Capítulo 3 O novo CEO

O silêncio se estendeu mais do que devia. 

Júlia sentiu o sangue sumir do rosto. Ela queria encontrar alguma desculpa que a justificasse, mas as palavras ficaram presas na garganta enquanto fitava o tecido de seda molhado de seu novo chefe.

— O que foi, senhorita Almeida? — Bernardo repetiu a pergunta, com um sorriso irônico e desafiador desenhado nos lábios. — O gato comeu a sua língua? Toda aquela coragem de me afrontar enquanto me filmava no estacionamento sumiu?

Ao fundo, Fabíola puxava levemente a manga do casaco de Júlia, suplicando em silêncio pra que ela ficasse quieta. Mas o orgulho ferido e o pânico de ser demitida antes mesmo de começar falaram mais alto.

— Eu não sabia que o senhor era… quer dizer, o novo CEO — Júlia gaguejou, forçando uma postura profissional enquanto tentava ignorar a dor de cabeça da ressaca.

Bernardo cruzou os braços e se aproximou, parando bem perto à medida que a avaliava de cima a baixo com um olhar analítico que parecia decifrar cada pensamento dela. 

Apesar do visual desgrenhado, os traços marcados do rosto dele o deixavam ainda mais bonito, embora ele estivesse mais inclinado a beijá-la do que a demiti-la.

— Vou arrumar as minhas coisas — resignada, ela falou.

— Espere… demitir a senhorita seria muito fácil;— Bernardo comentou, aproximando-se o suficiente pra que ela sentisse o perfume amadeirado misturado com o aroma do café perdido. — Mas a Vanguardia & Bellini não tem espaço para incompetência nem pra escândalos no saguão.

Ele deu dois passos para trás, ajeitando os punhos da camisa que por baixo do pijama começava a revelar a imponência do herdeiro.

— Você quer continuar trabalhando aqui, não quer? — ele inquiriu, arqueando uma sobrancelha.

“Claro” respondeu em sua cabeça. “Que pergunta idiota”, ela até quis dizer em voz alta, mas permaneceu calada.

— Sim, senhor — mesmo contrariada, ela respondeu.

— Pois bem. Provisoriamente, você será a minha assistente — decretou Bernardo, vendo o brilho da esperança surgir brevemente nos olhos dela antes de desfazê-lo com um sorriso cínico. — Primeiro, você vai até a Via Montenapoleone, na alfaiataria de minha confiança, buscar o meu terno sob medida que ficou pronto. Segundo... — ele apontou para a mancha na própria roupa — você vai voltar para a cafeteria do térreo e vai pessoalmente preparar um espresso duplo com exatamente duas gotas de extrato de baunilha e vaporização perfeita. Se estiver frio, amargo ou fora do ponto, você volta para o fim da fila da recepção.

— Mas senhor Bellini, eu tenho relatórios para...

— Trinta minutos, Júlia. Contando a partir de agora — ordenou Bernardo, virando-se de costas e caminhando a passos largos em direção ao elevador privativo. — Não me faça esperar.

Júlia respirou fundo, fechando os punhos com força dentro dos bolsos do blazer.

— Idiota... — ela sibilou entre dentes, antes de se virar para Fabíola, que apenas abriu um sorriso e levantou os polegares em sinal de apoio.

Júlia saiu dali diante dos olhares dos outros funcionários que estavam por perto. Antes de chegar no elevador, seus ouvidos captaram os bochichos.

— Ela não vai conseguir — uma voz feminina comentou.

— Essa louca devia desistir — o comentário veio de uma voz masculina.

Quando as portas se abriram, ela adentrou seguida de sua amiga Fabíola. Olhou seus cabelos opacos e sem vida presos num coque. 

— Não devia ter te escutado ontem — reclamou Júlia. — Por sua culpa, fiquei presa naquele iate e nem tive tempo de me maquiar hoje de manhã.

— Ai, amiga, fizeram alguma coisa com você? — Fabíola indagou.

— Não — cerrou os olhos, lembrando do homem vigoroso que a possuiu. — Só fiquei por algumas horas, depois me liberaram.

No fundo, estava com receio de revelar sobre o que aconteceu entre ela e o estranho. Achou melhor guardar o segredo em algum canto de sua mente.

— Pelo menos, você vai trabalhar como assistente por um dia! — Retocando batom, Fabíola falou com desdém.

— Por que acha isso?

— Esse prazo que ele te deu é ridículo… você tem menos de meia hora.

As portas se abriram e Júlia saiu em disparada sem se despedir.

Chegando no estacionamento, viu que seu carro não estava mais lá. Foi então que resolveu chamar um carro por aplicativo pra ir na loja buscar o terno de seu chefe.

Enquanto isso, Bernardo tirou a camisa de seda do pijama em seu suntuoso escritório. Pegou o celular e ligou para o recursos humanos.

— Mande tudo sobre Júlia Almeida — ordenou. 

Em menos de cinco minutos, o e-mail aparece na tela de seu computador. Ele abriu a foto da mulher com olhos pretos e cabelos castanhos longos e lisos. Seu nome focou no nome de seu cônjuge Leonardo Almeida Ricci.

Ele passou a mão na barba e fitou o relógio, faltavam dez minutos pra ela voltar.

O celular vibrou sua mesa, seus olhos se atentaram pra tela. Ele soltou um suspiro profundo antes de atender. Colocou no viva-voz e largou o aparelho em cima da mesa.

— Oi, nonno!

— Você vai mesmo trabalhar na empresa da sua mãe?

— Sim!

— Che palle. Deveria estar aqui me ajudando…

— Prefiro assumir os negócios por aqui em Milão.

— Vá benne — Relutante, o velho respondeu do outro lado da chamada. — Por que foi trabalhar de pijama?

— Seus espiões não perdem tempo… — debochou Bernardo. — Eu me atrasei…

— Caspita, passou a noite com a Eva?

Eva era a mulher que o avô dele tinha escolhido para mais um encontro às cegas… 

— Ela é pra casar, viu!

— Va bene, nonno.

Os olhos castanhos de Bernardo fitaram a porta quando alguém bateu. 

— Preciso voltar ao trabalho, arrivederci — ele encerrou a chamada antes que o avô continuasse falando sobre a tal Eva.

— Entre, — balbuciou de propósito.

Novamente, bateram à porta levemente. 

Do outro lado, Júlia se esforçava para segurar o cabide com a capa preta que cobria o terno numa mão e o copo de café na outra. Já nem tinha ideia de quanto tempo faltava.

O coração deu um salto quando a porta se abriu vagarosamente. Ela entrou em passos comedidos e quase derrubou o copo quando reparou nos gomos dos músculos trincados do abdômen do novo CEO.

— Muito bom! — Ele esboçou um sorriso perfeito, pegando o corpo de sua mão. — Ainda falta um minuto.

— Quase não consegui… — disse Júlia, buscando o fôlego.

Ela baixou o rosto, tentando esconder suas bochechas coradas.

— Nunca viu seu marido sem camisa? — perguntou Bernardo, curioso.

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