Capítulo 4 Capítulo 4 - Phoenix Está Vindo

Thunder acordou diferente naquela manhã.

Os corredores da casa do Alfa estavam cheios de passos apressados, ordens curtas e homens entrando e saindo com armas nas mãos.

Do lado de fora, os portões permaneciam fechados, e os vigias haviam dobrado nos muros. Até os criados falavam baixo, como se qualquer palavra pudesse aumentar o medo que já se espalhava pelo território.

Hope observava tudo da escada.

Ninguém havia contado nada para ela.

Não que isso fosse novidade.

Desde criança, Hope estava acostumada a descobrir as coisas depois de todo mundo. Quando alguém se machucava, ela sabia depois. Quando havia problema com alguma alcateia vizinha, ela descobria pelos cochichos.

E agora parecia que Thunder estava se preparando para uma guerra enquanto ela continuava sendo tratada como uma criança incapaz de entender o perigo.

— Você deveria estar no quarto.

Hope olhou para Mirella.

— E você deveria estar preocupada com uma possível guerra, não comigo andando pela casa.

Mirella parou diante dela.

— Seu pai deu ordens.

— Meu pai vive dando ordens.

— Então aprenda a obedecer pelo menos uma vez.

Hope soltou uma risada curta.

— Talvez eu comece no dia em que ele aprender a me dar uma explicação.

Mirella apertou os lábios.

— Não é hora para suas provocações.

Hope desceu mais um degrau.

— Então me diga o que está acontecendo.

— Nada que diga respeito a você.

— Claro. — Hope passou por ela. — Tudo acontece dentro da minha alcateia, mas nada diz respeito a mim.

Mirella tentou segurá-la pelo braço. Hope recuou.

— Não encoste em mim.

A madrasta ficou séria.

— Onde você pensa que vai?

— Descobrir o que todo mundo sabe menos eu.

Hope saiu pela porta lateral antes que Mirella pudesse impedi-la.

Do lado de fora, o movimento era ainda maior.

Homens corriam de um lado para outro. Alguns carregavam caixas de armas. Outros levavam cavalos para perto dos portões. Mulheres chamavam seus maridos, entregavam capas, água, comida. Crianças observavam sem entender.

Hope sentiu o peito apertar. Aquilo era real. Não era apenas uma ameaça distante. Ela caminhou mais rápido até o campo de treinamento.

Encontrou Rowan perto da área dos guerreiros, apertando as tiras de couro que protegiam os braços. Ele a viu e franziu a testa.

— O que está fazendo aqui?

Hope cruzou os braços.

— Bom dia para você também.

— Hope, estou falando sério.

— Eu também. O que está acontecendo? — Rowan desviou o olhar. Hope percebeu. — Não faça isso.

— Fazer o quê?

— A mesma coisa que todo mundo faz. Me olhar como se eu fosse frágil demais para ouvir a verdade.

Rowan soltou o ar devagar.

— Não acho você frágil.

— Então fale.

Ele olhou ao redor antes de se aproximar.

— Encontramos patrulheiros perto da fronteira oeste.

Hope sentiu o estômago apertar.

— Phoenix?

Rowan assentiu.

— Sim.

— Quantos?

— Não sabemos.

— E por que todo mundo parece preparado para um ataque? — Rowan não respondeu. Hope perdeu a paciência. — Rowan.

— Porque não eram só rastros.

Ela ficou imóvel.

— O que mais?

— Marcas nas árvores. Sinais de patrulha. Pegadas de vários grupos. Eles estavam testando nossas rotas.

Hope olhou para os homens treinando.

— Então eles querem entrar.

— Parece que sim.

Ela respirou fundo.

— Phoenix não é uma alcateia qualquer, certo?

Rowan balançou a cabeça.

— Não.

Hope já sabia algumas coisas. Todo mundo sabia.

Ayres Phoenix era um nome conhecido mesmo por quem nunca havia chegado perto das fronteiras daquela alcateia. Diziam que ele havia assumido o posto ainda jovem, depois da morte dos pais, e transformado Phoenix em uma força temida.

— Ouvi dizer que ele conquistou três territórios em menos de dois anos.

— Quatro.

Hope olhou para Rowan.

— Isso era para me tranquilizar?

— Não.

Ela soltou uma risada sem humor.

— Funcionou muito mal.

Rowan ficou sério.

— Ayres não inicia guerra sem motivo.

Hope franziu a testa.

— E isso deveria ser melhor?

— Significa que, se ele está aqui, existe um motivo.

Hope ficou quieta. A imagem do pai na noite anterior voltou imediatamente à sua cabeça. O medo. A palidez. O jeito como Evon quase perdeu o controle ao ouvir o nome Phoenix.

Ela olhou para Rowan.

— Por que ele atacaria Thunder?

Rowan passou a mão pelo cabelo.

— Essa é a pergunta que seu pai não quer responder.

Hope sentiu um arrepio.

— Você sabe de alguma coisa?

— Só rumores.

— Que rumores?

Rowan hesitou.

— Que Evon teve problemas com algumas alcateias do norte. Negociações antigas. Acordos quebrados.

Hope ficou ainda mais séria.

— E Phoenix está envolvida?

— Não sei.

— Rowan.

— Eu realmente não sei.

Ele segurou os ombros dela.

— Mas você precisa voltar para casa.

Hope afastou as mãos dele.

— Não.

— Hope, isso não é uma briga com Elara.

— Eu sei.

— Se Phoenix atravessar a fronteira, você não pode ficar andando por aí.

Ela olhou para ele.

— E você vai?

— Sou guerreiro.

— E eu sou Thunder.

Rowan apertou a mandíbula.

— Você não pode se transformar. — A frase atingiu. Hope recuou um pouco. Rowan percebeu. — Eu não quis dizer dessa forma.

— Mas disse.

— Estou tentando proteger você.

— Então pare de usar a mesma fraqueza que todo mundo joga na minha cara. — Rowan abaixou a cabeça. Hope respirou fundo. — Eu sei que não posso lutar como você. Não sou idiota. Mas também não vou fingir que nada está acontecendo.

Ela virou. Rowan chamou:

— Hope. — Ela parou. — Se ouvir os sinos, corra para o abrigo.

Hope olhou por cima do ombro.

— Só se você prometer voltar vivo.

Rowan sorriu de leve.

— Prometo tentar.

— Não gostei dessa resposta.

— Foi a mais honesta que consegui.

Hope assentiu.

— Então tente mais.

Evon estava no salão de guerra quando Hope entrou.

Havia mapas espalhados sobre uma mesa enorme. Três capitães estavam ao redor dele, além de Elara, que permanecia perto de Mirella. Hope percebeu imediatamente que a irmã havia sido incluída.

Ela não.

Evon levantou os olhos.

— O que está fazendo aqui?

Hope fechou a porta atrás de si.

— Quero saber porque Phoenix está na nossa fronteira.

Um dos capitães olhou para Evon. O velho Alfa endureceu.

— Saia.

Hope não se mexeu.

— Não.

Elara soltou o ar.

— Hope, não é hora.

Hope olhou para ela.

— Você está aqui.

— Eu treino com os guerreiros.

— Então virou parte do Conselho agora?

Evon bateu a mão na mesa.

— Chega disso.

Hope caminhou até ele.

— O que você fez?

O salão ficou em silêncio. Evon estreitou os olhos.

— Não é assunto seu.

Hope apontou para o mapa.

— Homens estão deixando suas famílias para proteger nossas fronteiras. É assunto de todos.

— Você não entende política entre Alfas!

— Então explique!

Evon ficou vermelho.

— Não tenho que explicar decisões da alcateia para você.

Hope riu sem humor.

— Claro. Seu exército pode estar prestes a morrer, mas o verdadeiro problema continua sendo a filha que faz perguntas.

Mirella se levantou.

— Hope, basta.

— Não.

Hope encarou o pai.

— Você ficou com medo quando ouviu o nome Phoenix. Eu vi.

Evon fechou o rosto.

— Está imaginando coisas.

— Não estou. — Ela se aproximou mais. — Rowan disse que Ayres não começa guerra sem motivo. Evon ficou imóvel. Hope percebeu. — Então existe um motivo.

— Volte para o quarto.

— Não.

— HOPE.

— O que você fez?

Evon saiu de trás da mesa.

— Não me desafie agora.

— Então pare de me esconder tudo. — Hope sentiu os olhos queimarem. — Você escondeu minha mãe. Esconde minha própria história. Agora esconde uma guerra.

Evon segurou o braço dela. Com Força.

— Você não sabe do que está falando.

Hope tentou se soltar.

— Me larga.

— Volte para o quarto.

— Primeiro me responda.

Evon apertou mais.

— Ayres Phoenix não pode encontrar você.

Hope parou de lutar. O salão inteiro pareceu desaparecer.

— O quê?

Evon percebeu imediatamente. Seus olhos mudaram. Ele havia falado demais. Hope puxou o braço com força e conseguiu se soltar.

— Por que Ayres Phoenix não pode me encontrar?

Evon virou de costas.

— Esqueça o que ouviu.

Hope riu nervosa.

— Você só pode estar brincando.

— Vá para o seu quarto.

— Pai...

— Acabou.

Hope se aproximou.

— Olhe para mim. — Evon não virou. — Por que ele não pode me encontrar? — Mirella ficou pálida. Hope percebeu. Olhou para ela. — Você também sabe.

Mirella desviou o rosto. Hope sentiu o coração disparar.

— O que vocês estão escondendo de mim?

Evon finalmente virou.

— EU MANDEI ESQUECER!

Hope recuou. Não pelo grito. Pelo olhar. Ela percebeu com clareza que não havia apenas desprezo ou irritação nos olhos do pai. Havia medo. Medo verdadeiro.

E aquele medo tinha alguma coisa a ver com ela.

Hope ficou alguns segundos olhando para ele.

— Está bem. — Evon pareceu surpreso. Ela respirou fundo. — Eu vou. — Hope caminhou até a porta. Antes de sair, virou. — Mas não ache que esqueci.

Ela abriu a porta.

— Só aprendi que você tem ainda mais segredos do que eu imaginava.

Naquela madrugada, Hope acordou com um som tão alto que quase caiu da cama. Sinos. Os sinos de emergência. Ela se levantou de uma vez.

Gritos começaram do lado de fora. Passos correram pelos corredores. Uma mulher gritou por um filho. Hope foi até a janela. Tochas se moviam perto dos muros.

Homens corriam. Lobos se transformavam. Então ouviu. Um rugido profundo. Poderoso. Tão forte que as paredes pareceram vibrar. Hope levou a mão ao peito.

A presença dentro dela despertou. E, pela primeira vez, sentiu medo de verdade. Do lado de fora, alguém gritou:

— PHOENIX ATRAVESSOU A FRONTEIRA!

Hope ficou imóvel.

A guerra havia começado.

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