Capítulo 1
— Seu tempo está se esgotando. Vá para casa, Evelyn. Diga suas despedidas.
A voz do Curandeiro-Chefe era gentil, mas as palavras que saíram da sua boca me lançaram num desespero total.
Eu já conhecia o desfecho, mas ouvi-lo assim mesmo fez as lágrimas transbordarem.
Uma bruxa cruel lançou sobre mim uma maldição de petrificação no instante em que eu nasci.
Se a maldição não for desfeita até eu completar vinte e oito anos, vou me transformar completamente em pedra e morrer.
Levei dez anos para finalmente encontrar o único antídoto para a minha maldição — medula do coração de dragão.
Inesperadamente, a medula do coração de dragão pela qual eu esperei tanto tempo foi arrancada de mim pelo meu marido.
Ele a transplantou em Selene, minha falsa irmã mais nova, só porque ela tinha um caso leve de exaustão cardíaca.
Eu caminhei pelo corredor da clínica como num transe; faltavam apenas sete dias para o meu vigésimo oitavo aniversário.
Quando empurrei a porta do quarto de Selene, lá estavam meus pais, meu marido, Cassian, e até meu filho de cinco anos, Noah.
Todos estavam amontoados ao redor da cama, cuidando dela.
Que familinha feliz.
Ao me ver entrar, Cassian interrompeu o que estava fazendo na mesma hora e veio até mim.
— Evelyn, o que o Curandeiro disse?
Eu apenas olhei para ele.
Ele estava culpado demais para sustentar meu olhar e, rapidamente, gaguejou uma desculpa:
— Foi uma emergência, Evelyn. Se eu não desse a medula para a Selene, ela ia morrer de dor.
Minha mãe se aproximou, o rosto endurecendo.
— Cassian tem razão. Evelyn, isso é questão de vida ou morte. Você não vai ser irracional e fazer birra por causa disso, vai?
A verdade que eu pretendia dizer morreu nos meus lábios.
— Eu não estou com raiva — eu disse, fria. — O Curandeiro disse que vai ter uma boa notícia em uma semana.
E completei, com as veias negras invisíveis da minha maldição latejando de dor:
— Uma boa notícia para todos nós.
Cassian pareceu imensamente aliviado.
— Outra fonte de medula tão cedo? Eu sabia. Eu fiz a escolha certa.
Meu pai soltou o ar com força, rindo baixinho enquanto olhava para a cama com carinho.
— A nossa Selene é realmente abençoada. Se não tivéssemos dado a ela a sua medula, ela com certeza não teria aguentado até a semana que vem.
Minha mãe assentiu, concordando com fervor.
— As bênçãos dela estão só começando.
Então o olhar dela se voltou para mim, gelado como gelo.
— Ao contrário de certa pessoa. Você podia ter esperado, mas tinha que fazer um escândalo e envergonhar a nossa família inteira.
Mesmo eu já tendo desistido deles, as palavras ainda se retorceram como uma faca nas minhas entranhas.
Agarrei o tecido da minha saia, os nós dos dedos ficando brancos, forçando as lágrimas a voltarem.
Cassian me encarou e tentou soar gentil, mas suas palavras despedaçaram meu coração.
— Ontem você passou de todos os limites, Evelyn. Você precisa pedir desculpas à Selene.
Eu encarei ele, incrédula.
Selene roubou o antídoto que podia salvar a minha vida… e era eu quem tinha que pedir desculpas?
— Ele tem razão — minha mãe escarneceu. — Se você não tivesse intimidado a Selene ontem, o coração dela não teria atacado. Você devia era agradecer aos deuses por ela estar aqui, em segurança. Senão, eu te deserdava agora mesmo.
Eu me lembrei de ontem, quando ela me encurralou perto da escada, exibindo de propósito o chupão no pescoço e se gabando do quanto meu marido era bruto e carinhoso com ela.
Furiosa, eu dei um empurrãozinho, sem nunca esperar que ela fosse fingir perder o equilíbrio e despencar escada abaixo.
Depois que meu marido ajudou Selene a se levantar, ele me deu um tapa forte no rosto.
Eu fui ao chão. Enquanto o mundo girava ao meu redor, minha mãe me xingava.
Meu pai apenas ficou a uma curta distância, com uma indiferença gelada, como se ele também achasse que eu merecia ser punida.
Logo depois, minha maldição se acendeu, e uma dor aguda atravessou meu peito.
Selene também levou a mão ao coração, choramingando que doía terrivelmente.
E, ainda assim, todo mundo achou que eu estava fingindo, enquanto acreditavam que ela falava a verdade.
Só de pensar nisso, puxei os lábios num sorriso amargo e disse baixinho:
— Desculpa. A culpa é toda minha.
O quarto ficou completamente silencioso.
Ninguém esperava que eu estivesse tão submissa.
Cassian estreitou os olhos, avaliando meu rosto.
Na cama, a sobrancelha de Selene tremeu. Ela me encarou com uma expressão que gritava: *Como você é tão boa em atuar?
Meus pais trocaram olhares cautelosos e acharam que eu estava fazendo cena.
Apenas Noah, meu filho de cinco anos, acreditou e envolveu minhas pernas com os bracinhos, feliz.
— Mamãe! — Noah comemorou. — Ainda bem que você finalmente admitiu que estava errada!
Ele ergueu o rosto para mim, os olhos enormes e sérios.
— Nunca mais maltrate a tia Selene. Senão eu não vou te amar mais, igual o vovô e a vovó!
Olhei para ele.
Eu conseguia aguentar a crueldade dos meus pais. Conseguia aguentar a traição do meu marido.
Mas ele? A criança que eu carreguei por dez meses? A criança que agora escolhia ativamente a mulher que roubou a minha vida?
A pedra se espalhando dentro das minhas veias não doía nem de longe tanto quanto isso.
Eu não tinha mais força para lutar.
Meus dedos gelados roçaram a bochecha quente dele. Eu sorri.
— Tá bom. A mamãe vai ouvir tudo o que você disser.
Minha mãe cruzou os braços, assentindo com profunda satisfação.
— Muito bem. Parece que você finalmente aprendeu o seu lugar, Evelyn.
Cassian soltou um suspiro longo e pesado.
— Minha esposa finalmente cresceu.
A visão daquele rosto hipócrita me deu ânsia, a ponto de quase vomitar.
— Ah… — Selene choramingou de repente, na cama, apertando o peito. — Está doendo…
Cassian me empurrou de lado na mesma hora e correu para junto dela.
Noah também largou minhas pernas imediatamente, preocupado com ela.
— Tia! Onde está doendo? Eu sopro pra passar!
Meus pais se apressaram para a frente, os olhos na hora vermelhos de tanta aflição.
Eu fiquei bem longe, uma palhaça assistindo a uma peça para a qual não fui escalada.
Eu não suportava a atmosfera daquele quarto.
— Estou cansada — murmurei, para ninguém.
Não esperei resposta. Virei as costas para todos eles e saí direto do quarto.
