Capítulo 1
Há um ano, Selina desabou nos braços de Kyle, ensanguentada e aos prantos, dizendo entre soluços que Ella a tinha empurrado escada abaixo.
Kyle nem deu a Ella a chance de se explicar. Estava farto da atitude dela — orgulhosa, possessiva, incapaz de recuar. Como Alfa da alcateia Lobo Negro, ele queria uma esposa obediente, não uma mulher instável que estava sempre arrumando briga com ele.
Tomado pela raiva, assinou aqueles malditos papéis com a própria mão, mandando uma Ella chorosa e suplicante para a infame "Instituição Correcional de Metamorfos" — um lugar que fazia o sangue de qualquer um gelar.
"Quando aprender a se comportar, poderá voltar para casa", ele lhe dissera.
Um ano depois, a instituição ligou para que ele fosse buscá-la. Esperava ver a esposa voltar quebrada e arrependida, implorando perdão.
Mas a Instituição Correcional de Metamorfos não ensina ninguém a se comportar.
Eles os quebram. Completamente.
Ponto de vista de Ella
"Lorde Kyle, sua parceira concluiu o mais alto nível de treinamento de purificação. A partir de hoje, ela é o seu brinquedinho perfeito."
A sala de recepção da instituição correcional era de um branco ofuscante. O diretor, em seu jaleco branco, empurrou uma pilha de papéis pela mesa na minha direção.
Recostei-me no sofá, tamborilando os dedos no apoio de braço. Eu odiava instintivamente lugares como aquele, mas estava de muito bom humor hoje. Um ano inteiro — e aquela putinha maluca da Ella finalmente estava voltando, pronta para se comportar.
"Ela quebrou?" Ergui uma sobrancelha.
"Não é mais assim que o cérebro da 07 funciona." O diretor bateu palmas. "Tragam a Sujeito 07."
As portas de metal se abriram. Endireitei-me.
A mulher que saiu usava roupas cinzentas de prisioneira, descalça sobre o chão frio. Seu cabelo ruivo e vibrante tinha sido cortado bem curto, com as orelhas de raposa caídas.
Era Ella. Mas não era.
Franzi a testa. Os olhos da antiga Ella se acenderiam como fogo selvagem no instante em que me visse — ardendo de amor ou queimando de fúria. Ela avançaria contra mim, pronta para brigar. Deixaria marcas de mordida no meu pescoço. Aquele cheiro doce e almiscarado de raposa sempre me deixava tonto.
Essa mulher estava quieta como uma morta.
Ela parou exatamente a um metro de mim e então caiu de joelhos. Postura perfeita, coluna ereta, queixo erguido em um sorriso.
"A Sujeito 07 se apresentando ao Mestre. Diga-me o que fazer."
A voz dela soava completamente vazia.
Fiquei encarando, com uma sensação nauseante se infiltrando no meu estômago. Levantei-me e fui até ela.
"Ella, que PORRA você está fazendo?", rosnei, procurando nos olhos dela algo familiar.
Nada. Aqueles olhos que antes brilhavam como âmbar agora eram buracos negros vazios.
"Mestre, o nome 'Ella' não funciona mais. Agora eu sou a 07. Quer que eu me chame de outra coisa?"
A raiva explodiu dentro de mim. Agarrei-a pela gola e a puxei de pé com um tranco. “Chega de palhaçada! Você acha que bancar a coitadinha vai me amolecer? Onde estava toda essa obediência quando você empurrou a Selina escada abaixo?”
Eu joguei o nome de Selina na cara dela de propósito. Antes, esse nome fazia Ella explodir na hora — ela gritava: “Eu não EMPURREI ela, porra!”
Mas, em vez disso, Ella apenas se firmou, as orelhas de raposa tremendo uma única vez.
“Selina... sim. Eu não vou machucar a Selina. Nunca. Obrigada por me lembrar, Mestre.”
Ela me encarou com aquela mesma calma morta.
Meu aperto afrouxou. Ela deu um passo para trás e entrelaçou as mãos.
“Ao que parece, Lord Kyle está bastante satisfeito com nossos resultados.” O diretor abriu um sorriso radiante ao nosso lado. “A Sujeito 07 teve toda agressividade e autoconsciência excessiva removidas. Agora ela é uma folha em branco, existindo inteiramente para a sua vontade.”
“Satisfeito...” murmurei, aquela sensação enjoativa ficando ainda mais forte. Era isso que eu queria, não era? Uma esposa obediente que não causasse problemas, que não enlouquecesse de ciúme. Eu devia estar feliz.
“Vamos. Estamos indo para casa.” Virei e segui até a porta.
“Ok. Indo atrás de você agora.”
Passos atrás de mim. Não olhei para trás, mas eu sabia que ela estava ali, mantendo aquela maldita distância.
No carro, aumentei o aquecedor. Ella sempre odiou o frio — ela subia no meu colo no segundo em que entrava, enrolando aquela cauda fofinha em mim e se recusando a soltar.
Esperei que ela se jogasse em cima de mim. Nada.
Abri os olhos. Ella estava sentada perfeitamente ereta no banco do passageiro, mãos sobre os joelhos, encarando a frente. Nem sinal de se aproximar.
“Por que você está sentada tão longe assim?” eu acabei estourando.
Ela se virou imediatamente para mim com aquele sorriso padrão. “O Mestre não disse que eu podia me aproximar. Eu não posso me mover sem ordens.”
“Ótimo. Estou mandando você vir aqui agora.” Falei com os dentes cerrados.
“Sim, Mestre.”
Ela subiu no meu colo com rigidez.
Eu passei os braços pela cintura dela, tentando encontrar aquela sensação antiga. Mas tudo o que senti foi tecido frio e um corpo que não respondia.
“Você está tremendo.” Notei o tremor nas pernas dela.
“É só meu corpo fazendo isso. Não vai me impedir de seguir ordens. Quer que eu faça parar?” Ela continuou sorrindo, como se estivesse falando do corpo de outra pessoa.
O enjoo me atingiu como um soco na garganta. Eu a empurrei para longe.
“Volta pra aí!”
“Imediatamente.” Ela voltou ao banco do passageiro na mesma hora, sentando-se dura como uma estaca, como se nada tivesse acontecido.
O carro caiu num silêncio terrível. Eu encarei a estrada, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.
Não era nada demais. Ela tinha acabado de voltar — precisava de tempo para se ajustar. Eu repetia isso para mim mesmo. Em alguns dias, ela entenderia que, desde que se comportasse, eu ainda a trataria bem.
Aquela Ella viva, cheia de energia, ia voltar.
Tinha que voltar.
