Capítulo 8 8
Natália — Narrando
Eu ainda não conseguia acreditar naquela situação.
Olhei para a porta do quarto e depois para a cama onde eu estava.
Aquele homem realmente tinha me levado para a casa dele depois que eu desmaiei e, como se isso já não fosse absurdo o suficiente, ainda tinha soltado a frase mais descabida da noite.
"Mulher minha mora comigo."
Quem ele pensava que era?
Eu não tinha recebido pedido de namoro.
Muito menos pedido de casamento.
E o cidadão já estava distribuindo território como se eu fosse uma propriedade que ele tinha acabado de comprar.
— Só pode estar maluco.
Passei a mão pelo rosto.
Talvez fosse efeito daquela noite.
Ou talvez TK realmente fosse daquele jeito.
Pior ainda: eu tinha acabado de conhecê-lo.
Como alguém conseguia ser tão convencido?
Respirei fundo.
— Se ele é doido, eu sou duas vezes mais.
Só que havia um pequeno problema.
Um problema que eu preferia não admitir nem para mim mesma.
Aquele homem era maravilhoso.
O tipo de homem que fazia qualquer mulher esquecer por alguns segundos o que estava falando.
Eu imediatamente balancei a cabeça.
— Para, Natália.
Aquilo era loucura.
Eu não era daquele jeito.
Ou pelo menos gostava de acreditar que não.
Decidi tomar um banho.
Precisava esfriar a cabeça.
Entrei no banheiro e encontrei os produtos de TK organizados de maneira surpreendentemente impecável.
Peguei o shampoo.
O cheiro era muito bom.
— Até nisso esse homem tem bom gosto?
Lavei os cabelos demoradamente e aproveitei o banho para respirar um pouco.
Eu precisava organizar meus pensamentos.
Só que quanto mais tentava pensar, mais lembrava do jeito como ele tinha me olhado.
Da voz.
Da presença.
Do jeito como parecia ocupar todo o ambiente sem precisar fazer esforço.
Fechei os olhos.
— Você está ficando doida, Natália.
Terminei o banho, me sequei e vesti a roupa que havia pegado.
Quando abri a porta, encontrei TK sentado na cama.
Ele estava sério.
Muito sério.
A expressão fechada fez um arrepio percorrer minha pele.
Mas eu não daria esse gostinho a ele.
Caminhei até perto da cama.
— Está com fome?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Estou.
Ele me olhou.
— Quer comer o quê?
— Pizza.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— A essa hora?
— Sim.
— Você sempre pede comida nesse horário?
— Quando estou com fome, sim.
Ele soltou uma risada curta.
— Você é folgada.
— E você me prendeu aqui.
Cruzei os braços.
— Então se vira.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Não acha que está muito abusada?
Sorri.
— Eu?
Apontei para mim mesma.
— Não. Meu querido, você que precisa aceitar as consequências dos seus atos.
O olhar dele mudou.
Foi rápido.
Mas eu percebi.
Aquela expressão séria deu lugar a um pequeno sorriso.
Um sorriso perigoso.
Ele se levantou.
Meu coração acelerou.
— O que foi?
Ele não respondeu.
Apenas caminhou na minha direção.
Dei um passo para trás.
Ele continuou avançando.
Mais um passo.
Mais um.
Até que minhas costas encontraram o guarda-roupa.
— TK...
Ele parou diante de mim.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Eu conseguia sentir a tensão entre nós.
Aquela mesma tensão que havia começado no instante em que nossos olhos se encontraram no bar do meu avô.
Ele levantou a mão e segurou minha cintura.
Meu corpo ficou rígido.
Não de medo.
Era algo diferente.
Muito mais difícil de ignorar.
Ele se aproximou.
Senti a barba roçar de leve em meu rosto e prendi a respiração.
Então seus lábios tocaram os meus.
Foi um beijo inesperado.
Intenso.
Mas, conforme os segundos passavam, a tensão inicial diminuiu.
Eu deveria afastá-lo.
Deveria dizer alguma coisa.
Deveria lembrá-lo de que nós mal nos conhecíamos.
Mas, naquele momento, todas as respostas pareciam ter desaparecido.
Quando nos afastamos, ambos respirávamos mais rápido.
Fiquei alguns segundos olhando para ele.
— O que foi isso?
TK sustentou meu olhar.
— Eu queria fazer isso desde que te vi.
Meu coração acelerou novamente.
— Você nem me conhece.
— Ainda.
A resposta me deixou sem palavras.
Ele soltou minha cintura e deu um passo para trás.
— Você é minha.
Revirei os olhos imediatamente.
— Lá vem você de novo.
— A partir de hoje, você vai morar comigo.
— Nem pensar.
Ele me olhou como se aquilo fosse apenas uma pequena discussão.
— Então eu moro com você.
— Você é doido?
— Talvez.
— Eu tenho minha vida, TK.
— Eu sei.
— Tenho meu trabalho.
— Eu sei.
— Minhas amigas.
— Também sei.
— Minha casa.
Ele ficou em silêncio.
Aproximei-me um pouco.
— Então pare de agir como se pudesse simplesmente decidir tudo por mim.
Ele me encarou.
Por alguns segundos, pareceu que responderia.
Mas apenas se aproximou novamente e deixou um beijo rápido em meus lábios.
— Boa noite, Natália.
E saiu do quarto.
Fiquei parada.
Sozinha.
Completamente confusa.
— O que foi isso?
Olhei para a porta por onde ele havia acabado de sair.
Depois para a cama.
Depois novamente para a porta.
Aquele homem era impossível.
Primeiro me tirava de uma festa.
Depois me levava para a casa dele.
Dizia que eu era mulher dele.
E agora me beijava como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Ele realmente precisa de ajuda.
Sentei na cama.
Mas, apesar da irritação, um sorriso pequeno apareceu no meu rosto.
Droga.
Eu não queria admitir, mas tinha gostado daquele beijo.
Muito.
E isso era justamente o que tornava tudo mais complicado.
Eu não podia deixar uma atração decidir minha vida.
Eu tinha lutado muito para conquistar minha independência.
Não iria entregar tudo isso para um homem simplesmente porque ele era bonito, intenso e tinha um jeito capaz de bagunçar meus pensamentos.
Se TK achava que conseguiria mandar em mim, estava muito enganado.
Muito mesmo.
— Quer mandar?
Deitei na cama e cruzei os braços.
— Então vamos ver quem manda mais.
Eu sabia que provocar aquele homem provavelmente não era a decisão mais inteligente que poderia tomar.
Mas alguma coisa me dizia que, se ele queria uma disputa, eu não fugiria dela.
Só que havia uma diferença.
Eu não queria vencer TK.
Queria fazê-lo entender que eu não era alguém que precisava ser dominada.
Eu queria que ele descobrisse quem eu realmente era.
E, talvez, descobrir quem ele realmente era também.
Porque por trás daquele jeito arrogante, daquele olhar intenso e daquela necessidade absurda de controlar tudo, existia alguma coisa que eu ainda não conseguia compreender.
Ele tinha medo.
Eu percebia isso.
Talvez fosse medo de perder.
Talvez fosse medo de se apegar.
Talvez fosse algo do passado que eu ainda não conhecia.
E, apesar de tudo, eu queria descobrir.
Esse pensamento me assustou.
Eu tinha acabado de voltar para a minha cidade.
Tinha reconstruído minha vida.
Tinha uma carreira.
Minhas amigas.
Meu espaço.
E agora um homem que eu conhecia havia pouco mais de um dia já estava ocupando uma quantidade absurda dos meus pensamentos.
Isso definitivamente não era normal.
Virei para o lado e puxei o cobertor.
— Amanhã eu vou embora.
Parei.
Depois pensei melhor.
— Se ele deixar.
Bufei.
— Não. Eu não preciso que ele deixe.
Eu iria porque queria.
E ponto final.
Só que, antes de fechar os olhos, ouvi passos no corredor.
Meu coração acelerou.
A maçaneta se mexeu.
Fiquei olhando para a porta.
Ela não abriu.
Os passos se afastaram.
Respirei aliviada.
Mas, naquele instante, percebi que havia algo diferente acontecendo comigo.
Eu estava curiosa.
Curiosa para saber o que existia por trás daquele homem.
Curiosa para descobrir por que ele havia reagido daquela maneira ao me ver dançando.
Curiosa para entender por que um simples encontro tinha despertado nele uma possessividade tão intensa.
E, principalmente, curiosa para saber o que aconteceria quando ele descobrisse que eu não seria fácil de convencer.
Sorri sozinha.
— Boa sorte, TK.
Fechei os olhos.
— Você vai precisar.
Naquela noite, eu ainda acreditava que a maior dificuldade seria fazê-lo entender que não mandava em mim.
Eu só não sabia que, antes disso, descobriria que TK escondia muito mais do que um temperamento difícil.
E que o passado daquele homem estava prestes a entrar na minha vida de uma maneira que nenhum de nós poderia prever.
