Capítulo 4

Ele me encarou, vazio, tomado por um pânico indescritível.

Ele achou que eu podia deixá-lo a qualquer momento.

Limpei o sangue do queixo e olhei para minha mãe. “Nós nunca registramos o nosso casamento. Ele pode assinar o registro com Selene agora mesmo.”

Minha mãe hesitou. “Vocês dois... realmente não são casados??”

Cassian franziu a testa, dando um passo na minha direção. “Eu te disse, Evelyn, nós nunca registramos o nosso casamento, mas já temos um filho juntos...”

Minha mãe bateu palmas. “Perfeito! Que notícia maravilhosa!”

Noah espiou de trás da minha mãe. “Isso quer dizer que a tia Selene vai ser minha nova mamãe?”

Olhei para a criança que eu pari. Assenti. “Você está feliz?”

Noah pulou. “Eba!” Então, como se temesse a minha raiva, acrescentou depressa: “Mas se você prometer nunca mais implicar com a minha nova mamãe, eu ainda vou gostar de você, tia Evelyn.”

Tia Evelyn.

As palavras nem doeram. Meu coração já estava anestesiado.

Baixei os olhos. “Entendi.”

Na cama, Selene soltou um suspiro engasgado, choroso. “Irmã... você está mesmo disposta a deixar Cassian se casar comigo?”

Olhei para ela. “Sim. Não chame mais ele de ‘cunhado’.”

Selene abaixou a cabeça, escondendo o deleite secreto. “Obrigada, irmã.”

Balancei a cabeça. “Somos família. Daqui pra frente, vou contar com você para cuidar bem de mim.”

Selene não sabia que eu já havia doado meu corpo ao instituto de pesquisa dela.

Ela achou que eu estava só sendo educada e sorriu, doce. “Claro. Eu vou cuidar de você perfeitamente.”

Minha mãe observou nossa reconciliação e assentiu, satisfeita. “Viu? Se você tivesse sido sensata assim desde o começo, nós nunca teríamos ficado com raiva de você.”

Eu a encarei. Quis perguntar: era eu quem não tinha sido sensata?

Eu era claramente a filha biológica deles, e mesmo assim todo mundo achava que eu era adotada.

Tinha sido Cassian quem insistira em se casar comigo naquela época, mas todos me carimbaram como uma desprezível destruidora de lares.

Aos poucos, fechei os olhos, forçando as lágrimas ardentes a recuarem. Eu não ia chorar.

Olhei para Cassian. Forcei a mandíbula rígida a se abrir. “Eu posso voltar para a propriedade agora?”

“Não”, minha mãe interrompeu. “Você precisa arrumar suas coisas e sair da propriedade de vez. Tem gente lá fora. Se virem você ainda morando lá, vão surgir rumores.”

Assenti, obediente. “Tá bom.”

Cassian me acompanhou para fora. Quando chegamos ao pátio da clínica, ele agarrou meu pulso.

“Me dá uma semana”, disse ele, num tom baixo. “Quando o público esquecer, eu me divorcio dela. Aí nós sentamos e conversamos.”

Meu pulso parecia gelo sob a palma quente dele. Eu me soltei e sorri. “Tá bom.”

Ele ficou irritado com a minha indiferença. “Entre na carruagem.”

A viagem foi num silêncio mortal.

Estávamos na metade do caminho pela crista dos arredores quando o cristal de comunicação dele se acendeu.

A voz apavorada da minha mãe gritou de dentro. “Cassian! O coração da Selene está falhando! O transplante de medula está sendo rejeitado! A dor está matando ela!”

O rosto de Cassian perdeu a cor. Ele pisou no freio, parando a carruagem com violência.

Ele se virou para mim. Os olhos estavam injetados de sangue.

Sem dizer uma palavra, ele agarrou meu pulso e pressionou os dedos contra a Runa do Vaso prateada marcada a ferro na minha carne — a marca que meus pais me obrigaram a carregar anos atrás, para que eu pudesse absorver as doenças da infância de Selene.

— O que você está fazendo? — eu gritei.

— Ela não vai sobreviver a essa dor — Cassian suplicou. — Você é tão forte. Pegue a dor dela. Só desta vez.

Eu encarei Cassian, horrorizada.

Eles achavam que a Runa só transferia dor física.

Não sabiam que ela devorava ativamente a minha expectativa de vida.

— Cassian, não — sussurrei. — Eu só tenho mais três dias. Se você transferir a dor dela para mim...

— Para de ser egoísta! — ele rugiu. — Ela está morrendo!

Ele não esperou meu consentimento. Canalizou sua magia com ferocidade para dentro da runa.

Uma agonia sufocante rasgou o meu peito.

Aquilo acionou a minha maldição.

A contagem regressiva invisível dentro de mim acelerou violentamente.

Eu senti, no corpo, meu sangue engrossar até virar uma lama, e então endurecer como rocha fria.

Veias negras de obsidiana subiram pelo meu pescoço, travando minha garganta.

Eu desabei contra o banco de couro, cuspindo sangue grosso e escuro em acessos violentos.

Cassian nem sequer olhou para a minha pele que já começava a ficar acinzentada. Ele checou o cristal. — Os sinais vitais dela estão estabilizando.

Soltou um suspiro trêmulo e, em seguida, escancarou a porta da carruagem.

— Desça — ordenou. — Preciso voltar correndo. Pegue uma carruagem pública.

Eu não conseguia falar, porque minha língua já era pedra sólida.

Ele me empurrou. Então eu caí para fora da carruagem.

Antes que eu pudesse me mexer, Cassian estalou as rédeas.

A carruagem disparou noite adentro.

A rajada violenta de vento atravessou meu peito. Eu me ajoelhei na lama, a maldição de petrificação engolindo meus órgãos.

Um trovão estourou no céu acima. Meia-noite.

Pedras de granizo enormes despencaram do céu.

Crac.

O som não veio do gelo. Veio da minha pele.

Quando o granizo pesado acertou meus braços, fraturas em teia de aranha explodiram pela minha pele.

Cada impacto parecia um martelo esmagando um espelho.

Eu me encolhi, formando uma bola. Minhas articulações travaram, para sempre.

A pele vítrea das minhas bochechas se estilhaçou sob o ataque congelante. A obsidiana se espalhou pelo meu peito, encapsulando meus pulmões.

Eu queria chorar, mas meus canais lacrimais congelaram. A dor era ofuscante e então... silenciosa.

Minha visão ficou totalmente negra e eu desabei na lama gelada.

.......

Muito tempo depois.

Eu ouvi o toque frenético do sino de um Curandeiro. O cheiro de poções estéreis.

O Curandeiro-Chefe estava assustado e chorava. — O que aconteceu?! Ela tinha três dias de vida! Por que acelerou até virar obsidiana completa?

Eu senti uma pressão pesada no meu peito. Crac.

— Parem de fazer força! — outro Curandeiro gritou. — As costelas dela estão quebrando! Ela está completamente petrificada!

Viver dói demais, pensei. Só me deixem ir.

Adeus. Eu desejei que minha família me amasse na minha próxima vida.

BIIIIIIIP—

O cristal de monitoramento zerou.

— Hora do óbito — sussurrou o Curandeiro-Chefe. — 1º de junho, 5:00 da manhã. Paciente Evelyn Hart. Idade: vinte e oito anos.

Ao mesmo tempo, o Instituto de Pesquisa Alquímica recebeu meu corpo e aplicou tecnologia de congelamento criogênico, preservando permanentemente minha estátua de obsidiana.

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