Capítulo 5 Chefe exigente
Enfiando as mãos nos bolsos da calça do terno slim-fit. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois de forma proposital.
— Talvez a senhorita queira voltar para o final da fila da recepção e procurar outra vaga em Milão.
Júlia cerrou os dentes. Teve que conter o impulso de voar no pescoço do chefe e estrangulá-lo com as próprias mãos.
— Qual tipo de sanduíche o senhor quer? — perguntou ela, forçando cada sílaba entre os dentes cerrados.
O da boca de Bernardo se curvou num sorriso satisfeito, como se ele estivesse se divertindo imensamente com a sua frustração.
— Simples, mas perfeito. Pão ciabatta fresco, prosciutto di Parma, presunto cru, rúcula fresca, raspas de limão siciliano e um toque de azeite trufado. Ah, e tostado na chapa na medida exata para o queijo fundir sem queimar o pão.
Júlia arregalou os olhos.
— O senhor quer que eu faça milagres ou que busque um lanche? Isso não tem na cantina do térreo!
— Então trate de encontrar uma boa delicatessen no quarteirão ou invente algo na copa dos executivos. Você tem vinte minutos antes da minha reunião da tarde. Não me decepcione, Júlia... — ele sussurrou o apelido de forma quase imperceptível, antes de se virar e caminhar de volta para a sala, fechando a porta com força.
Júlia ficou estática por um segundo, sentindo o sangue fervendo nas veias.
“Seu Idiota, arrogante, convencido,” ela descarregou uma lista mental de ofensas enquanto recolhia sua bolsa da mesa.
Desta vez, ela não abaixou a cabeça. Engoliu o orgulho, ajeitou o blazer e saiu marchando pelo corredor.
Se Bernardo Bellini achava que ia vencê-la pelo cansaço com caprichos gastronômicos, ele ainda não conhecia a teimosia de uma mulher que passou a noite anterior com o homem errado e acordou sem o marido, sem dinheiro e sem carro.
Dez minutos depois, ela retornou triunfante da pequena delicatessen artesanal escondida na esquina da Via Dante, trazendo o sanduíche perfeitamente embalado em papel manteiga e aquecido no ponto exato.
Ao abrir a porta da sala da diretoria sem bater, ela depositou o pacote sobre a mesa de mogno.
Bernardo ergueu os olhos dos papéis, surpreso com a audácia. Ele abriu o embrulho, deu uma mordida avaliadora e mastigou devagar.
— E então? — Júlia cruzou os braços, desafiadora. — Está ruim o suficiente pro senhor me mandar de volta para a recepção?
Bernardo limpou os cantos da boca com um guardanapo de linho, fixando nela aqueles olhos castanhos profundos que pareciam desvendar todos os seus disfarces.
— Perfeito, senhorita Almeida — ele murmurou com a voz rouca, recostando-se na cadeira de couro. — Parece que você serve para alguma coisa além de esbarrar em mim e derramar café. Agora, volte para a sua mesa.
Ao dar o primeiro passo, tudo começou a girar a sua volta. Ela segurou forte na poltrona pra não cair.
— O que houve? — A voz rouca estava distante.
— Nada, só uma vertigem — ela tocou na testa enquanto esperava o mal-estar passar.
— A senhorita se alimentou hoje?
— Tomei café às sete da manhã.
— Já são quase uma da tarde!
Júlia estava prestes a se virar quando suas pernas bambearam. Os braços musculosos seguraram. Rapidamente, ele a sentou na poltrona.
— Coma!
Quando voltou a si, elevou a vista e notou que o chefe lhe oferecia o próprio sanduíche.
— Mas…
— Come, senhorita Almeida!
Constrangida, ela pegou o sanduíche com as mãos trêmulas. Meio sem graça, mordeu um pedaço generoso, depois outro e mais outro até devorar tudo.
— Obrigada… vou buscar outro pro senhor — sua voz desapareceu num sussurro.
— Não precisa! — A voz dele voltou a ficar fria. — Vou me atrasar para a reunião. Agora, saia!
Devagar, Júlia saiu dali. Lá no fundo, mas bem no fundo mesmo, havia um lado generoso naquele homem
O restante da tarde passou arrastado entre planilhas infinitas, chamadas em inglês e italiano, e o constante som dos sapatos de salto de Júlia pelo corredor executivo.
Ela estava exausta, com os pés latejando e a mente a mil por hora tentando absorver todas as demandas do novo cargo.
No entanto, o pior não era o volume de trabalho, mas a presença magnética e irritantemente constante de Bernardo Bellini através da parede de vidro fosco de sua sala.
Cada vez que ele abria a porta para pedir um documento ou dar uma nova ordem, o perfume amadeirado parecia invadir o ar, fazendo o estômago de Júlia embrulhar.
Por volta das sete da noite, o silêncio começou a tomar conta do andar executivo. A maioria dos funcionários já havia ido embora, restando apenas os murmúrios abafados da limpeza e a luz forte da luminária sobre a mesa de Júlia.
A porta da sala do CEO se abriu. Bernardo apareceu trajando apenas a camisa social com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes.
— Ainda aqui, senhorita Almeida? — ele perguntou com a voz rouca, apoiando o ombro no batente da porta e cruzando os braços.
Júlia ergueu o rosto, piscando para afastar o cansaço.
— Estou terminando o relatório de expansão da frota de trens de alta velocidade que o senhor exigiu para "ontem", senhor Bellini.
Bernardo deu um sorriso irônico, dando dois passos em direção à sua mesa. O olhar dele desceu brevemente para os papéis espalhados e depois voltou para o seu rosto, analisando as olheiras leves.
— Vejo que a eficiência compensa a impetuosidade da manhã. — Ele parou a poucos centímetros da mesa, inclinando-se levemente. — Mas o expediente acabou há vinte minutos. Não quero funcionários desmaiando de fome na minha antessala; isso pega mal pra a minha reputação.
— Eu sei cuidar de mim mesma, obrigada — ela retrucou, erguendo o queixo com empáfia, embora soubesse que seu estômago roncava desde o almoço.
— É o que vamos ver. — Bernardo pegou a chave do carro que estava sobre a própria mesa e jogou levemente no ar, pegando-a em seguida. — Vista seu casaco. Você vai jantar comigo.
Júlia travou, encarando-a com os olhos arregalados.
— O quê? Desculpe, mas não estou incluída no pacote de serviços noturnos da empresa. Minhas horas extras acabaram.
— Não foi um pedido, senhorita Almeida — o tom dele mudou, tornando-se grave, autoritário e irresistivelmente magnético.
Bernardo se aproximou ainda mais, a ponto de ela sentir o calor do corpo dele.
— Foi uma ordem do seu CEO. A menos que queira perder o emprego antes de completar vinte e quatro horas de contratação.
Júlia sentiu o sangue ferver de ódio e, ao mesmo tempo, uma onda de eletricidade percorreu sua espinha. Respirou fundo, fechando o laptop com força.
— O Senhor é um tirano mimado, sabia?
Bernardo riu baixo, um som rouco e genuíno que fez o coração de Júlia falhar uma batida.
— Eu prefiro o termo "Chefe exigente". Vamos, o carro está nos esperando lá embaixo. E nem ouse tentar fugir, ou amanhã, nem precisa voltar.
