Capítulo 4 A garota do café
— Estou me divorciando, senhor — ela balbuciou, um tanto constrangida.
Deixando o copo sobre a mesa, ele apanhou o cabide do terno que ela ainda segurava.
— Se me der licença, tenho que ver onde está o meu carro…
— Ah, Sim! Fui eu que mandei rebocar aquela sucata — comunicou com sarcasmo.
“Idiota!” Ela gritou internamente e mordeu a bochecha por dentro pra não xingar o chefe em voz alta.
— Com licença — foi tudo o que Júlia conseguiu pedir.
— Seu trabalho ainda não terminou, senhorita Almeida! — Ele deixou a capa que cobria o terno sobre uma das poltronas e foi à mesa pegar o copo de café. — Está morno, — reclamou, devolvendo o copo. — Refaça!
Os olhos dela se ergueram de volta para o homem alto. Os cabelos dele já estavam penteados num topete moldado para trás.
“Taca isso nele” A voz intrusiva sussurrou em algum canto da sua mente. Ela abriu o copo, já planejando lançar todo o líquido na cara do CEO mandão. “Vou te mostrar que essa porcaria ainda está quente”, falou em pensamentos ao erguer o braço.
“Taca isso nele” A voz intrusiva sussurrou em algum canto da sua mente. Ela abriu o copo, já planejando lançar todo o líquido na cara do CEO mandão. “Vou te mostrar que essa porcaria ainda está quente”, falou em pensamentos ao erguer o braço.
Júlia respirou fundo. Seus dedos apertavam a tampa do copo de café enquanto a voz intrusiva em sua mente fazia uma contagem regressiva: “Um, dois, três... joga na cara dele e pede demissão”.
— Aconteceu alguma coisa, senhorita Almeida? — Bernardo perguntou, erguendo uma sobrancelha, com um sorriso cínico nos lábios.
Ele cruzou os braços contra o peito, exibindo a rigidez dos músculos.
A proximidade dele era sufocante. O perfume amadeirado parecia entorpecer o resto de sua razão. Júlia travou o maxilar, fechou os olhos por um segundo e, com um suspiro trêmulo, forçou os lábios a se curvarem num sorriso falso que beirava o ódio puro.
— Nada, senhor Bellini. O café só esfriou rápido por causa do ar-condicionado. Vou preparar outro imediatamente — disse ela.
— Ótimo. E não demore. Tenho uma reunião com os acionistas em vinte minutos e faço questão de entrar na sala com o café fumegante — Bernardo virou-se de costas, caminhando até a mesa de mogno e pegando alguns papéis. — Ah, e Júlia?
Ela parou com a mão na maçaneta da porta e os ombros tensos.
— Sim?
— Da próxima vez, use sapatos mais silenciosos. O eco dos seus saltos me dão dor de cabeça e quase quebram a minha concentração.
Júlia mordeu o lábio inferior com tanta força que sentiu o gosto do sangue. Ela abriu a porta, saiu pisando duro e a fechou atrás de si.
No corredor vazio, ela encostou a testa na parede fria de vidro inteligente, fechando os olhos enquanto tentava regular a respiração.
— Calma, Júlia... Não perde a cabeça. Você precisa desse emprego para pagar o aluguel daquele cativeiro que o traste do teu ex te deixou — sussurrou pra si mesma, balançando a cabeça.
Ela desceu para a cafeteria do térreo com o orgulho ferido e a certeza absoluta de que Bernardo Bellini era o homem mais insuportável, arrogante e absurdamente atraente que já pisou em Milão.
Enquanto vaporizava o leite e contava as exatas duas gotas de extrato de baunilha, uma lembrança fragmentada da noite anterior cruzou sua mente. Ainda podia sentir o calor dos braços fortes daquele estranho a segurando na cama, a voz rouca, o calor daquele corpo colossal... Ela balançou a cabeça com força pra afastar os pensamentos.
“Não. Tenho que manter o foco”, falou consigo mesma.
Dez minutos depois, ela retornou ao andar executivo, equilibrando a nova bandeja com o espresso duplo perfeito. Bateu educadamente na porta antes de entrar.
Bernardo estava sentado à mesa. Já estava vestido com o terno slim-fit azul-escuro que moldava os seus músculos
Ele estava analisando alguns gráficos holográficos projetados em sua tela quando ergueu os olhos no momento em que Júlia se aproximou, depositando o copo com delicadeza ao lado do teclado.
O CEO inclinou a cabeça, pegou o café e deu um pequeno gole. O silêncio durou o tempo suficiente para o coração de Júlia bater ferozmente.
— Passável, senhorita Almeida — ele decretou, colocando o copo na mesa. — Agora, sente-se na sua nova mesa ali fora. O seu dia só está começando.
— Sim, senhor.
Conformada, ela saiu. Ao menos, podia ficar naquele emprego até conseguir uma vaga em outra empresa.
A pilha de relatórios financeiros e a agenda da diretoria a aguardavam na mesa, e o dia mal havia começado.
— Hei, Júlia, traz um cafézinho pra mim… — um executivo mandou.
Levantando os olhos da papelada, ela encarou o homem de pele clara.
— Vai pegar!
— Mas você é a garota do café… — outro funcionário debochou.
A porta da sala da diretoria se abriu abruptamente. Antes que lhe desse mais alguma ordem, Júlia se levantou.
— Onde pensa que vai? — indagou Bernardo.
— Vou pegar o café pra eles — mencionou, apontando para os executivos.
— Ah, já fizeram seus pedidos? — Bernardo andou pelo espaço até parar ao lado de Júlia.
— Quero um café expresso — mencionou o mais alto e de pele alva.
— Prefiro um mocaccino — o outro funcionário acrescentou.
“Não sou barista!” Revoltada, ela berrou internamente. Ao invés de expressar o que sentia, ela começou a andar…
— Onde vai, senhorita Almeida? Ainda não acabei… — A voz de Bernardo a fez parar.
— O senhor também quer outro café?
Chegando perto, ele tocou em seu ombro. Logo, um arrepio percorreu por cada centímetro de sua pele. Ela teve de ser forte para manter as pernas firmes quando um calor conhecido subiu por suas coxas.
— A senhorita Almeida não é a garota do café. Hai capito? — Perguntou ele, fuzilando os outros dois com o olhar.
— Sim, senhor! — Ambos responderam em uníssono
— Tem diversas cafeterias lá fora, inclusive tem uma máquina de expresso na copa…
— Agora, vão pra sala de reuniões e me aguardem.
Um sorriso involuntário surgiu nos lábios de Júlia quando viu os outros funcionários correndo com o “rabo entre as pernas”.
— Qual a graça? — O tom de Bernardo estava mais rouco. — Estou com fome… quero um sanduíche.
— Um sanduíche? — Júlia piscou, surpresa com a guinada súbita no tom dele.
A onda de calor que ainda ecoava pelo toque em seu ombro deu lugar instantaneamente à indignação profissional.
— Senhor Bellini, eu não sou barista e tampouco sou funcionária da cantina. Minhas atribuições envolvem os relatórios financeiros, a agenda da diretoria e...
— E atender às necessidades imediatas do CEO, inclusive as gastronômicas, quando exigido — Bernardo a interrompeu com uma calma irritante.
