Capítulo 2
Ponto de vista de Kyle
Na primeira noite em que Ella voltou, a mansão inteira pareceu errada.
Os criados mantinham a cabeça baixa, mal ousando respirar. Eles se lembravam de como Lady Hudson tinha sido cheia de vida um ano atrás. Agora, essa mulher fantasmagórica que seguia em silêncio atrás do lorde deles os assustava até a morte.
Entrei no quarto e arranquei a gravata. Meu cio estava se aproximando — o desejo corria quente pelas minhas veias. Virei para olhar Ella, parada, imóvel, perto da porta.
— Vá tomar banho — ordenei.
— Ok. — Ela assentiu e entrou no banheiro.
Dez minutos depois, ela saiu vestindo uma camisola fina de seda. As orelhas de raposa dela pendiam moles e molhadas.
Sentei na beirada da cama e bati com a mão no espaço ao meu lado.
— Vem aqui.
Ela veio e parou rígida na minha frente.
— Deita. — Minha garganta se contraiu quando estendi a mão para tocar o rosto dela.
Bem quando meus dedos iam roçar a pele, ela falou:
— Mestre, eu percebo que você quer foder. Quer que eu te ajude com isso? Eu posso desligar a dor para não atrapalhar sua diversão.
Minha mão congelou no ar.
— O que foi que você disse? — encarei-a sem acreditar.
— Não é isso que você quer? — Ela inclinou levemente a cabeça. — Eles me ensinaram que esposas têm que fazer tudo o que os maridos querem. Sem chorar, sem deixá-los chateados.
A raiva subiu dos meus pés direto para o meu crânio.
— Você acha que isso é um TRABALHO?! — Eu pulei de pé e agarrei o queixo dela. — Eu sou seu MARIDO! Você adorava se agarrar em mim — e agora tá fazendo pose de peixe morto pra quem, exatamente?!
— Mestre, eu não conheço essa palavra. Eu só sei que você é meu mestre. — Ela foi forçada a olhar para cima. — Se você quer que eu aja como se eu gostasse disso como antes, eu posso aprender.
Os músculos do rosto dela começaram a tremer de um jeito antinatural. Segundos depois, ela forçou um sorriso “tímido” incrivelmente rígido:
— Kyle, eu estava esperando por você.
— CHEGA!
Eu me afastei dela num solavanco, como se tivesse levado um choque. O lobo dentro de mim uivava avisos — isso estava errado. Errado pra caralho.
— Sai. — Apontei para a porta.
— Entendido. Boa noite, Mestre.
Sem um pingo de relutância, ela se virou e saiu, fechando a porta com cuidado atrás de si.
Naquela noite, eu não dormi nem um pouco.
Na tarde seguinte, Selina apareceu.
Ela vestia um suéter de cashmere branco puro, com orelhas de coelho se mexendo na cabeça. Parecia inocente e frágil.
Selina era minha ex-namorada. Um ano atrás, quando ela não tinha para onde ir, eu a acolhi. Como líder de matilha, qual era o problema de ajudar uma antiga paixão? Mas Ella tinha gritado comigo por causa disso várias vezes — absolutamente sem razão.
—Kyle, eu ouvi dizer... a Ella voltou. —Selina se acomodou com cuidado no sofá da sala de estar.
Eu esfreguei as têmporas latejantes, sem dizer nada.
Foi então que Ella surgiu da cozinha, carregando uma bandeja de chá.
Quando ela se aproximou da mesa de centro, os olhos de Selina se estreitaram de leve.
Eu conhecia Selina bem demais — eu não era cego para o que se escondia atrás daquele rosto inocente. Eu só tinha sido preguiçoso demais para lidar com isso antes, achando que as reações de Ella eram exageradas.
De repente, Selina esticou o pé, de um jeito muito sutil, para fazê-la tropeçar.
Com o temperamento antigo de Ella, ela teria despejado o bule inteiro de chá escaldante bem na cara de Selina e, depois, apontado para o nariz dela e soltado todos os palavrões que conhecia.
Eu já estava me preparando para conter a explosão de Ella.
Em vez disso, Ella apenas vacilou um pouco, recuperando o equilíbrio. Mas o bule ainda assim inclinou, e o chá vermelho fervendo espirrou, derramando direto sobre as mãos e antebraços expostos de Ella.
—Ah! —Selina arfou, dramática. —Desculpa, desculpa, Ella! Eu não queria! Você se queimou?
Eu saltei de pé, o coração subindo para a garganta. Aquilo era água recém-fervida! Mesmo que a pele de um metamorfo fosse resistente, ela não aguentava um calor daqueles.
Encarei Ella, esperando que ela gritasse, esperando que ela explodisse.
Nada.
Ella nem sequer se encolheu. Apenas pousou a bandeja de chá com calma e, então, olhou para o braço que inchava rápido, já criando bolhas.
—Mestre. —Ela se virou para mim. —Eu me queimei. Não é tão ruim. Quer que eu limpe essa bagunça?
Silêncio mortal.
Selina ficou completamente rígida, encarando Ella com horror, como se estivesse olhando para alguma criatura incapaz de sentir dor.
Minha cabeça zumbia e o último fio da minha sanidade arrebentou. Corri até ela e agarrei seu braço ferido. A pele estava assustadoramente vermelha, e o calor queimando parecia chamuscar meus nervos.
—Não DÓI?! —eu praticamente rugi.
—Dói pra caralho, mas me ensinaram a não fazer barulho. A menos que você diga que eu posso gritar, eu tenho que ficar quieta. Quer que eu chore pra você agora?
—Você está louca... que PORRA você virou?! —Um pânico sem precedentes me tomou. Eu a tinha enviado para aquele lugar com as minhas próprias mãos. Eu só queria que ela controlasse o temperamento — eu nunca quis arrancar as reações humanas mais básicas dela!
—Kyle... —Selina falou, hesitante. —A Ella... o cérebro dela... quebrou?
—CALA A BOCA! —Eu me virei num golpe. Uma pressão alfa poderosa se espalhou na mesma hora, fazendo o rosto de Selina empalidecer de terror.
Voltei para Ella, que ainda mantinha aquele sorriso, e o pavor no meu peito se expandiu como um buraco negro.
Eu tinha matado a alma da minha esposa.
