Capítulo 2 Chefe frio e impiedoso

— Acho que tem alguém entrando — comentou Júlia.

Novamente, veio outro barulho. O estalo foi só o rangido da estrutura do iate contra a maré. O homem soltou um grunhido grave, ignorando o ruído, e afundou o quadril com força contra o dela.

 — Esquece o resto, —  ele rosnou, a voz áspera arrando na orelha de Júlia. — Se concentra em mim.

Os dedos dele se cravaram no quadril dela, erguendo o corpo de Júlia na medida exata. Ela soltou um gemido alto quando o encaixe finalmente aconteceu, preenchendo cada centímetro.

O calor da bebida subiu de uma vez pela cabeça de Júlia, misturando a tontura da droga ao ritmo bruto que o homem impunha na cama. 

Ela puxou os ombros dele para baixo, sentindo os músculos das costas se contraírem sob os seus dedos enquanto ele aumentava a velocidade das estocadas.

— Olha pra mim, — ele mandou, mantendo a máscara preta presa ao rosto enquanto aumentava a pressão.

Júlia tentou focar a visão turva nas sombras acima dela, mas a sensação do corpo dele batendo contra o seu apagava qualquer pensamento lógico. 

A respiração dele ficou descompensada no mesmo segundo em que a pegada nas suas coxas ficou quase dolorosa.

O ápice atingiu os dois quase juntos, num solavanco que fez Júlia arquear o pescoço e soltar um grito abafado contra a curva do ombro dele. 

O homem travou os músculos, soltando um urro grave antes de desabar pesado sobre o seu corpo, com o peito subindo e descendo descontrolado.

Aos poucos, o peso dele foi se tornando uma âncora no colchão. O efeito da droga no copo finalmente desligou a mente de Júlia, e os olhos dela se fecharam sozinhos enquanto o som do mar do lado de fora arrastava ambos para o apagão.

No meio da madrugada, os dois dormiam relaxados até que a porta se abriu. Nem mesmo as vozes masculinas alteradas a tiraram do seu torpor. Envolta nos lençóis, Júlia escutou um deles dizer: 

— Tira logo ele daqui antes que o chefe descubra que o neto dele dormiu com a garota errada.

— Ele tá dopado e bêbado demais — o outro respondeu.

De repente, o silêncio voltou a reinar e ela tomou a dormir plácidamente.

Na manhã seguinte, Júlia despertou sozinha. A cabeça doía e seu corpo ainda estava dolorido devido a noite que passou com o homem viril.

Ela tomou a aspirina e olhou pra mesa de café da manhã abastada,  onde tinha o buquê de rosas.

Não sabia quem era aquele homem e muito menos, o nome dele. Mas achou que era melhor assim.

Após comer e tomar um banho, ela colocou a roupa e pegou um sobretudo longo marrom-escuro que estava jogado numa das poltronas. Ela vestiu pra cobrir aquele vestido curto e justo.

Quando saiu, fez sua caminhada da vergonha diante dos seguranças e dos tripulantes que ainda estavam no iate.

Júlia desembarcou e chamou um carro por aplicativo. Quando chegou em casa em Navigli, abriu a porta e se deparou com a casa completamente vazia.

Diante da sua nova realidade, ela queria sentar e chorar, mas estava mais de quarenta minutos atrasada para o trabalho. 

Após se livrar do sobretudo e aquele vestido decotado, vestiu o seu costumeiro terninho preto e desceu, caçando o carro. 

Entretanto, ela se deparou com um antigo Fiat Panda branco que herdou de seu falecido avô. 

Engolindo a vontade de chorar, ela ligou o carro que engasgou no começo. Ela saiu e com a porta aberta, começou a empurrar. Quando acabou pegando no tranco, Júlia se jogou no banco motorista, bateu a porta e segurou firme no volante;

Ela seguiu até a Via Dante 14, no centro histórico de Milão, onde trabalhava como estagiária do Conglomerado multinacional especializado em engenharia genética avançada, inteligência cibernética industrial e o desenvolvimento de infraestrutura de transporte de alta velocidade. 

No estacionamento, o seu carro parou antes que ela conseguisse entrar numa última vaga. Mas um BMW prata surgiu, tomando o seu lugar.

Indignada, Júlia saiu e foi pra cima do motorista que abriu a porta para saltar do BMW.

Primeiro ela engoliu em seco com a beleza do homem. Analisou o pijama de seda preto que ele usava e reclamou:

— Essa vaga é só  para funcionários.

— Não grita, — ele tocou a testa. — Estou com dor de cabeça.

Seus olhos avaliaram os cabelos desgrenhados. Naquele segundo, começou a achar que ele era algum jovem de ressaca que parou no local errado.

— Não tô nem aí — revoltada, Júlia disparou. — Tira logo seu carro da minha vaga.

— Seu nome está aqui?

— Não — meio sem graça, Júlia respondeu.

Tocando o rosto recém barbeado, ele analisou a mulher mais baixa e rebateu:

— Mas, eu trabalho aqui.

 Nervosa, ela tirou o celular do bolso e começou a filmar o bonitão de pijama.

— Um funcionário nunca usaria esse tipo de roupa para trabalhar.

O homem de pijama de seda preta franziu a testa.

“Ah, Deus, ele fica mais gato quando está com raiva”.

Sem perder tempo, ele passou por Júlia e a deixou resmungando sozinha.

— Hei, não pode deixar seu carro aqui.

— Não enche — respondeu o cara, sem olhar pra trás.

— Onde vou colocar meu carro? — A voz de Júlia titubeou.

O homem de pijama parou e olhou sobre o ombro.

— Leva essa sucata pro ferro velho.

— Estupido — disparou Júlia, exasperada.

Depois que guardou o celular na bolsa, ela ainda levou um tempo até conseguir outra vaga, o que ocasionou em mais de uma hora de atraso.

Júlia atravessou as portas giratórias da Vanguardia & Bellini S.p.A. com o fôlego curto e os saltos ecoando de forma rítmica no piso de granito polido do saguão. Dez minutos atrasada.

Enquanto ajustava rapidamente o blazer e tentava disfarçar o cabelo levemente desalinhado pelo vento gelado de Milão, ela mal teve tempo de cumprimentar o segurança.

Quando adentrou no saguão da empresa, uma das recepcionistas fez um gesto com a mão, chamando por ela.

— Júlia, tá muito atrasada — resmungou.

— Um idiota parou na minha vaga, Carol.

— Vai lá e registra o seu ponto porque o neto do dono da empresa já chegou. — A recepcionista cochichou ao contar a fofoca. — Parece que ele demitiu todos os funcionários que trabalhavam com a mãe dele.

Por algum motivo, Antonella Bellini tinha abdicado do cargo, mas ninguém soube o porquê.

— Corre e vê consegue a vaga de secretária, — a recepcionista sugeriu.

Júlia lançou um olhar rápido para o relógio de pulso e disparou direto para os elevadores privativos. Ela correu, esperando conquistar a vaga. Afinal, estava naquela empresa há mais de um ano.

No caminho, encontrou sua amiga Fabíola que tinha deixado ela numa enrascada no iate na noite anterior.

— Amiga, te procurei. 

— Não posso falar com você agora, Fabi!

— Tá com raiva? — Fabíola perguntou enquanto a seguia.

Parando, Júlia virou pra amiga.

— Não tô com tempo pra conversar agora, soube que tem uma vaga pra secretária do novo CEO.

Ao se virar, Júlia esbarrou com o homem de pijama de seda, derrubando o copo de café quente que ele trazia.

— Olha só o que você fez? — Ela berrou ao ver a mancha em sua roupa. — Alguém chame o segurança pra tirar esse cara daqui…

— Júlia… — Fabi balbuciou. — Espera. — Deu um beliscão em seu braço para advertir.

— Não, esse louco pensa que trabalha aqui e está me perseguindo…

— Como assim eu tô te seguindo? — O cara de pijama riu. — Tá louca?

— Segurança! — Júlia começou a gritar.

Quando um deles apareceu, fitou o homem com respeito ao cumprimentar:

— Bom dia, senhor Bellini… 

Atônita, Júlia ficou parada. Não teve qualquer reação ao descobrir que o cara de pijama, com quem estava brigando desde o estacionamento, era o novo CEO da empresa.

— Esse é Bernardo Bellini, filho de Antonella… — Fabi mencionou. — É ele quem vai substituir a mãe na empresa.

“Mais que droga” nervosa, Júlia reclamava em pensamentos.

Naquele momento, ficou claro que sua chance de se efetivar dentro daquela empresa foi totalmente descartada.

— E agora, senhorita Almeida? — Bernardo Bellini estreitou o olhar, assumindo seu lado frio e impiedoso. — Devo mandar os seguranças te jogarem no meio da rua?

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