Capítulo 1 Capítulo 1:4 meio-irmãos

Ponto de vista de Aria

A alça da mala cravou na minha palma enquanto eu a arrastava pela entrada da garagem. Meus braços doíam, mas eu me recusei a pedir ajuda. Não agora. Não quando tudo parecia tão errado.

— Aria, anda logo! — mamãe chamou, ao lado do carro preto e elegante. A voz dela tinha aquela ponta de empolgação que eu vinha ouvindo havia semanas.

Cerrei os dentes e puxei com mais força.

— Já vou!

O motorista finalmente teve pena de mim e colocou minha bagagem no porta-malas. Eu me larguei no banco de trás, encarando a janela enquanto nos afastávamos do nosso apartamentinho... o único lar que eu já tinha conhecido.

Mamãe se virou, com os olhos brilhando.

— Você não está animada, querida? Vamos morar na mansão dos Steel! Dá pra imaginar?

Não, não dá. E eu não quero.

Nem a mansão dos Steel podia mudar o fato de que eu era só uma Ômega sem lobo. A escola já era frustrante o bastante... três anos sendo invisível, vendo outros lobos se transformarem e correrem enquanto eu continuava dolorosamente, permanentemente humana.

E, ultimamente, meu corpo vinha agindo de um jeito estranho. Febre à noite, lençóis revirados e úmidos de suor. Inquieta, como se alguma coisa rastejasse sob a minha pele, exigindo sair. Os sonhos eram a pior parte... sonhos vívidos, ardentes, que me deixavam dolorida e vazia quando eu acordava, as coxas pressionadas uma contra a outra, tentando aliviar a pulsação insuportável entre elas.

Eu tinha pesquisado isso obsessivamente no celular às três da manhã: sintomas de cio precoce em Ômegas que florescem tarde. Os artigos diziam que podia acontecer, mesmo sem um lobo. Que meu corpo talvez estivesse se preparando para algo que minha mente não estava pronta para aceitar.

O momento não podia ser pior. Me mudar para uma casa cheia de Alfas... Alfas poderosos... enquanto meu corpo fazia... isso? Parecia entrar numa armadilha que a minha própria biologia tinha armado.

— Claro, mãe — murmurei, apertando as coxas quando outra onda de calor me atravessou. Aqui não. Agora não.

Ela estendeu a mão para trás e apertou a minha.

— Eu sei que isso é difícil, mas o Marcus é maravilhoso. Você vai ver. E os filhos dele...

— Os irmãos Steel — interrompi, com o estômago se revirando. — Sim, eu sei quem eles são.

Cole, Reed, Jasper e Kai Steel. Quatro irmãos Alfas que mandavam na nossa escola como reis. Populares, poderosos e completamente fora do meu alcance. Eu era só uma Ômega... pior, uma Ômega sem lobo. Invisível.

E essa invisibilidade tinha uma pequena misericórdia: me deixava admirar de longe, sem consequências.

Como eu sempre fazia na pista de hóquei. O cheiro cortante de gelo e suor, o som dos patins riscando a superfície congelada. Ele. Zane Parker, encostado na mureta depois do treino, o cabelo escuro úmido e bagunçado, a camisa colada nos ombros largos. O jeito como ele ria com os colegas de time, aquele sorriso devastador que fazia alguma coisa tremular perigosamente no meu peito.

Eu o observava havia dois anos. Estudava o jeito como ele se movia no gelo... gracioso e brutal ao mesmo tempo. Como aqueles olhos intensos se fixavam com precisão de laser durante um jogo. Eu tinha decorado a curva da mandíbula dele, o jeito como as mãos pareciam ao segurar o taco.

Patético, na verdade. Uma Ômega sem lobo, suspirando por um astro do hóquei que nem sabia que eu existia.

Mas, nos meus sonhos febris ultimamente, aquelas mãos agarravam outra coisa por completo. E aqueles olhos intensos queimavam nos meus com um calor que me fazia acordar ofegante, dolorida e envergonhada.

Por que ele olharia para mim? Eu não sou ninguém.

— Chegamos — anunciou o motorista.

Ergui o olhar, e o ar me faltou. A mansão dos Steel era enorme... toda de vidro e pedra modernos, com jardins perfeitamente aparados se estendendo em todas as direções.

— É linda, não é? — sussurrou a mamãe.

É apavorante.

Marcus Steel estava na entrada, alto e imponente em seu terno caro. Mas, quando sorriu para minha mãe, o rosto inteiro dele suavizou.

— Bem-vinda para casa — disse com carinho, puxando mamãe para os braços.

Ele se virou para mim, e eu me retessei. — Aria, estou muito feliz que você esteja aqui. Espero que você seja feliz conosco.

— Obrigada, senhor Steel — consegui dizer.

— Por favor, me chame de Marcus. — A voz dele era gentil, sincera.

Talvez isso não seja tão ruim.

Então eu os vi.

Cole, Reed e Jasper estavam na porta, com expressões frias e hostis.

Meu coração martelou contra as costelas. O calor explodiu pelo meu corpo como um fósforo riscado num quarto escuro... súbito, violento, avassalador. Minha pele formigou de consciência, cada terminação nervosa de repente viva e gritando. O cheiro deles me atingiu como uma força física: pinho e couro, fumaça e chuva, algo selvagem e masculino que fez meus joelhos ameaçarem ceder.

Meu Deus. Agora não. Por favor, agora não.

Meus mamilos se contraíram dolorosamente contra o sutiã, e eu cruzei os braços sobre o peito, tentando esconder a resposta traiçoeira. Entre as minhas pernas, uma dor funda e insistente floresceu... a mesma sensação inquieta e carente dos meus sonhos, só que cem vezes mais forte. Real. Eu sentia meu pulso latejando ali, sentia meu corpo se umedecendo, e a vergonha disso queimava quase tão quente quanto a própria excitação.

Quatro Alfas. Todos me encarando. E meu corpo reagindo como se eu tivesse passado a vida inteira faminta por eles.

Mordi a parte de dentro da bochecha com força suficiente para sentir gosto de cobre, usando a dor para me ancorar. Para pensar através da névoa de desejo que rapidamente nublava minha mente.

Cole, o mais velho, me olhou como se eu fosse sujeira no sapato dele. — Então é essa a Ômega que vai se mudar pra cá.

A voz dele... grave, autoritária... mandou outro arrepio pela minha coluna. Eu odiava que meu corpo respondesse à autoridade ali, odiava o jeito como minhas coxas se pressionaram uma contra a outra por instinto.

“Cole...” Marcus começou, mas Reed o interrompeu.

“Deixa eu adivinhar”, disse Reed, a voz pingando sarcasmo. “Caça-dotes, igualzinha à mãe?”

“Reed! Chega!” A voz de Marcus trovejou.

Mas Jasper não tinha terminado. Ele se aproximou, me rodeando como um predador. “Olha pra ela. Patética. Uma Ômega sem lobo. O que você viu na mãe dela, pai? Os cartões de crédito?”

Cada palavra era uma faca, mas outra coisa estava acontecendo. Um calor se acumulou no meu estômago enquanto eles ficavam perto de mim. Minha pele parecia apertada demais, quente demais. Meu pulso disparou por motivos que eu não entendia.

O que há de errado comigo?

“Eu não pedi por isso”, eu disse baixinho, com a voz tremendo. “Eu também não queria vir pra cá.”

“Ah, ela fala”, Cole zombou. “Que charme.”

“Meninos, para os seus quartos. Agora.” A ordem de Marcus não deixava espaço para discussão.

Eles foram, mas não antes de Reed se virar uma última vez. “Fica fora do nosso caminho, Ômega. Você não é bem-vinda aqui.”

A porta bateu atrás deles.

Mamãe correu até mim. “Aria, querida, me desculpa tanto. Eles vão acostumar, eu prometo.”

Mas eu mal a ouvi. Meu corpo inteiro tremia, confuso com a excitação estranha que eu sentia perto deles, misturada à ardência da crueldade.

Por que eu me sinto assim? Eles me odeiam.

Fui tomar banho. Fiquei debaixo do chuveiro até meus dedos enrugarem, tentando esfregar de mim a sensação do olhar de Reed. Não adiantou.

Enrolada numa toalha, o cabelo pingando manchas escuras no carpete felpudo, senti um fiapo de calma. Talvez eu pudesse só… me esconder aqui. Evitar eles.

A porta se abriu.

Eu congelei. Reed estava parado na entrada, claramente sem se dar ao trabalho de bater.

Ele tinha trocado de roupa: uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta justa que esticava sobre o peito.

Os olhos dele se cravaram em mim, e aquela carga tempestuosa voltou a invadir o ambiente, dez vezes mais forte.

“O que você está fazendo aqui?” eu guinchei, apertando a toalha com mais força contra o peito. “Sai.”

Ele não se mexeu. O olhar dele percorreu meu corpo, lento, deliberado… dos meus ombros úmidos, descendo pela curva que a toalha fazia sobre meus seios, até minhas pernas nuas. Aquele olhar já não era entediado. Era faminto. Predatório. O calor dentro de mim rugiu em resposta, uma pulsação traiçoeira que fez meus joelhos fraquejarem.

“Você não desiste, né?”, ele disse, com a voz baixa e áspera. Ele chutou a porta para fechar atrás de si. Clique. O som foi definitivo.

“Eu não estou fazendo nada! Eu só tomei banho! Por favor, vai embora.”

“Por favor”, ele zombou, dando um passo à frente. E depois outro.

O espaço entre nós evaporou. Eu conseguia sentir o calor irradiando do corpo dele. “Você fica aí, pingando, cheirando pra caralho a… pêssegos maduros e chuva… só de toalha. Na minha casa. E quer que eu acredite que isso não é um joguinho calculado de ômega?”

A mão dele disparou, não para me bater, mas para agarrar minha cintura por cima do tecido felpudo e grosso. Os dedos eram fortes, marcando. Um choque de sensação pura, elétrica, atravessou direto até o meu centro, e um tremor pequeno e impotente percorreu meu corpo. Eu ofeguei.

— Viu? — ele sussurrou, o rosto a poucos centímetros do meu.

O hálito dele era quente. Ele tinha um cheiro incrível. Minha cabeça girou. — Você está tremendo. Seu coraçãozinho está disparado. Eu sinto o seu tesão do outro lado do corredor. É nojento. Você é tão transparentemente óbvia pra caralho.

— Me solta — eu soprei, mas não havia força nenhuma nisso. Meu corpo se inclinava para o toque dele, buscando mais daquele calor chocante e delicioso.

— Nojenta — ele rosnou, mas o aperto se fechou ainda mais, puxando-me para ficar colada nele. Eu senti a pressão dura e inconfundível da ereção dele contra a parte baixa do meu ventre, através das camadas finas da toalha e do moletom. Uma pulsação aguda e carente respondeu entre as minhas pernas. Minha mente gritava em protesto, mas meu corpo arqueou por instinto.

Ele me olhou de cima, os olhos selvagens, divididos. Havia raiva ali, e repulsa, mas por baixo… uma fome ardente e incontrolável que espelhava a minha. — Eu não te suporto — ele rosnou, quase para si mesmo. — Eu não suporto isso… essa… essa atração.

Ele sacudiu a cabeça, como se tentasse clarear a mente, mas o aperto na minha cintura só aumentou. A outra mão subiu, os dedos se enroscando com aspereza no meu cabelo molhado, inclinando minha cabeça para trás. Não foi gentil. Foi possessivo, reivindicador, como se ele tivesse todo o direito de me tocar assim.

— Você… — Ele parou, cerrando o maxilar, como se as palavras o estrangulassem. Os olhos dele desceram para a minha boca, e eu vi as pupilas dilatarem, o preto engolindo a cor. — Porra.

O palavrão saiu gutural, arrancado de algum lugar profundo no peito dele. Então a boca dele caiu sobre a minha.

Não foi um beijo. Foi uma tomada. Uma invasão. Duro, desesperado, raivoso… como se ele estivesse me punindo por alguma coisa que eu não entendia. Os lábios dele eram firmes e exigentes, machucando, e quando a língua dele varreu para dentro da minha boca, eu nem consegui pensar em negá-lo. Nem quis.

O mundo se estreitou ao gosto dele… menta e alguma coisa selvagem e masculina… e à sensação do corpo duro dele contra o meu, macio, coberto pela toalha. Ele gemeu na minha boca, o som vibrando dentro de mim, primitivo e cru, e as mãos dele deslizaram pelas minhas costas com força suficiente para deixar marcas.

Uma palma agarrou minha bunda por cima da toalha, os dedos cravando com força bastante para marcar, puxando-me ainda mais contra o volume grosso da ereção dele. A outra se fechou ao redor do meu pescoço… sem apertar, só segurando, controlando, me lembrando de quem mandava.

Meu Deus, ele tem um gosto tão bom pra caralho. Errado. Isso é tão errado. Mas eu não consigo…

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