Capítulo 3
Chamas negras se contorciam na ponta da espada de Draco, como uma víbora venenosa pronta para atacar e devorar a frágil vida de Lilia a qualquer segundo.
Eu me lancei, em desespero, contra Draco, tentando a todo custo envolver com os braços o pulso que empunhava a espada.
Mas eu estava morta. Eu não era nada além de um espectro incorpóreo. Minhas mãos fantasmagóricas atravessavam a carne dele, vezes sem conta, inofensivas, incapazes de agitar sequer a brisa mais tênue.
—Draco! Desconte em mim! Me mata! Não encosta nela! —eu gritei até ficar rouca, minha alma tremulando e se distorcendo violentamente de pura, agonizante fúria.
Ainda assim, ele não ouviu nada. Seus olhos de ouro escuro estavam inteiramente tomados por uma intenção fria e assassina.
—Dez. —Draco começou a contagem, a voz completamente desprovida de emoção.
—Nove. —A ponta da lâmina avançou um centímetro. O fogo negro começou a chamuscar os fios soltos presos à testa suada de Lilia.
A certa distância, Cecília estava com um lenço pressionado à boca, fingindo horror, como se não aguentasse assistir. Mas, do meu ponto de vista, eu vi o brilho inconfundível de um prazer sádico cintilar nos olhos dela.
Ela praticamente tinha fome da morte de Lilia. Queria o clã inteiro dos Elfos Astrais varrido da existência, para que não restasse ninguém capaz de desfazer sua teia de mentiras.
—Três.
—Dois.
—Um.
Uma onda violenta de decepção e selvageria atravessou o rosto de Draco.
—Eliana, você realmente é um monstro de sangue-frio. Se é assim, então pode rastejar até aqui para recolher o cadáver dela!
Impelida por uma onda de fogo negro aniquilador, a espada longa mergulhou sem misericórdia em direção ao coração de Lilia.
Lilia nem sequer tentou se esquivar. Naquele último instante, dividido entre a vida e a morte, ela reuniu cada resto de força que ainda lhe falhava e arremessou com violência a caixa de madeira surrada que vinha protegendo com ferocidade contra o peito... direto em Draco.
A caixa se estilhaçou em lascas no instante em que bateu na armadura pesada dele.
Não havia armas escondidas. Nem venenos letais. Nem pergaminhos mágicos devastadores.
O que rolou para fora da madeira destruída foi apenas um cristal cinzento e opaco, cheio de rachaduras profundas. Sua superfície estava grossamente incrustada de sangue seco e enegrecido, exalando uma aura nauseante e gelada de decomposição absoluta.
Draco conteve a lâmina por puro reflexo, as chamas negras rugindo e parando em seco a pouco mais de um centímetro do coração de Lilia.
Ele franziu o cenho, olhando fixo para o cristal cinzento junto às suas botas. Um lampejo de confusão genuína atravessou seus olhos.
— O que exatamente é isso? Achou que produzir um pedaço de lixo ia ganhar tempo? — Draco soltou um riso de escárnio. Ergueu a bota pesada, ferrada de ferro, preparando-se para reduzir o cristal a pó.
Lilia se atirou sobre ele como um animal feroz acuado, protegendo a cria moribunda, cobrindo completamente o cristal com o próprio corpo.
As mãos estendidas roçaram as chamas negras remanescentes na espada de Draco, queimando a pele até a carne ficar exposta, crua... mas ela agiu como se seus receptores de dor tivessem simplesmente se desligado.
Ela ergueu a cabeça. No rosto manchado de sujeira e sangue, desabrochou um sorriso tão quebrado e macabro que doía mais do que chorar. Os olhos, transbordando um desespero que vinha do osso e uma zombaria cortante, se fixaram direto no rosto de Draco.
— Não era a minha irmã que você estava procurando? — a voz de Lilia arranhou como lixa grossa. Cada sílaba, dolorosa, pingava sangue e luto, ecoando sem trégua pelo silêncio morto do Santuário.
— Você não exigiu o Sangue Estelar dela para salvar a sua preciosa queridinha?
— Você não disse que ela estava escondida aqui dentro por covardia, com medo demais de encarar você?
O cenho de Draco se aprofundou num olhar severo. Uma onda súbita e inexplicável de pavor frenético e irritação se retorceu no estômago dele. Ele rosnou, feroz:
— Chega de enigmas! Onde diabos está Eliana?!
Com as mãos tremendo violentamente, Lilia ergueu o cristal cinzento, marcado e danificado, bem alto. Gotas grandes de lágrimas, misturadas ao sangue do rosto, despencaram e espirraram na pedra opaca.
Puxando do fundo do fundo da própria força vital, ela gritou bem na cara de Draco — e para as centenas de Cavaleiros do Dragão Negro que assistiam —, despedaçando a mentira que apodrecia havia sete longos anos:
— Ela está bem aqui! Draco, abre esses seus malditos olhos e olha para ela! Essa casca ressecada, arrancada de cada última gota de magia... esta é a Eliana que você vem caçando há sete anos!
— Minha irmã não fugiu! Sete anos atrás, lá embaixo, nas suas Masmorras Abissais, você mesmo drenou ela até secar e deixou que sangrasse até a morte em agonia excruciante!
Naquele instante, o próprio ar do Santuário pareceu se solidificar.
Draco ficou paralisado onde estava. A mão que empunhava a espada enegrecida deu um tremor involuntário e violento, e as pupilas fendidas, de ouro escuro, se contraíram até virarem pontinhos.
O olhar dele se cravou no cristal estilhaçado nas palmas ensanguentadas de Lilia, e a respiração, de repente, ficou irregular e curta.
