Capítulo 2
— Depressa e dê um jeito nesses copos vazios.
A manga de um terno sob medida roçou meu ombro quando um convidado impaciente largou, sem o menor cuidado, uma taça de champanhe manchada de batom na minha bandeja prateada. O vidro tilintou, seco.
Firmei os pés e recolhi os copos sem dizer nada.
Era o 120º andar da torre mais emblemática da cidade, o centro do Global Tech Summit. Um lustre gigantesco de cristal derramava luz sobre o mármore polido, e cada centímetro do ar fedía a capital e poder. E eu ali, nas sombras, na borda do salão, vestindo um uniforme padrão de serviço que não caía bem.
Havia tempos que os boatos sobre o Grupo Vance estar à beira da falência corriam entre os círculos internos. A cúpula de hoje era a última chance deles.
De repente, a multidão se abriu como o Mar Vermelho.
O piscar das lentes acelerou na mesma hora. Victor Sterling, herdeiro do maior conglomerado financeiro da cidade, avançou até o centro do salão com um copo na mão. A mulher pendurada em seu braço era Elena.
Ela usava hoje um vestido de festa vermelho-escuro deslumbrante. Com um sorriso impecável, acompanhava cuidadosamente a conversa de Victor, tentando usar aquela intimidade para sustentar a dignidade em ruínas da família Vance.
— Elena, a “celebridade” da sua família também veio hoje? — Victor tomou um gole do vinho, e seu olhar atravessou a massa compacta de gente para pousar, com precisão cruel, em mim.
O burburinho do salão morreu. Seguindo o olhar dele, todos os olhos se fixaram na bandeja nas minhas mãos e no meu uniforme barato.
O sorriso de Elena endureceu por uma fração de segundo antes de voltar ao normal. Ela nem sequer olhou na minha direção.
Victor deu um passo à frente, vindo direto até mim. Ele me encarou de cima, com condescendência, os dedos batucando à toa na borda da minha bandeja.
— Sempre tive curiosidade — a voz de Victor não era alta, mas chegava nítida à imprensa ao redor. — Matar meia dúzia de pessoas num campo de batalha ultrapassado compra mesmo essa tal “glória”? Pelo que estou vendo, não. Na sociedade civilizada, no fim você ainda tem que abaixar a cabeça e servir bandeja aqui, não é?
Uma gargalhada explodiu por todos os lados. Os convidados, impecavelmente vestidos, não fizeram esforço algum para esconder o desprezo no olhar, me observando como se eu fosse uma peça cômica de museu.
A mão que segurava a bandeja não vacilou um milímetro; meus nós dos dedos não empalideceram nem um pouco. Três anos de autocontenção treinada já tinham transformado meu controle emocional numa máquina de precisão.
Meu silêncio pareceu entediar Victor. Ele inclinou a cabeça e lançou um olhar a Elena.
Elena puxou fundo o ar e se virou para a área da imprensa, que já estava eriçada de câmeras e microfones.
— Aproveitando a ocasião de hoje, a família Vance precisa esclarecer um assunto — a voz dela ecoou pelo salão vasto através dos microfones. — A partir de hoje, meu noivado com o senhor Arthur está oficialmente cancelado.
Os flashes estouraram como loucos, tingindo meu rosto de uma palidez cadavérica.
Um advogado de terno risca-de-giz se aproximara em silêncio ao meu lado. Ele deu um tapa num documento e o largou direto sobre a minha bandeja, prendendo os copos vazios.
— Senhor Arthur, isto é apenas uma carta de encerramento de um acordo temporário. — O advogado ajustou os óculos de aro dourado, num tom escorrendo arrogância burocrática. — Assine, e o senhor cortará todos os laços com a família Vance.
Um acordo temporário.
Então, três anos engolindo meu orgulho, sustentando meu juramento a Miller, não significaram para eles nada além de um “acordo temporário”, descartável quando bem entendessem.
Pousei a bandeja e peguei a caneta-tinteiro oferecida. O corpo metálico parecia gelado como gelo na minha mão.
Antes de encostar a caneta no papel, enfim ergui os olhos. Meu olhar passou por cima do ombro do advogado e se cravou diretamente nos olhos de Elena.
— Tem certeza? — Minha voz saiu baixa, mas cortou o burburinho ao redor.
Elena ergueu o queixo de leve, os olhos sem a menor ondulação de emoção. — Assine. É você que não serve para este mundo.
Não disse mais nada. A pena deslizou pelo papel, deixando uma assinatura nítida e definitiva.
Tampei a caneta, empurrei o documento de volta para o advogado e me virei em direção à saída.
— Pare.
A voz de Victor soou atrás de mim. Na hora, passos apressados se aproximaram, e dois seguranças parrudos bloquearam meu caminho.
— Tirem ele daqui. — Victor fez um gesto de desdém para os seguranças. — Não deixem um garçom carregador de pratos poluir os olhos de todo mundo.
Um dos seguranças deu um passo à frente, esticando a mão para agarrar minha gola.
No instante em que a mão dele tocou a frente do meu uniforme, os dedos enroscaram na corrente metálica escondida sob a gola. Era a velha plaqueta de identificação que Miller tinha deixado para trás — a única linha de fundo que não tinham arrancado de mim nesses três anos.
— Não encoste.
Minha voz desceu a um tom perigosamente baixo, com uma aspereza metálica, como ferro raspando.
O segurança ignorou o aviso por completo. Os dedos dele puxaram com violência, tentando arrancar a plaqueta.
As comportas da minha contenção se estilhaçaram naquele instante.
Eu não desferi um soco, nem assumi postura de luta alguma. Apenas ergui as pálpebras. Meu olhar, como uma lâmina materializada, pregou-se direto nas pupilas dele.
Era uma supressão fisiológica forjada em montanhas de cadáveres e mares de sangue. A temperatura no salão pareceu despencar naquele segundo; um cheiro denso de sangue pareceu atravessar o ar carregado de perfume.
Os movimentos do segurança travaram de súbito. As pupilas dele se contraíram violentamente, a respiração ficando irregular, como se uma mão invisível estivesse esmagando sua garganta. Suor frio encharcou suas costas num instante. Um segundo depois, os joelhos falharam. Ele desabou no chão como um monte de lama, sons gorgolejantes sem sentido escapando da garganta.
As risadas ao redor morreram na hora.
— Que porra é essa? Fazendo cena de desmaio? — O outro segurança encarou, sem entender, avançou e chutou o companheiro antes de se virar para explicar a Victor. — Esse cara aí tem uma resistência mental lixo. Deve ser hipoglicemia...
Os espectadores soltaram risinhos de desprezo, tratando a cena como não mais do que uma farsa desajeitada.
Ignorei o segurança no chão e não desperdicei nem a visão periférica com Victor e Elena. Avancei a passos largos, atravessando direto as portas principais.
No fim do corredor, as portas do elevador se abriram em silêncio.
Entrei, me virei e apertei o botão do térreo.
As duas portas metálicas foram se fechando devagar, vedando por completo as luzes ofuscantes, os sorrisos hipócritas e os três longos anos de humilhação.
Fiquei sozinho na cabine do elevador. Os números do painel digital começaram a despencar rapidamente.
Baixei a cabeça e enfiei de novo a plaqueta, agora quente, bem fundo sob a gola.
Um vínculo de três anos foi cortado por completo neste momento.
Família Vance, a partir de agora, a vida ou a morte de vocês não tem nada a ver comigo.
