Capítulo 2

— Srta. Brooks, o advogado da parte contrária está pronto. Só precisamos da sua assinatura para concluir a aquisição de 300 milhões de dólares.

Segurei a caneta Montblanc sobre o contrato. O momento decisivo da minha carreira estava a poucos centímetros de distância.

Então, meu celular vibrou. Uma única mensagem frenética de Dean Morrison, o tutor de Lucas, apareceu na tela: Venha para a escola agora. Lucas destruiu a escultura de formatura de um veterano. Os pais chamaram a polícia. Estamos redigindo sua expulsão.

A caneta parou.

— Adiem a assinatura — eu disse, levantando-me abruptamente.

— Stella, você ficou louca? — Meu sócio sênior bateu as mãos na mesa. — Se você sair agora, o acordo desmorona! Você vai perder sua sociedade!

— Eu disse para adiar.

Peguei meu casaco e corri para a chuva torrencial de Manhattan.

Quando empurrei as portas do estúdio de escultura, a cena era um desastre. Mármore quebrado e gesso em pontas cobriam o chão.

Um aluno veterano sangrava pela testa, e a mãe dele gritava histericamente com os policiais.

Lucas estava sentado displicentemente em um banco no canto. Os nós dos dedos estavam em carne viva e sangrando, mas seu rosto era uma máscara de total indiferença.

— Seu lixo mimado e privilegiado! — A mãe avançou quando me aproximei, apontando um dedo trêmulo direto para o meu rosto. — Meu filho trabalhou nessa peça por um ano! Quero ele na cadeia! Quero que seja expulso!

— Senhora, por favor... — comecei.

— Cala a boca! Você é só uma advogada gananciosa! — ela cuspiu, atirando um punhado de esboços arruinados bem na minha cara.

A borda afiada do papel cortou minha bochecha. Uma fina gota de sangue escorreu pela minha mandíbula.

No canto, a cabeça de Lucas se ergueu de repente. Seus olhos cinzentos se arregalaram, fixando-se no sangue no meu rosto. De repente, ele chutou o banco para longe, cerrando os punhos enquanto dava um passo furioso à frente.

Antes que ele pudesse fazer algo ainda mais estúpido, fiquei diretamente na frente dele, bloqueando-o da multidão.

Não enxuguei o sangue. Eu, Stella Brooks — a mulher que fazia executivos de Wall Street suarem no tribunal — me curvei e fiz uma reverência profunda, perfeita, de noventa graus.

— Sinto muitíssimo — eu disse, com a voz firme, mas alta o bastante para que todos ouvissem. — Vou assumir total responsabilidade por todos os danos.

Nas duas horas seguintes, meu orgulho foi completamente despedaçado no escritório apertado do diretor.

Sorri em sinal de desculpas enquanto era xingada. Assenti enquanto era humilhada.

Escrevi um cheque pessoal de 150 mil dólares como compensação imediata para a família. Assinei uma garantia legal draconiana, vinculando-me ao comportamento futuro de Lucas. Por fim, prometi uma “doação” de 500 mil dólares para um novo laboratório de impressão 3D para impedir que o diretor assinasse a ordem de expulsão.

Quando saí do prédio da administração, minhas pernas pareciam feitas de chumbo.

Lucas estava encostado na parede de tijolos do lado de fora, com um cigarro pendendo dos lábios.

Aproximei-me dele e lhe entreguei a autorização de readmissão.

— Vá para a enfermaria e faça um curativo nessa mão. Não falte à aula da tarde.

Ele não pegou a autorização. Deu uma longa tragada no cigarro e soprou a fumaça diretamente no meu rosto.

— Gostou do show, Stella? — ele zombou, com a voz escorrendo veneno. — Fez você se sentir uma santa? Concordando com a cabeça e se curvando que nem um cachorro só pra comprar a minha saída?

Enxuguei o suor frio da testa. — Lucas, chega.

— Não, não chega! — Ele deu um passo à frente de repente. — Você adora isso, não adora? Adora bancar a salvadora com o nosso dinheiro! Você só quer mostrar pra todo mundo o quanto eu sou patético, pra ter a desculpa perfeita pra manter um aperto firme no poder da minha família!

— Você é só uma velha controladora, faminta por poder — ele cuspiu, com a voz afiada como uma lâmina.

— Só vai pra aula, Lucas — eu disse, baixo.

Sem lhe dar mais um olhar, virei as costas e caminhei direto para a névoa fria e úmida.


Ponto de vista de Lucas

Lucas ficou paralisado, vendo a silhueta esguia dela desaparecer.

No instante em que o carro dela se afastou, toda a bravata tóxica se esvaiu do corpo dele, substituída por uma onda sufocante de auto-ódio.

Droga.

Ele encarou as próprias mãos trêmulas. Tinha visto o corte de papel sangrando na bochecha pálida dela. Tinha assistido à mulher intocável curvar as costas e se humilhar diante de uma sala cheia de zé-ninguéns só para mantê-lo fora da cadeia.

Por que eu sempre faço isso? pensou, chutando a parede de tijolos com violência até os nós dos dedos, em carne viva, latejarem.

Eu só queria limpar aquele sangue do rosto dela. Queria dizer obrigado. Mas, no momento em que ela me olhou com aquela máscara perfeita e sem emoção, eu precisei rasgar aquilo. Eu precisava ver se ainda conseguia fazê-la sentir alguma coisa... qualquer coisa.

— Stella... — ele praguejou entre dentes, socando a parede de frustração.


Todo mundo em Nova York acha que eu sou viciada na riqueza da família Scott.

Eles não sabem que, cinco anos atrás, num dia chuvoso igual a este, o meu mundo inteiro desabou.

Foi no dia seguinte ao funeral do Elias. Eu estava sentada no meu apartamento escuro, entorpecida até os ossos, quando o meu médico ligou.

— Senhorita Brooks, como o seu noivo faleceu, precisamos atualizar o contato de emergência nos seus registros do transplante de rim.

Minha respiração travou. — Que registros de transplante?

— O... o rim que a senhora recebeu três anos atrás, no seu penúltimo ano da faculdade. Elias Scott foi o doador anônimo. Ele nos ordenou explicitamente que mantivéssemos isso em segredo da senhora.

Eu nem lembro como cheguei à mansão da família Scott naquele dia.

Quando cheguei, a propriedade grandiosa era uma zona de guerra. Elias estava morto. O Sr. Scott tinha sofrido um colapso mental completo.

Os tios e primos gananciosos tinham descido como abutres, rasgando a empresa ao meio, exigindo a liquidação dos ativos.

E, do lado de fora, na chuva congelante, impedido de entrar na própria casa, estava Lucas, de dezesseis anos.

Ele estava encharcado, tremendo violentamente. Nos braços, apertava com força um busto de argila meio esculpido — uma escultura de Elias. Os seguranças dos tios o tinham literalmente jogado para fora pela porta da frente.

Ele ergueu os olhos para mim. A chuva colava o cabelo escuro na testa dele.

Naquele momento, meu coração parou de bater.

Aqueles olhos cinzentos e marcantes. Aquele maxilar teimoso. Era exatamente o mesmo rosto de Elias.

Eu atravessei a lama, abri meu guarda-chuva e o segurei sobre a cabeça dele.

— Venha comigo — eu tinha dito, com a voz tremendo, mas firme. — Eu vou ajudar você a proteger as coisas do seu irmão.

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