Capítulo 1

Katie

A batida veio às onze e meia em ponto, precisa e profissional. Acordei num sobressalto, a mão indo automaticamente até a faca que não ficava mais debaixo do meu travesseiro. Meu coração martelava, a adrenalina já inundando meu corpo.

— Senhorita Harrison. — A voz de Eileen do outro lado da porta. — O senhor Cartwright e a senhora Cartwright retornaram. O senhor Cartwright deseja vê-la no escritório do terceiro andar. Imediatamente.

Olhei para mim. Camiseta cinza, shorts de treino, pés descalços. Pelo visto, sem tempo de me trocar. — Me dê dois minutos.

— Ele está esperando agora, senhorita.

Claro que está. Calcei as botas sem nem me dar ao trabalho de amarrar, a mandíbula já travada. Uma armadilha. Ótimo. Ótimo pra caralho.

Segui Eileen escada acima até um escritório feito de madeira escura, couro e intimidação. William Cartwright estava sentado atrás de uma escrivaninha enorme. Meados dos quarenta, terno caro, um cabelo que provavelmente exigia uma equipe de estilistas. Victoria estava no sofá, de Chanel, uma taça de vinho na mão. Ela me olhou como se eu fosse algo que ela tivesse raspado da sola do sapato. Brandon estava ao lado dela e, quando me viu, algo presunçoso e satisfeito tremeluziu no rosto dele.

Ah. Então era, sim, uma armadilha.

— Ouvi dizer que houve um incidente no jantar. — A voz de William era fria, controlada. Voz de sala de reunião. — Você e Brandon trocaram palavras.

Eu estava com, no total, umas quatro horas de sono, exausta da viagem e do estresse, e com exatamente zero paciência pra essa merda. — Ele insultou minha mãe. Eu respondi. Só isso.

Victoria soltou um som entre uma risada e um desprezo. — Respondeu? Você me chamou de destruidora de lares na minha própria casa.

— Eu disse fatos. — Encarei os olhos dela, vi quando ela vacilou. — Ele veio pra cima de mim primeiro.

William bateu a mão na mesa com força suficiente para fazer a luminária pular. — Chega! Você está aqui há menos de vinte e quatro horas e já está causando problemas—

— Olha. — Interrompi, cansada e irritada demais para me importar com “boas maneiras”. — Se me chamaram aqui às onze e meia da noite só pra gritar comigo, dá pra fazer isso amanhã? Eu tenho que estar de pé às cinco pra treinar e estou com quatro horas de sono.

O silêncio que veio depois era do tipo que normalmente antecede violência. William se levantou devagar; o rosto fez uma coisa interessante, tentando se manter composto enquanto também expressava uma fúria absoluta.

— Você entende quem eu sou? — A voz dele baixou, virou algo perigoso. — Eu sou seu pai. Seu responsável legal. Você mora sob o meu teto, e vai me respeitar.

— Você é meu responsável legal. — Mantive a voz firme, embora minhas mãos estivessem cerradas em punhos ao lado do corpo. — É o que a lei diz. Fora isso... — Dei de ombros. — Tem mais alguma coisa? Porque eu realmente preciso dormir.

Victoria se levantou, o vinho chacoalhando na taça. — William, está vendo? É isso que acontece quando crianças são criadas por gente que não tem noção de comportamento adequado.

Algo quente e cortante explodiu no meu peito. — Você tem razão — eu disse, virando para encará-la. — Jack, meu avô, não me ensinou sobre comportamento adequado. Ele me ensinou a não destruir a família dos outros. Acho que nossas prioridades eram diferentes.

Brandon deu um passo à frente como se fosse vir para cima de mim, e uma parte de mim queria que ele viesse. Mas William ergueu uma mão.

— Todo mundo. Para. — Ele respirou fundo, visivelmente se recompondo. — Kate, vou dizer isso uma vez só. Você está aqui porque a lei exige. Eu vou sustentar você financeiramente, mas não espere tratamento especial. Suas despesas escolares estão cobertas, mas o seu sucesso é responsabilidade sua — não vou contratar tutores como faço para o Brandon. E, o mais importante, você não vai envergonhar esta família. Na escola, em público, em lugar nenhum. Entendeu?

— Cristalino. — Eu já estava me virando em direção à porta. — Posso ir agora?

— Pode. Saia.

Andei pelo corredor, com as mãos ainda cerradas, a mandíbula tão travada que doía. Na metade do caminho, ouvi a voz de Victoria, baixa e venenosa:

— Por que você trouxe ela pra cá, William? Ela devia ter ficado naquela fazenda, que é o lugar dela.

Ele não respondeu. Ou, se respondeu, eu já estava longe demais para ouvir e, sinceramente, eu não estava nem aí. Eu tinha entendido o recado alto e claro: eu não era bem-vinda, era no máximo tolerada, e o único motivo de eu estar ali era alguma exigência legal da qual ele não conseguia escapar.

Tudo bem. Dois anos. Eu sobreviveria a dois anos de qualquer coisa.

De volta ao meu quarto, sentei na beira da cama e pressionei as palmas das mãos contra os olhos, respirando devagar até o coração desacelerar. Não deixe que eles te atinjam. É isso que eles querem. Fica fria, fica estratégica, conclui a missão.


Meu alarme tocou às cinco em ponto. Vesti roupa de treino, ainda puta da vida por causa de ontem à noite, mas canalizando aquilo para algo útil. Fui para o quintal, atravessando a casa como um fantasma.

A piscina de borda infinita reluzia na luz antes do amanhecer. Encontrei um canto do gramado e comecei minha rotina, deixando os movimentos familiares acalmarem a raiva ainda borbulhando sob a minha pele.

Vinte minutos de meditação em pé. Corpo imóvel, respiração controlada, cada músculo ativado. Minhas pernas tremiam, mas era esse o objetivo — construir aquele tipo de força profunda que a maioria das pessoas nunca desenvolvia. Eu me concentrei na respiração, deixando todo o resto desaparecer. A raiva, a frustração, a vontade esmagadora de socar alguma coisa.

Aí o trabalho de verdade: cem flexões, duzentos agachamentos, cinquenta barras usando um galho de árvore. Vinte séries de tiros de corrida atravessando o gramado perfeito, as botas abrindo marcas no chão que provavelmente fariam alguém ter um ataque do coração. Ótimo. Por fim, trabalho técnico contra uma árvore — golpes, cotoveladas, joelhadas, cada um controlado e preciso, puxando a força no último segundo.

Sem exibicionismo, sem movimento desperdiçado. Só técnica eficiente e brutal. C.Q.C não era sobre parecer legal — era sobre acabar com ameaças o mais rápido e decisivamente possível. Um golpe, um alvo, um resultado.

Eu lavava o rosto na beira da piscina, deixando a água fria me dar um choque e me acordar de vez, quando percebi um movimento pelo canto do olho. Segundo andar, a janela do Brandon. A cortina se mexeu, só um pouquinho.

Ele estava observando.

Ergui o olhar para aquela janela por um longo momento, a água escorrendo pelo meu rosto, e deixei que ele me visse olhando. Então me virei e voltei para dentro, com a mandíbula firme. Deixa ele se perguntar. Deixa ele se preocupar. Esse merdinha não faz ideia com o que está mexendo.

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