Capítulo 1

A caixa de engrenagens industrial de 70 quilos se espatifou sobre o palete de madeira no depósito de logística, levantando uma nuvem de poeira.

Passei o antebraço na testa para enxugar o suor. Antes mesmo de conseguir endireitar as costas, a caneta tática do supervisor Barnes bateu com força na estante de ferro ao meu lado.

— Por que essa lerdeza, Arthur? Ou você já se acostumou tanto a viver do fundo fiduciário da família Vance que nem consegue juntar um pouquinho de força?

A voz de Barnes ecoou pelo armazém cavernoso, carregada de um deboche descarado.

Alguns colegas brancos que conferiam o inventário pararam o que estavam fazendo, trocaram olhares e soltaram risadinhas abafadas.

— Só um mascote mantido pela família Vance. Ele acha mesmo que é algum jovem mestre?

— Ouvi dizer que ele era das forças especiais e foi dispensado. Deve ter desertado na zona de guerra e agora depende da noiva pra não passar fome. Que piada.

Essas provocações cheias de gírias chegaram até mim com nitidez.

Eu não parei de me mexer. Apenas me virei com calma e ergui a próxima caixa de engrenagens.

As veias no dorso da minha mão pulsaram de leve, mas eu reprimi o impulso instintivo de reagir.

Três anos atrás, no meio das areias amarelas que giravam com o vento na zona de guerra do Norte da África, um Miller ensanguentado tinha segurado minha mão com a determinação de quem não ia recuar nem diante da morte.

Ele me confiou sua filha de cinco anos, Lily. Ela era o único vínculo que ainda o prendia a este mundo.

Para manter Lily fora do radar de traficantes internacionais de armas, eu procurei o Velho Vance, o fundador desse conglomerado de reconstrução pós-guerra.

O velho impôs uma condição cruel.

Eu deveria permanecer na família Vance como um “genro encostado e inútil” por exatamente três anos.

Durante três anos, eu não poderia mobilizar nenhuma força armada, não poderia expor minha identidade e não poderia revidar, não importava quanta humilhação eu engolisse.

Só se eu parecesse um completo fracassado é que meus inimigos desviariam o olhar.

Pelo último desejo de Miller, eu assinei o contrato.

No degrau mais baixo desta metrópole estrangeira, virei uma sombra para qualquer um pisar.

— Tá viajando por quê? Vai trocar de roupa!

Barnes atirou em mim um terno dentro de um saco plástico, arrancando-me dos pensamentos.

— A família vai dar um coquetel pequeno em Beverly Hills hoje à noite. A senhorita Elena quer você lá pra servir de figurante. Não se atrase!

Quando empurrei as pesadas portas de carvalho da mansão da família Vance, o cheiro acre de óleo de motor do depósito foi imediatamente substituído pela fragrância de um perfume francês caro.

Com o Velho Vance internado por causa de uma doença grave, o clima daquela reunião familiar estava impregnado de uma inquietação mal disfarçada.

Eu mal tinha chegado à beira do salão quando a voz da mãe de Elena, madame Eleanor, veio como uma pancada.

— Olhem só pra essa roupa. Em que loja de desconto você foi cavar esse lixo barato?

Com uma taça de champanhe na mão, madame Eleanor me analisou de cima a baixo, com os olhos cheios de nojo.

— Um soldado dispensado e fracassado, que nem conseguiu sobreviver no campo de batalha, em pé no nosso tapete persa vestido assim… Isso é simplesmente poluir o ar.

Os parentes ao redor concordaram, em coro.

— O velho deve ter perdido mesmo o juízo pra deixar alguém assim entrar na nossa família.

— Ouvi dizer que ele trabalha há três anos naquele depósito de logística de quinta e nem supervisor virou. Não tem futuro.

Baixei os olhos para os calos grossos nos nós dos meus dedos e não disse nada.

Me acostumar ao silêncio também fazia parte do contrato.

A multidão à frente se abriu um pouco quando Elena se aproximou.

Ela vestia um vestido de noite prateado de alta-costura; a maquiagem, tão impecável que não dava para encontrar um defeito sequer — e, ainda assim, seu olhar era mais frio do que os cubos de gelo nos copos.

Um executivo de Wall Street, num terno impecável, sorriu para mim e perguntou a ela:

— Elena, quem é este?

Ela nem me concedeu um olhar de canto.

— Um estagiário da divisão de entrada da empresa. Chamaram temporariamente só pra completar número.

Um estagiário.

Três anos, e, aos olhos dela, eu nem merecia o título de noivo.

O executivo sorriu, como quem entendia tudo, e mudou de assunto na hora.

Com um copo de água com gás na mão, recuei para as sombras na lateral do salão, como um fantasma transparente.

Um primo um pouco bêbado cambaleou passando, com a taça inclinada. O líquido vermelho-escuro espirrou com precisão no meu terno.

— Ops, foi mal, Arthur. Não vi que tinha alguém parado aqui.

Ele soltou um pedido de desculpas sem convicção, falso, arrancando uma explosão de risadas ao redor.

Tirei um lenço, limpei o peito com naturalidade e me virei em direção ao banheiro.

Ao empurrar a pesada porta antirruído, o burburinho lá fora foi cortado na mesma hora.

Abri a torneira, deixando a água gelada levar embora as manchas de vinho no dorso da minha mão.

Erguendo a mão esquerda, toquei quatro vezes, num ritmo específico, a borda do meu relógio personalizado à prova d’água.

Um clarão azul quase imperceptível atravessou o mostrador, e um canal criptografado foi estabelecido instantaneamente.

Depois de um leve chiado, uma voz trêmula de empolgação veio pelo fone de condução óssea.

— Comandante! Finalmente conseguimos falar com você!

Era meu antigo subordinado, “Ghost”, que um dia controlou a rede de inteligência de meio continente.

— Fala — eu disse, encarando no espelho aquele homem de aparência espantosamente comum. Minha voz não carregava entonação nenhuma.

— Tem coisa estranha na doença do Velho Vance. A gente deve intervir direto?

— E também… os irmãos estão só esperando a sua palavra! Se você autorizar o descongelamento dos ativos da conta suíça, em três minutos a gente compra o Grupo Vance inteiro e faz quem te humilhou pagar!

O tom de Ghost transbordava uma urgência impossível de conter.

Fechei a torneira.

O homem no espelho tinha olhos tão profundos e escuros quanto um poço antigo.

— Negado.

— Comandante!

— O contrato ainda tem meio ano. — Peguei uma toalha de papel e sequei devagar a água entre os dedos. — Até o prazo acabar, ninguém faz nada. Mantenham a cobertura.

Sem dar a ele chance de insistir, encerrei a comunicação.

Algumas promessas são mais pesadas do que a própria vida.

A filha do Miller tinha acabado de se adaptar a uma vida comum. Eu não podia arrastá-la de volta para o centro da tempestade só por um instante de vingança pessoal.

Quando atravessei os portões da propriedade, o vento noturno trouxe um arrepio.

A festa já tinha se dispersado, e um Maybach preto estava estacionado ao pé da escadaria.

Elena estava ao lado da porta do carro, como se estivesse me esperando.

Eu parei, mantendo dois metros de distância.

Ela tirou um crachá preso a um cordão da bolsa Hermès e o estendeu para mim, com descaso.

Eu não peguei. O crachá caiu no chão com um estalo seco.

— Amanhã de manhã vai acontecer a Cúpula Global de Tecnologia na Torre Landmark, no centro.

A voz dela não tinha calor algum, como se estivesse expedindo um memorando oficial.

Olhei para o crachá no chão.

Na coluna “cargo”, estava escrito: “Equipe de Serviços Internos”.

— O que você quer que eu faça? — perguntei.

— Servir chá, colocar água e fazer o que é pra fazer.

Ela abriu a porta do carro, fez uma pausa e me lançou um olhar de canto.

— Amanhã, na cúpula, na frente de toda a imprensa, eu vou tomar uma decisão importante.

— É melhor você estar lá na hora, porque essa decisão diz respeito diretamente ao nosso futuro.

Ela não explicou mais nada, apenas se abaixou para entrar no carro.

A porta bateu, e o motor rugiu ao ganhar vida.

O sedã preto se afastou devagar pela noite iluminada por néon.

Uma decisão importante.

Num momento em que o grupo enfrentava uma compra hostil e seu fundador estava gravemente doente, a decisão que ela ia tomar não era nada além de se livrar de um peso como eu.

Me abaixei e apanhei o crachá de borda dourada, com o polegar seguindo as letras impressas.

A algema de três anos parecia ter chegado ao limite de se romper.

O vento aumentou.

Acima da metrópole, o trovão abafado ecoou, distante, quase imperceptível.

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