Capítulo 1
Ponto de Vista: Amayra
“MAS QUE…” — foi o primeiro pensamento que me veio à cabeça quando o vi sentado na sala de visitas da minha casa, e eu estava exatamente parada diante dele, com a bandeja de chá nas mãos, pronta para cumprimentar os convidados.
Aqueles olhos azul-escuros cravaram em mim, fazendo um arrepio descer pela minha espinha do mesmo jeito que aconteceu quando os vi pela primeira vez.
“O que ele estava fazendo na minha casa? Não era para alguém vir me ver para casamento? Meus pais tinham que escolher justamente ele? Existem milhões de rapazes na nossa casta e, ainda assim, é ele que está aqui, sentado na minha frente com esse sorriso convencido e irritante.”
Cinco anos atrás:
Assim que entrei na cafeteria da faculdade, senti como se uma corrente elétrica atravessasse meu corpo inteiro e os pelos da nuca se arrepiaram. Ele estava sentado lá dentro, de frente para a porta, olhando na minha direção sem piscar. Havia outras pessoas sentadas ao redor dele, ocupadas conversando entre si. Mas ele continuava me encarando, como se estivesse me hipnotizando — e estava conseguindo, porque eu também não conseguia parar de olhar para ele.
Ele parecia uma obra-prima de um pintor, ou uma arte da própria natureza. Com uma camisa branca lisa e jeans azul-claro, de tênis, estava sentado com uma perna apoiada sobre a outra, como se já tivesse conquistado o mundo inteiro.
Tempo presente:
Fiquei congelada no lugar, surpresa e enojada. Mesmo assim, ele ainda conseguia me causar arrepios, como no nosso primeiro encontro. Só que, diferente da última vez, agora o motivo era a aversão que eu sentia por ele.
Saí do meu pesadelo quando minha mãe deu dois toques nas minhas costas e me mandou servir chá para todos.
Andei até eles, distribuí as xícaras e me sentei em um dos sofás. Eu me esforçava ao máximo para manter um sorriso e um ar de timidez no rosto. Mas o olhar da minha mãe me dizia que eu estava fracassando miseravelmente.
Meu tio pigarreou para começar a conversa e disse:
— Esta é a minha sobrinha de quem eu estava falando: Amayra. Ela é redatora de conteúdo numa revista de negócios e, na maior parte do tempo, fica em casa, porque envia os textos online para os editores.
A família do rapaz pareceu bem satisfeita com as palavras do meu tio. Então ele continuou a apresentação:
— E este é o Karan. Ele construiu uma empresa muito respeitada em parceria com um amigo, não só na Índia, mas também em Nova York, no Canadá e na Austrália, em apenas cinco anos, com muito trabalho duro.
“Trabalho duro!!!” Se eu não o conhecesse, talvez acreditasse em cada palavra do meu tio sobre esse homem. Mas eu o conhecia bem o bastante para saber que ele podia fazer qualquer coisa — desde que fosse de forma legal e calculada.
Então fui arrancada dos meus pensamentos de novo pelas palavras seguintes do meu tio:
— Por que a moça e o rapaz não se sentam a sós e conversam para se conhecerem e se entenderem?
“Ah… sozinhos num quarto para conversar e se entender melhor. Ninguém conhece e entende a gente mais do que nós dois. Pelo menos, eu acho.”
Minha mãe e a mãe dele nos levaram até o quarto do terraço, onde poderíamos sentar e ninguém nos interromperia enquanto conversássemos. Então fomos em silêncio, sem sequer olhar um para o outro.
Acho que nós dois ainda estávamos com raiva um do outro. O ódio que sentíamos não dava para descrever em palavras. Se as circunstâncias fossem diferentes, eu diria a mesma coisa sobre o nosso amor. Nós éramos inseparáveis naquela época.
