Capítulo 3 CAPÍTULO 3: Rejeição
Ponto de vista de Aria
Girei sobre os calcanhares. Kai Steel estava ao lado de uma motocicleta preta e elegante, o capacete na mão. Ele era o quarto irmão — mais quieto do que os outros, com o cabelo escuro caindo sobre os olhos e uma presença intensa, sombria, que fazia meu pulso acelerar por motivos que eu não queria analisar.
Ao contrário dos irmãos dele no café da manhã, ele não estava me encarando com hostilidade escancarada. Sua expressão era... neutra. Quase solidária.
Talvez ele seja diferente. Talvez nem todos eles me odeiem.
— Eu... — Minha voz saiu trêmula. — Eu não quero ser um problema.
— Você vai perder a primeira aula se ficar esperando o ônibus. — Ele estendeu um capacete reserva. — Anda. Eu não mordo.
O alívio me inundou com tanta força que minhas pernas quase cederam. — Obrigada. Sério, muito obrigada mesmo.
Peguei o capacete com as mãos tremendo e coloquei na cabeça, atrapalhada com a fivela. Kai me observou lutar por um instante antes de se inclinar para ajudar, os dedos roçando meu maxilar enquanto prendia a tira.
Aquele toque — quase nada — me atravessou como um choque. Minha respiração falhou. O cheiro dele me atingiu então: couro e algo mais escuro, esfumaçado e masculino. Diferente do de Reed, mas tão inebriante quanto.
Não. De novo não. Não com outro.
Mas meu corpo não obedecia. O calor se acumulou baixo no meu ventre, a mesma dorzinha de ontem à noite reacendendo. Meus mamilos endureceram contra o sutiã, e eu agradeci pelo moletom grosso escondendo a traição do meu corpo.
Os olhos de Kai encontraram os meus por só um segundo — escuros, indecifráveis — antes de ele se virar e montar na motocicleta.
— Sobe — ele disse, simples.
Eu me aproximei da moto, o coração martelando. Tão perto dele, o cheiro era avassalador. Eu sentia o calor irradiando do corpo dele mesmo através da jaqueta de couro. Quando subi atrás, acomodando-me no banco, cada terminação nervosa ganhou vida, alerta.
Onde eu ponho as mãos?
— Segura firme — disse Kai, a voz mais áspera do que antes.
Hesitante, apoiei as mãos na cintura dele e, mesmo através do couro, senti o músculo sólido por baixo. Minhas coxas pressionaram as dele, e aquela dor persistente entre minhas pernas se intensificou até virar algo quase doloroso.
Isso é tão errado. Ele é meu meio-irmão. Todos eles são.
Mas meu corpo não se importava com isso. Só se importava com a proximidade, o calor, a presença masculina sólida que fazia cada célula em mim gritar por mais.
Kai acelerou o motor — e, de repente, arrancou com a motocicleta.
Eu não estava pronta. Minhas mãos escorregaram da cintura dele e eu caí para trás, batendo com força na entrada da garagem. A dor explodiu no cóccix e subiu pela coluna. O capacete estalou contra o asfalto.
— O quê... — eu ofeguei, sem ar com o impacto.
Kai olhou para trás por cima do ombro, e a solidariedade tinha sumido. No lugar, havia um divertimento frio — a mesma expressão cruel que os irmãos dele usavam.
— Você achou mesmo que eu estava sendo legal? — Ele desligou o motor por um instante, só para que eu ouvisse com clareza. — Você é patética. Desesperada a ponto de subir atrás de qualquer cara que te dê um fiapo de atenção.
As lágrimas arderam nos meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair. — Você ofereceu...
— Eu sei o que eu fiz. — Ele ligou o motor de novo, aquele sorriso de deboche ainda nos lábios. — Considera isso uma lição, meia-irmã. A gente não é seu amigo. A gente não é sua família. E pode ter certeza de que a gente não vai te ajudar.
Ele arrancou com o carro, me deixando sentada no chão gelado, o corpo doendo nos lugares errados — roxa da queda, mas ainda queimando com aquela excitação vergonhosa por ter ficado tão perto dele.
Por que eles me odeiam tanto? E por que meu corpo ainda os quer mesmo depois disso?
Mancando, fui até o ponto de ônibus, meu orgulho tão machucado quanto o cóccix, e meu moletom não conseguindo esconder as lágrimas que finalmente escorreram pelas minhas bochechas.
— Aria! Meu Deus, você tá aí!
Maya agarrou meu braço no instante em que atravessei as portas da escola. A empolgação dela era contagiante, mesmo eu me sentindo com vontade de me enfiar num buraco.
— Maya, agora não—
— Agora sim! Isso é importante! — Ela me puxou para o lado, os olhos brilhando. — Eu ouvi uma coisa sobre o Zane Parker.
Meu coração deu um salto. — O quê?
— Ele gosta de garotas ousadas. Tipo, muito ousadas, que não têm medo de dizer o que querem. — Maya mexeu as sobrancelhas. — Pelo que dizem, ele curte garotas que conseguem acompanhar a… energia dele. Sabe o que eu quero dizer?
O calor subiu para o meu rosto. — Maya!
— Eu tô falando sério! Essa é a sua chance, Aria. Você é caidinha por ele desde sempre. Vai lá falar com ele!
Pensei na dor surda que ainda pulsava dentro de mim, na necessidade que não tinha ido embora nem depois da noite passada. Talvez a Maya tivesse razão. Talvez alguém como o Zane pudesse me ajudar.
Talvez ele pudesse fazer essa sensação sumir.
— Tá bom — eu me ouvi dizer. — Eu vou.
Na hora do almoço, eu tinha me preparado mentalmente umas cem vezes e amarelei noventa e nove. Mas a Maya continuou me empurrando para a frente até eu parar diante da mesa de sempre do Zane.
Ele estava sentado cercado pelo time de hóquei e por metade das líderes de torcida. Todo mundo olhou quando eu me aproximei.
Não pensa. Só faz.
— Zane — eu disse, minha voz mal passando de um sussurro.
Ele ergueu o olhar, aqueles olhos lindos encontrando os meus. — Fala.
Minha boca ficou seca. As pessoas encaravam. Eu sentia dezenas de olhares em cima de mim.
Ousada. Ele gosta de ousadia.
— Eu preciso falar com você — consegui dizer.
— Então fala. — Ele se recostou na cadeira, com um ar divertido.
Meu coração batia tão forte que eu achei que todo mundo conseguia ouvir. As palavras saíram atropeladas antes que eu pudesse impedir.
— Eu quero transar com você.
O refeitório ficou em silêncio.
As sobrancelhas do Zane se ergueram. — O quê?
Meu Deus. Meu Deus, o que foi que eu acabei de dizer?
Mas eu já tinha começado e não dava para parar agora. — Eu tô tão molhada e preciso de alguém como você comigo. Você tem experiência e eu pensei que talvez—
Zane começou a rir. Não foi uma risadinha, foi uma gargalhada alta, completa, que ecoou pelo refeitório.
— Pera, deixa eu ver se eu entendi — ele disse, alto o bastante para todo mundo ouvir. — Você — Aria-seja-lá-qual-for-seu-nome — quer transar comigo porque a sua buceta tá molhada?
A risada explodiu ao nosso redor. Meu rosto queimava.
— Eu não fico com Ômegas, querida — ele continuou, a voz pingando deboche. — Principalmente com as inexperientes que provavelmente nem sabem o que estão pedindo. Você é ousada, isso eu admito. Mas ousadia e desespero não são a mesma coisa.
— Ela falou isso mesmo? — alguém sussurrou atrás de mim.
— Dá pra acreditar?
— Que patética.
As risadas ficaram mais altas. Celulares apareceram, gravando minha humilhação.
— Valeu pelo entretenimento, viu — Zane gritou atrás de mim quando eu me virei para correr. — Foi a melhor risada que eu dei a semana inteira!
Eu corri pelo refeitório, passando por dedos apontados e sorrisos cruéis, saí para o corredor. A voz da Maya me chamou, mas eu não parei.
O que foi que eu fiz?
Eu nunca tinha me sentido tão pequena, tão idiota, tão completamente inútil.
