Capítulo 5 Capítulo 5 - Quando o Fogo Encontrou o Trovão
Os sinos não paravam de tocar.
Hope abriu a porta do quarto e quase foi atingida por uma criada que corria pelo corredor com duas crianças pelas mãos.
Gritos vinham do andar de baixo, misturados ao som de vidro quebrando, ordens e rosnados. Do lado de fora, o céu ainda estava escuro, mas uma luz alaranjada começava a tomar conta do território.
— Hope!
Mirella surgiu no fim do corredor com Elara ao lado.
— Volte para o quarto!
Hope olhou pela janela. Uma casa estava pegando fogo.
— Você enlouqueceu?
— Seu pai mandou que você ficasse escondida!
— Existem pessoas lá fora!
Elara segurou o braço da mãe.
— Temos que ir para o abrigo.
Hope já estava correndo para as escadas.
— Hope! — Mirella gritou.
Ela não parou.
Quando atravessou a porta principal, sentiu o cheiro de fumaça atingir seu rosto. Thunder estava em caos. Guerreiros corriam em forma humana e de lobo.
Mulheres puxavam crianças para os abrigos subterrâneos enquanto homens mais velhos tentavam carregar os feridos.
Ao longe, lobos se chocavam violentamente.
Phoenix havia entrado.
Hope olhou para o lado norte e viu guerreiros inimigos avançando entre as construções. Quase ao mesmo tempo, outro grupo apareceu vindo do oeste.
Ela gelou. As duas entradas. Phoenix não havia simplesmente atacado. Eles sabiam exatamente onde atacar.
— Como...?
Uma explosão de madeira a fez se abaixar. Uma das barricadas caiu. Hope correu. Não sabia para onde primeiro. Então ouviu um choro.
— Mamãe! Mamãe!
Ela reconheceu a voz.
— Finn?
Hope virou rapidamente.
O menino estava ajoelhado perto de uma cerca caída. Chorava desesperadamente enquanto tentava puxar o braço da mãe.
Mara estava no chão.
— Finn!
O garoto ergueu a cabeça.
— Hope!
Ela correu até eles.
— O que aconteceu?
— A madeira caiu nela!
Hope se ajoelhou.
Mara estava consciente, mas havia um corte profundo próximo à testa e sua perna estava presa sob uma tábua pesada.
— Mara, consegue me ouvir?
A mulher abriu os olhos com dificuldade.
— Finn...
— Ele está aqui.
Hope segurou seu rosto.
— Vou tirar você daqui.
Mara tentou se mexer.
Gritou.
— Minha perna.
— Não mexa.
Hope olhou ao redor.
Dois homens passaram correndo.
— Ei! Preciso de ajuda! — Um deles parou. Hope apontou para a madeira. — Levanta comigo.
— Phoenix rompeu a defesa!
— E ela vai morrer se ficar aqui!
O homem voltou. Os dois seguraram a tábua.
— Agora!
Hope usou toda a força que tinha. O homem ergueu a outra extremidade, e Mara conseguiu puxar a perna.
— Finn, vem comigo!
Hope passou o braço de Mara pelos próprios ombros. O menino segurou a mão da mãe. Eles começaram a caminhar. Um rugido fez Finn gritar.
Hope olhou para trás. Dois lobos lutavam entre as casas. Um cinza. Outro escuro. Sangue cobria o chão. Hope puxou Finn.
— Não olha.
— Eles vão matar a gente?
A pergunta quase destruiu seu coração.
— Não.
— Como sabe?
Hope não sabia. Mesmo assim respondeu:
— Porque eu não vou deixar.
O menino apertou sua mão.
Eles chegaram ao abrigo subterrâneo próximo à antiga despensa. Mulheres estavam entrando enquanto dois guerreiros protegiam a entrada.
Hope entregou Mara a uma curandeira.
— A perna pode estar quebrada.
Mara segurou seu pulso.
— Fique aqui.
Hope olhou para fora.
— Existem mais pessoas.
— Hope, não!
Ela beijou a testa de Finn.
— Cuida da sua mãe para mim.
Finn chorava.
— Você vai voltar?
Hope forçou um sorriso.
— Vou tentar.
Saiu antes que o medo pudesse fazê-la mudar de ideia.
Rowan surgiu poucos minutos depois. Hope quase não o reconheceu. O rosto dele estava sujo de terra e sangue. Um corte atravessava sua sobrancelha, e a camisa tinha sido rasgada no ombro.
— Hope! — Ele correu até ela. — Você precisa sair daqui!
Hope apontou para duas mulheres carregando um homem.
— Existem pessoas feridas!
— Phoenix rompeu a segunda linha!
— Então me ajude a tirá-las daqui!
Rowan segurou os ombros dela.
— Escute. Eles entraram pelo norte e pelo oeste. Sabiam onde nossas defesas eram mais fracas.
Hope sentiu um arrepio.
— Como poderiam saber?
— Não sei. — Um novo rugido interrompeu os dois. Rowan segurou o rosto dela entre as mãos. — Escute bem. Se eles chegarem até aqui, corra para a floresta. Não olhe para trás.
Hope puxou as mãos dele.
— Não vou abandonar essas pessoas.
— Você não pode lutar! — A frase saiu mais desesperada do que cruel. Hope empurrou as mãos dele. — Talvez eu não tenha uma loba, Rowan, mas ainda tenho duas pernas, duas mãos e coragem suficiente para não deixar crianças morrerem enquanto eu me escondo!
— Coragem não impede uma mordida de arrancar sua garganta!
— E ser loba não tornou ninguém aqui imortal! — Rowan ficou sem resposta. Hope segurou seu braço. — Pare de tentar me salvar deixando todo mundo para trás.
Ele olhou para ela.
— Você vai acabar me matando do coração.
— Então continue vivo para reclamar depois.
Apesar do caos, Rowan soltou uma pequena risada.
— Teimosa.
— Muito.
Ele apontou para o abrigo.
— Leve todos que encontrar para lá.
— E você?
Rowan olhou para os combates.
— Preciso voltar.
Hope apertou seu braço.
— Você prometeu.
Ele sabia do que ela falava.
— Eu sei.
— Voltar vivo.
Rowan assentiu.
— Vou tentar mais.
Os dois se separaram. Hope correu novamente.
No lado norte de Thunder, o avanço de Phoenix era rápido.
Ayres caminhava entre seus homens em forma humana. Alto, largo, os cabelos escuros bagunçados pelo vento e os olhos atentos a tudo ao redor. Sangue marcava parte de sua roupa, mas pouco parecia ser dele.
Ele não precisava gritar. Quando falava, seus homens ouviam.
— Não avancem além da terceira linha até o grupo oeste confirmar posição.
Um capitão assentiu.
— Sim, Alfa.
Ayres olhou para uma construção em chamas.
— Apaguem isso.
O homem pareceu confuso.
— É uma casa Thunder.
Ayres virou o rosto lentamente.
— E?
— Pensei que...
— Não estamos aqui para incendiar casas.
O capitão abaixou a cabeça.
— Entendido.
Ares estava inquieto dentro dele. Mais do que durante qualquer batalha anterior. Ayres sentia o lobo andando de um lado para o outro dentro da mente.
— Pare.
— “Tem alguma coisa aqui.”
Ayres continuou caminhando.
— Estamos em território inimigo. Existem centenas de lobos aqui.
— “Não é isso.”
— Então o que é?
Ares não respondeu. Um guerreiro Phoenix se aproximou.
— Alfa, encontramos dois abrigos subterrâneos perto da parte leste.
Ayres parou.
— Quantos guerreiros?
— Poucos. A maioria parece ser mulher, idoso e criança.
— Então ninguém entra.
O homem hesitou.
— Não devemos verificar?
Ayres estreitou os olhos.
— Para quê?
— Podem estar escondendo homens Thunder.
— Se homens armados saírem, você reage.
— Mas são Thunder.
Ayres segurou o guerreiro pelo pescoço antes que ele terminasse. O homem arregalou os olhos.
— Alfa...
Ayres aproximou o rosto.
— Mulheres desarmadas, idosos e crianças não são guerreiros.
— Mas...
Ayres apertou mais.
— Eu vim derrubar um Alfa. Não massacrar uma alcateia. — Ele soltou o homem com força. — Se eu descobrir que alguém sob meu comando matou uma criança, não precisará esperar Thunder fazer justiça. Eu mesmo farei.
O guerreiro abaixou imediatamente a cabeça.
— Entendido, Alfa.
Ayres voltou a caminhar. Ares tornou-se ainda mais inquieto.
— “Perto.”
Ayres parou.
— O quê?
— “Está perto.”
Dessa vez havia algo diferente na voz de seu lobo. Urgência. Necessidade. Ayres olhou ao redor.
— Quem?
Ares permaneceu sem responder..
Hope encontrou uma garota chorando atrás de um pequeno depósito.
— Ei!
A menina ergueu a cabeça.
— Meu irmão!
— Onde ele está?
— Dentro!
Hope correu para a porta. Antes que chegasse, um homem apareceu entre a fumaça. Guerreiro Phoenix. Hope parou. Ele também.
Os olhos dele percorreram suas roupas.
— Thunder.
Hope olhou para o chão. Uma espada estava caída perto de um corpo. Ela pegou. A arma era pesada demais para sua mão. Mas levantou.
— Saia da minha frente.
O guerreiro riu.
— Você vai me enfrentar?
Hope apertou o cabo.
— Se precisar.
— Nem sabe segurar isso direito.
— Então imagina a vergonha se eu conseguir acertar você.
O sorriso do homem sumiu. Ele avançou um passo. Hope levantou a espada. Seu coração parecia bater na garganta.
— Não chegue mais perto.
O homem continuou. Então uma voz atravessou o lugar. Firme. Fria.
— Abaixe a arma.
O guerreiro parou imediatamente. Hope franziu a testa. Ele abaixou a espada. Não a dela. A própria. Hope olhou por cima do ombro dele.
Um homem caminhava entre a fumaça.
Alto.
Muito alto.
Seus passos eram calmos, mesmo enquanto Thunder queimava ao redor. Guerreiros Phoenix se afastavam para permitir sua passagem.
Hope apertou a espada. Algo dentro de seu peito se mexeu. Forte. Tão forte que ela perdeu o ar por um segundo.
Do outro lado, Ayres parou. Ares se levantou violentamente dentro dele.
— “É ela.”
Ayres franziu a testa.
— Quem?
O lobo empurrou contra seu controle. Ayres quase sentiu os ossos responderem à força da transformação.
— “ELA.”
Ayres encarou a mulher diante dele. Cabelos claros bagunçados. Rosto sujo de cinzas. Uma pequena mancha de sangue na bochecha.
Ela segurava uma espada como alguém que claramente não havia sido treinada para aquilo, mas não recuava.
Ayres deu um passo.
Hope ergueu a arma.
— Dê mais um passo e eu juro que tento arrancar sua garganta.
Alguns Phoenix riram. Ayres não. Ares estava enlouquecendo.
— “Perto.”
— Ares...
— “NOSSA.”
Ayres sentiu o coração bater de maneira estranha. Observou a mulher. Tentou sentir sua loba. Nada. Não havia presença lupina nela. Isso não fazia sentido.
— “Nossa companheira.”
Ayres ficou imóvel.
— Impossível.
Hope apertou a espada.
— Eu não sei quem você é, mas se pretende me matar, faça logo.
Os olhos dele encontraram os dela. E por alguns segundos nem a guerra pareceu existir. Hope odiou a forma como aquele olhar a atingiu.
— Quem é você?
O homem respondeu sem desviar os olhos.
— Ayres Phoenix.
Hope perdeu o ar. A espada quase baixou.
— Você...
Ela olhou ao redor. Para o fogo. Para os feridos. Para sua casa sendo destruída. Depois voltou a encará-lo.
— Você é Ayres.
— Sou.
O medo dentro dela se transformou em raiva. Hope ergueu novamente a espada.
— Então foi você que trouxe essa guerra para minha casa.
Ayres não respondeu. Dentro dele, Ares continuava repetindo uma única certeza.
— “Nossa companheira.”
E enquanto Hope Thunder olhava para ele como se desejasse atravessar seu coração com aquela espada, Ayres compreendeu que acabou de encontrar no lugar mais improvável possível a única mulher que seu lobo se recusaria a abandonar.
