Está falando sério?
— Não sairá do quarto sem autorização.
— Por dar comida?
— Por desobedecer.
Hope apertou a mandíbula.
— Claro.
Evon estreitou os olhos.
— Vá.
Hope pegou a própria bolsa.
— Com prazer.
Ela já estava perto da porta quando ouviu passos rápidos do lado de fora. Um homem entrou quase tropeçando. Era um dos batedores. Estava sujo, ofegante e tinha sangue na lateral do rosto.
— Alfa!
Evon se levantou imediatamente.
— O que aconteceu?
O guerreiro apoiou a mão na mesa.
— Encontramos marcas perto da fronteira oeste.
O ambiente mudou. Hope percebeu na mesma hora. Evon ficou duro.
— Que marcas?
O batedor respirou fundo.
— Pegadas. Muitas.
Mirella empalideceu. Elara perdeu a expressão arrogante. Evon fez outra pergunta.
— De quem?
O homem hesitou. Hope percebeu. Aquilo era sério.
— Fale — ordenou Evon.
O guerreiro abaixou a voz.
— Phoenix.
Hope franziu a testa. Não conhecia os detalhes, mas conhecia o nome. Todo mundo conhecia.
A Alcateia Phoenix era uma das mais fortes do norte. Seu Alfa tinha fama de nunca recuar de uma guerra.
Hope então olhou para o pai. E congelou. Evon havia empalidecido. Não parecia irritado. Parecia assustado.
Hope nunca o tinha visto assim.
Nem mesmo quando ela era criança e um ataque de lobos selvagens ameaçou a fronteira.
— Quantos? — perguntou Evon.
— Não sabemos. Apagaram parte dos rastros.
Evon passou a mão pelo rosto.
— Convoque os capitães.
— Sim, Alfa.
— Agora.
O guerreiro saiu correndo. Hope permaneceu parada.
— Pai...
Evon virou.
— Você deveria estar no quarto.
— Phoenix está vindo?
— Não é assunto seu.
Hope soltou uma risada nervosa.
— Guerreiros inimigos estão na nossa fronteira e isso não é assunto meu?
— Vá para o quarto, Hope.
— Por que está com medo? — Evon ficou imóvel. Hope percebeu que acertou alguma coisa. — O que você sabe?
Mirella se levantou.
— Obedeça seu pai.
Hope olhou para todos.
— Vocês sabem de alguma coisa.
Evon perdeu a paciência.
— PARA O QUARTO!
Hope recuou. Não por medo do grito. Por causa do rosto dele. Ela saiu.
Naquela noite, Hope não conseguiu dormir. Do quarto, observava o movimento do lado de fora. Homens atravessavam o pátio carregando armas.
Guerreiros eram convocados. Cavalos eram preparados. As tochas ficavam acesas em todos os pontos da muralha.
Hope apoiou as mãos na janela. Alguma coisa estava acontecendo. Não era apenas uma patrulha. Nem uma simples ameaça.
Thunder estava se preparando para guerra. E, mais uma vez, todos pareciam saber de alguma coisa. Menos ela. Hope olhou para a floresta distante.
A mesma sensação estranha voltou ao peito. A presença. Fraca. Presa. Ela respirou fundo.
— Se você realmente está aí dentro… — Esperou. Nada. Hope fechou os olhos. — Agora seria uma ótima hora para falar.
O silêncio continuou. Ela abriu os olhos e encarou as dezenas de guerreiros se reunindo no pátio. Então pensou no rosto do pai. Na palidez. No medo.
E percebeu uma coisa que a deixou ainda mais inquieta.
Evon Thunder não estava apenas preocupado com Phoenix.
Ele parecia saber exatamente por que eles estavam chegando.
