
Diabo de Veludo - Um Romance da Máfia
nicolefox859 · Concluído · 219.9k Palavras
Introdução
Eu me viro... mas meu marido não está lá.
Em vez disso, eu vejo o estranho que arruinou a minha vida.
Aqui vai a história:
Seis anos atrás, eu estava no pior primeiro encontro da história.
Um encontro às cegas com um babaca que não aceitava um não como resposta.
Apareceu um estranho bonito, chegando como um salvador.
Me salvou.
E se sentou para terminar o encontro no lugar dele.
Eu achei aquilo uma loucura.
Mas a química entre a gente era absurda.
A gente começou a conversar, uma coisa levou à outra, e acabamos no banheiro do restaurante, e...
Você sabe.
Eu engravidei.
Ele sumiu.
Minha vida: arruinada.
Eu tentei seguir em frente.
Durante seis anos, eu achei que tinha conseguido.
Mas agora, do nada, ele está de volta — justo no meu dia de casamento, de todos os dias.
Dizendo coisas que não fazem o menor sentido.
“Seu noivo não é quem você achava que ele era...
Eu não vou deixar você se casar com ele...”
E, o pior de tudo...
“Você vai se casar comigo, em vez disso.”
Capítulo 1
Camila
Tenho noventa e nove por cento de certeza de que esse é o pior encontro da história.
— Você disse que fez Letras? — pergunta o Reggie, com a voz de um homem que claramente não sabia que mulheres, sim, sabem ler. — Isso não é meio inútil? Você sonhava em ser caixa do McDonald’s, ou o quê?
Cem por cento de certeza, então.
Desde que a gente sentou, os olhos do Reggie passaram praticamente o mesmo tempo divididos entre o meu decote e a bunda da garota que vem reabastecer nossos copos d’água. Solto um suspiro amargo. Eu não devia ter dado ouvidos à Brianna quando ela disse pra eu ir com o vestidinho preto.
Também não devia ter dado ouvidos a ela sobre o lugar. Esse restaurante é chique, o que significa que o serviço é lento, o que significa que eu vou ficar presa aqui por muito mais tempo do que eu gostaria com o Príncipe Nada Encantador. Segundo strike pra minha querida irmã.
— Tem um monte de empregos bons por aí — eu digo ao Reggie. — Dar aula, por exemplo…
— Tá, mas quem, em sã consciência, quer ser professor?
Eu me arrepio na hora, de irritação.
— Eu quero.
Ele solta uma risada alta. Pelo menos ele tem a decência de perceber — alguns segundos tarde, mas antes tarde do que nunca — que eu estou falando sério. E também que rir na cara dos sonhos de alguém é uma coisa bem escrota de se fazer.
Eu olho pras minhas unhas e suspiro de novo. Cento e oitenta reais mais a gorjeta jogados fora numa manicure por causa de um cara que fala “Françoise” do mesmo jeito que se fala “Boise, Idaho”. Minha vida é uma piada cósmica.
— Você tá muito sexy hoje — diz o Reggie, mudando de assunto de repente. Ele abre um sorriso com os dentes manchados de vinho. — Não, sério. Esse vestido é, tipo… puta que pariu!
A mulher mais velha, com colar de pérolas, na mesa ao lado, lança um olhar reprovador na nossa direção. Eu desvio do olhar dela — e, ao fazer isso, vejo alguém recostado no box no canto, por cima do ombro dela.
Na hora, é como levar uma descarga. Um tranco de calor, da cabeça aos pés, crepitando.
Mesmo sentado, o homem é claramente alto. E aquele rosto — todo anguloso e duro, com maçãs do rosto afiadas como as de um modelo, além de um queixo de Superman. O terno acompanha com fluidez os movimentos preguiçosos dele. Não é difícil perceber que o tecido é absurdamente caro. Ele tem um relógio reluzente à altura.
Eu não consigo desviar o olhar. Quer dizer, até ele virar o rosto na minha direção e me pegar encarando.
Merda-merda-merda! Eu viro pro outro lado rápido demais e me sinto uma completa idiota. Só espero que o rubor nas minhas bochechas não esteja tão óbvio.
— Você tá bem? — pergunta o Reggie.
— Tô ótima! — eu guincho, bem mais alto do que eu pretendia. Por sorte, eu sou salva quando o garçom aparece com nossos pratos.
Ele coloca as travessas na nossa frente. Eu encaro o meu ravióli de tinta de lula sem a menor vontade de comer, com a sensação estranha de que alguém está me observando.
— Cheiro bom, né? — diz o Reggie, atacando o bife imediatamente. Ele corta um pedaço grande e devora antes mesmo de eu pegar o garfo, e continua tagarelando com a boca cheia.
Eu aproveito pra olhar pro outro lado do restaurante. Em parte pra não ter que assistir aos molares do Reggie trabalhando, e em parte pra roubar mais uma espiada discreta no homem do box.
Mas não dá tão discreto assim. Uma fenda de eletricidade sobe pela minha coluna quando eu percebo que ele ainda está olhando pra cá, pra mim.
O olhar dele é direto. Sem desculpas. Sem misericórdia.
Viro o rosto com um arrepio e tento me concentrar no meu macarrão. Reggie não para de falar sobre a loja de materiais de construção que ele tem com os dois irmãos mais velhos. Eu concordo com a cabeça e sorrio, torcendo para ele não perceber que eu não estou prestando a menor atenção.
Você está agindo como uma adolescente apaixonadinha, eu me repreendo. Se controla. O fantasma da Susan B. Anthony provavelmente vai me assombrar pelo resto da vida por eu ter abandonado todas as minhas inclinações feministas no exato instante em que um cara bonito se dignou a olhar na minha direção.
Mas o que ele está fazendo comigo não é ideológico — é biológico. Está pulando por cima de cada parte do meu cérebro que sabe pensar. Falando direto com o calor baixo na minha barriga.
É estranhamente excitante. Estranhamente inquietante.
E muito, muito irritante.
— Cami?
Eu me viro para Reggie. Não gosto do fato de ele ter usado o apelido que minha irmã e a família dela usam comigo. Na boca dele, soa íntimo e familiar demais. Mas eu estou tão focada em terminar esse jantar o mais rápido possível que nem me dou ao trabalho de corrigir.
— Desculpa. O que você falou mesmo?
Ele pousa o garfo com um tilintar irritado.
— Tem alguma coisa te distraindo? — ele pergunta. — É bem falta de educação ignorar o seu par, sabia.
— Não, desculpa, nada — respondo depressa. — Só… cansada.
— Ah, é?
— Eu tinha umas entrevistas de emprego para as quais eu estava me preparando. — O que não é exatamente mentira. — E fiquei acordada até tarde ontem. — Também não é exatamente mentira. Embora “até tarde”, nesse caso, só signifique “tarde pra mim”, ou seja, 9h05 em vez de 9h em ponto.
— Entrevistas de emprego, é? — ele pergunta. — Legal. Enfim, como eu tava dizendo, eu…
Eu me recolho debaixo da superfície do sorriso-permanente-e-aceno-de-cabeça. “Colocando meu protetor de tela”, como a Brianna chama. É mais fácil assim, e o Reggie não precisa de muita participação minha para continuar tagarelando.
— Sabe, eu sempre achei você gostosa pra caramba — ele diz, arrotando para pontuar a tentativa de elogio. — Uma puta de uma mulherão. Uma garota que nem você precisa de um cara que nem eu. Empresário feito por conta própria, sacou? Corredor atrás. E eu também mando bem na cama.
Eu seguro a vontade de revirar os olhos. É pelo menos a décima segunda vez hoje que ele menciona como ele é “feito por conta própria”. Sendo que eu tenho quase certeza de que ele herdou a loja do pai.
Antes que eu consiga pensar em como sair dessa encrenca de conversa, Reggie levanta o olhar e estala os dedos chamando o garçom. Quando ninguém nota ele nos zero vírgula dois segundos que ele está disposto a esperar, ele leva a mão à boca e assovia.
— Ei! — eu sibilo, mortificada com o comportamento dele. — Você não pode assoviar.
Ele fica genuinamente pasmo por eu parecer ter algum problema com isso.
— Por quê?
— É grosseria!
— Grosseria? — Reggie repete, como se eu estivesse falando uma língua estrangeira. — Que nada, gata, é simpatia. Você só não tá acostumada com cara te levando em lugar bom assim.
Eu me encolho na cadeira, as bochechas queimando de vergonha. Talvez, se eu apertar os olhos com força o suficiente, eu fique invisível. Vale a tentativa, pelo menos.
— Pode levar os pratos, querida — Reggie ordena à garçonete quando ela para ao lado da nossa mesa. — E traz os cardápios de sobremesa.
— Na verdade, não precisa — eu digo rápido, lançando para a garçonete um sorriso de desculpas. Por favor, não me odeie, eu digo para ela com os olhos. Eu quero que isso acabe tanto quanto você. — Só a conta, por favor.
— O quê? — Reggie pergunta. — Qual é, a festa tá só começando!
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