Capítulo 2
Katie
Às seis e meia eu já tinha tomado banho e vestido o uniforme do Saint Claire, parada diante do espelho tentando entender como diabos alguém conseguia se mexer de saia. Puxei a barra, ajeitei o blazer, me sentindo completamente errada na própria pele. A roupa inteira era uma fantasia, uma mentira, fingindo ser alguém que eu não era.
Lá embaixo, Robert tinha preparado o café da manhã. Dois ovos, três fatias de bacon, duas torradas, suco de laranja. Olhei para as porções e senti o maxilar enrijecer. Talvez oitocentas calorias, no máximo. Eu tinha queimado o dobro disso só nesta manhã.
—Robert, eu poderia comer mais três ovos e mais cinco fatias de bacon? E mais duas torradas?
Ele piscou, então a expressão suavizou.
—Claro, senhorita Harrison. E, por favor... sobre ontem à noite com o senhor Brandon... ele pode ser muito difícil. Tente não levar para o lado pessoal.
—Não vou. Obrigada, Robert. Difícil. Certo. É um jeito de descrever um merdinha mimado que nunca ouviu um “não” na vida.
Comi metodicamente, abastecendo o corpo, já me preparando mentalmente para qualquer novo inferno que me esperasse no Saint Claire. Às seis e cinquenta eu estava na entrada, mochila pronta, esperando.
Seis e cinquenta e cinco veio e passou. Sete. Sete e dez.
Às sete e quinze, Eileen apareceu com uma expressão de genuíno desespero.
—Senhorita Harrison, sinto muitíssimo. Brandon teve treino de beisebol cedo e ele... ele pegou o carro.
Algo frio e cortante se instalou no meu peito. Apertei a alça da mochila com força.
—Ele sabia que eu tinha aula hoje. Primeiro dia.
—Sim. —Ela não conseguiu encarar meus olhos. —Ele disse que o treino dele era mais importante. Chamei outro carro, mas deve levar aproximadamente vinte minutos.
Vinte minutos. As aulas começavam às oito. Eu chegaria atrasada no meu primeiro dia e todo mundo saberia exatamente o motivo. Inspirei devagar pelo nariz, me obrigando a manter a calma.
—Chama o carro.
O carro chegou às sete e trinta e cinco. Quando encostamos no Saint Claire, já eram sete e cinquenta. Vinte minutos de atraso no meu maldito primeiro dia.
Perfeito. Simplesmente perfeito.
O Saint Claire parecia cenário de filme de terror gótico — tudo pedra cinzenta e arcos pontudos, hera subindo pelas paredes que provavelmente estavam de pé desde antes de meus avós nascerem. Mas, em vez de uma quadra de basquete no pátio central, havia um campo de beisebol oficial completo, perfeitamente cuidado, a grama tão verde que parecia artificial. Aparentemente, beisebol era uma puta coisa séria por aqui.
O campus estava quase vazio; o período de leitura já tinha começado. Desci com a mochila, tentando descobrir em qual prédio ficavam os alunos do segundo ano, quando, pelo canto do olho, vi algo que fez todo instinto de combate que eu tinha gritar um aviso.
Uma bola de beisebol, vindo rápido — talvez a cento e trinta por hora, pelo som cortando o ar — numa trajetória que ia acertar a parte de trás da cabeça de algum garoto em, no máximo, dois segundos.
Não pensei. Minha perna direita subiu, o pé acertou a bola no meio do voo com um estalo seco que ecoou pelo pátio. A bola mudou de direção, descreveu um arco por cima da cerca e voltou para o campo de onde tinha vindo.
Tudo durou talvez meio segundo. Reflexo puro, memória muscular tão profunda que eu não teria conseguido parar nem se quisesse; o tipo de reação que vem de anos de treinamento em que hesitar significava dor.
O garoto — alto, cabelo castanho bagunçado, o uniforme com cara de quem tinha acabado de sair da cama — ergueu a cabeça do celular num tranco e me encarou. Depois olhou para a bola. Depois voltou a me olhar, os olhos se arregalando de um jeito até cômico.
— Você acabou de… — Ele piscou rápido, como se estivesse tentando reiniciar a visão. — Você acabou de chutar aquela bola no ar? — Então ele sorriu, um sorriso enorme e encantado que transformou o rosto inteiro. — Puta merda, isso foi incrível! Eu sou Tyler. Tyler McCarthy. Todo mundo me chama de Ty.
— Kate Harrison. — Apoiei o pé no chão, ajeitei a saia de volta no lugar, ainda sentindo o impacto vibrar pela perna. Primeira vez usando saia e eu já tinha chutado alguma coisa. Ótimo. — Aquela bola ia acertar você.
— É, eu percebi. — Ele estava praticamente pulando de empolgação, como um filhote que acabou de descobrir um brinquedo novo favorito. — Mas o jeito que você se mexeu… aquilo foi insano! Você treina o quê? Algum tipo de arte marcial?
— Só reflexos. — Meu coração ainda martelava por causa do pico de adrenalina, meu corpo ainda em estado de alerta.
— Reflexos. Sei. — Ele riu, então a expressão mudou, olhando por cima do meu ombro na direção do campo. — Ah, cara. Ei, Winston! Sua bola saiu do campus!
Eu me virei e senti cada músculo do meu corpo entrar em prontidão. Cada instinto tático que eu tinha começou a gritar avisos.
O cara que vinha em direção à cerca devia ter uns um metro e oitenta, porte atlético de quem tinha treinamento sério, não só academia. Cabelo escuro, traços que seriam bonitos se não fosse a ausência total de calor nos olhos. Vestia o uniforme de beisebol de Saint Claire como uma segunda pele, o taco apoiado com casualidade no ombro, de um jeito que sugeria que ele sabia exatamente como usar aquilo.
O olhar dele passou por nós — Tyler, depois eu — com aquele tipo de avaliação desdenhosa que me fez cerrar a mandíbula. Frio. Desapegado. Como se a gente mal valesse o esforço de olhar.
— Foi mal — ele disse, a voz plana e completamente desinteressada. Nem diminuiu o passo; só apanhou a bola de onde tinha caído perto da linha da cerca e se virou de volta para o campo.
Só isso. Nenhum reconhecimento de que Tyler quase levou uma bola na cabeça e saiu com uma concussão. Nenhuma curiosidade sobre como a bola tinha voltado por cima da cerca. Só três segundos de atenção carregada de desprezo antes de nos descartar por completo.
Perigoso, alguma parte do meu cérebro forneceu imediatamente enquanto eu via ele se afastar, catalogando o jeito como ele se movia, o poder contido em cada passo. Predador. Muito cuidado, porra.
Tyler segurou minha manga, quebrando o transe.
— Tá, ignora ele. Esse é o Lucas Winston — capitão do time, queridinho da escola, no geral um ser humano assustador. Mas esquece ele — você é nova, né? Aluna transferida?
— Sou. — Eu me forcei a relaxar as mãos, a deixar a respiração se regular. — Segundo ano. Era pra eu estar na sala de tutoria do senhor Smith, mas não faço a menor ideia de onde fica.
