Capítulo 3

Ponto de vista de Kyle

Nos dias seguintes, continuei testando a Ella, tentando arrancar dela algum tipo de reação humana.

Esmaguei o vaso favorito dela bem na frente dela — ela só pegou uma vassoura e varreu os cacos. Passei a noite inteira fora, deixando-a esperando na porta do quarto. Ela ficou ali, como uma estátua, até o amanhecer, com as pernas ficando dormentes.

Ela tinha virado uma máquina perfeita e fria.

Isso me deixava puto de verdade. Meu cio veio com força total, me deixando explosivo. Todo mundo na mansão estava morrendo de medo de mim.

A Selina não percebeu meu medo nem meu colapso. Ela só viu que a Ella tinha virado uma capacho, e aquela inveja sombria começou a se agitar de novo.

Naquela noite, eu andava de um lado para o outro no quarto como um animal enjaulado. Os hormônios do cio deixavam meu sangue em brasa, mas pensar no teatrinho de morta da Ella me embrulhava o estômago.

— Kyle. — Selina entrou pela porta de mansinho.

Ela vestia uma camisola fina, os ombros nus brilhando no pôr do sol.

— Agora não, Selina...

— Mas você está sofrendo. — Ela se aproximou, as mãos no meu peito. — Deixa eu cuidar de você. Como antes.

Os instintos do cio e a raiva se misturaram. Quando Selina me beijou, eu não a empurrei.

Foda-se. Eu precisava disso. Eu precisava de uma mulher de verdade, não daquela máquina.

Agarrei Selina com rudeza e a pressionei contra a cama. No meio do beijo, vi uma sombra cinzenta pelo canto do olho.

Ella estava na porta com uma xícara de café, nos observando como se fôssemos animais no zoológico.

Aqueles olhos mortos fizeram minha raiva explodir, branca e ardente.

— CAI FORA! — eu berrei. — Ninguém te chamou! Que porra você está fazendo aqui?!

— Entendido. — Ela saiu, fechando a porta com suavidade.

Eu descarreguei toda a minha fúria e tesão na Selina. Os gemidos dela, o calor, as reações reais — era assim que uma mulher normal deveria ser.

Depois, Selina se aninhou em mim, o dedo desenhando círculos no meu peito.

— Kyle, eu tô com fome. — Ela fez um biquinho, brincalhona. — Quero o bife da Ella. Ela faz tão bem.

Eu sabia que ela estava sendo mesquinha. Não me importei. Eu queria que a Ella soubesse que agora não era nada.

— ELLA!

Ela apareceu no mesmo instante.

— Sim, Mestre?

— Dois bifes, ao ponto para malpassado. Traga aqui agora.

— Entendido. Trinta minutos.

Ela voltou com bifes perfeitos — perfumados, lindamente montados no prato.

— Sua refeição, Mestre. — Ela pousou a bandeja.

Eu beijei Selina de propósito na frente dela e, em seguida, dei a Selina um pedaço de bife na boca.

— Mmm, delicioso. — Selina sorriu, doce. — Ainda é o melhor, né, Kyle?

Eu encarei a Ella, procurando qualquer lampejo de dor ou raiva.

Nada. Ela só ficou ali, parada.

PORRA!

Eu me levantei, irritado, e fui até a varanda fumar. Amanhã eu iria àquela instalação, perguntar se havia algum jeito de consertá-la.

Eu estava prestes a apagar o cigarro quando um grito agudo rasgou a noite.

— AHHH—! Kyle! ME AJUDA!

Corri para dentro.

Selina tinha desabado ao lado da cama, segurando o ombro esquerdo. O sangue jorrava entre os dedos dela.

Ella estava do outro lado, e uma faca de bife ensanguentada no chão entre as duas.

— Kyle! Socorro! — Selina soluçava. — A Ella enlouqueceu! Eu só elogiei a comida dela e ela me esfaqueou! Ela tentou me matar!

Meus olhos se arregalaram.

Um ano atrás, Selina tinha sido assim — ensanguentada no chão, acusando Ella de tê-la empurrado. Naquela época, Ella tinha rugido como uma leoa furiosa: “Ela caiu sozinha!”

Mas agora, Ella só ficou ali, quieta. Sem raiva, sem defesa; nem sequer olhou para Selina. Apenas encarava o sangue pingando da lâmina no carpete.

— Ella... — eu rosnei. — QUE PORRA É ESSA QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?

— Mestre, estou aguardando sua próxima ordem. — Ela ergueu o olhar com aquele sorriso.

— Próxima ordem?! — Eu avancei e dei um tapa forte nela. — Você esfaqueou ela com uma faca e está me dizendo que está esperando ordens?! Acha que bancar a idiota significa que eu não vou te punir de novo?!

Eu perdi o controle por completo.

Eu achei que o centro de correção tivesse consertado ela! Achei que ela tivesse aprendido a obedecer! Mas ela ainda ousava ferir a Selina! Aquela rebeldia nos ossos dela não tinha mudado nada!

— Kyle, dói tanto... eu tô com tanto medo... — Selina choramingou, fraca.

— Sua psicopata maldita! — Eu dei um chute forte na Ella, vendo vermelho. — Por que você não consegue simplesmente se comportar?! Por que você sempre tem que me provocar?! Já que você gosta tanto de sangue, já que quer matar gente, por que você não MORRE logo?!

— MORRE logo, Ella! Sua aberração sem coração — por que você não morre de uma vez, porra?!!

O ar pareceu congelar.

Antes que eu pudesse dizer outra palavra, Ella assentiu.

— O Mestre disse “morra”. Essa é a ordem mais importante. A partir de agora.

O terror me atingiu como água gelada.

— Do que você está falando... — Dei um passo à frente por instinto.

Mas Ella foi mais rápida.

Ela se abaixou depressa e pegou a faca de bife do chão.

— NÃO! — Eu me joguei na direção dela, mas era tarde demais.

— Autodestruição iniciada. Obrigada por tudo, Mestre.

Ella sorriu e, sem hesitar, cravou a lâmina na direção do próprio pescoço.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo