Capítulo 3

Katie

O rosto de Tyler se iluminou como se eu tivesse acabado de oferecer ingressos grátis para alguma coisa incrível. “É a minha turma! Vem, eu te mostro. Mas já aviso: eu tô em último lugar na nossa sala. Há dois anos seguidos.” Ele disse isso com orgulho de verdade, como se fosse uma conquista.

“Isso é até meio impressionante.” Acompanhei o passo dele, ainda sentindo a adrenalina zumbindo sob a pele. “Consistência é tudo.”

“Né? É o que eu vivo dizendo pro pessoal.” Ele começou a caminhar em direção ao prédio principal, falando por cima do ombro. “Mas falando sério, você precisa pensar em beisebol. O time de Saint Claire é lendário — todo ano a gente manda jogadores pra faculdades da Ivy League com bolsa esportiva. Bolsa integral, admissão antecipada, o pacote completo.”

Alguma coisa no meu peito se apertou. Esperança, talvez, ou desespero, ou uma mistura dos dois que eu não queria analisar de perto demais. “Bolsa esportiva? Tipo, pra faculdade?”

“Sim! Se você for boa o bastante, as escolas literalmente te recrutam. Harvard, Yale, Princeton — todas têm programas de beisebol e adoram jogadores de Saint Claire.” Ele olhou por cima do ombro, curioso. “Por quê, você tá interessada nesse tipo de coisa?”

Pensei nas palavras do Jack ao telefone ontem. Encontre outro jeito. Use o que você tem. Pensei nas aulas de AP que eu tinha visto no programa, no abismo enorme entre a minha educação e a deles, na certeza de que eu nunca passaria naquelas matérias só por mérito acadêmico.

“Talvez,” eu disse com cuidado, tentando manter o desespero fora da minha voz. “Mas eu não sei nada de beisebol.”

Tyler sorriu. “Sorte a sua que eu sei tudo de beisebol. Quer dizer, eu sou péssimo pra jogar de verdade — daí esse negócio de último lugar — mas eu posso te ensinar as regras, a estratégia, tudo.” Ele empurrou uma porta pesada de madeira que devia pesar uns cem quilos. “E, sinceramente, depois do que eu acabei de ver? Você podia ser incrível nisso. Esse tempo de reação, essa força explosiva — os treinadores matariam pra ter uma atleta com as suas habilidades naturais.”

Atravessamos arcadas góticas e Tyler continuou falando, explicando o jogo, as posições, a estrutura da temporada. Eu ouvi com atenção, guardando cada pedaço de informação, minha mente já trabalhando em ângulos e possibilidades.

Talvez fosse isso. Talvez fosse o jeito de que Jack estava falando — a coisa que eu podia usar e que não exigia que eu virasse um gênio de uma hora pra outra. Meu corpo, meus reflexos, minha capacidade de ler situações e reagir mais rápido do que as pessoas normais achavam possível.

Se o beisebol podia me levar pra uma faculdade, se podia ser meu bilhete pra sair daquela casa e entrar num futuro de verdade...

Sim. Eu podia lidar com isso. Eu faria dar certo, custasse o que custasse.

“Então, onde você tá ficando?” Tyler perguntou enquanto subíamos uma escada em espiral que parecia pertencer a um castelo. “Sua família acabou de se mudar pra Sterling Point?”

“Não, eu...” Hesitei, depois achei que ele acabaria descobrindo de qualquer jeito. Escola pequena, filhos de gente rica, todo mundo provavelmente sabia da vida de todo mundo. “Eu tô ficando com o meu pai. William Cartwright.”

Tyler parou tão de repente que eu quase esbarrei nele. Ele se virou devagar, com os olhos arregalados. “Pera. Você é uma Cartwright? Tipo, a irmã do Brandon Cartwright?”

“Meia-irmã.” A distinção importava, nem que fosse só pra mim. “Mães diferentes.”

“Caramba.” A expressão de Tyler mudou para algo entre simpatia e preocupação. “Tá... então, o Brandon é meio notório por aqui. Ele é calouro, mas age como se fosse dono do lugar porque a família dele é podre de rica e o pai dele tá no conselho. E ele também é obcecado pelo Lucas — tipo, obcecado de um jeito esquisito. Tem pôsteres no quarto, coleciona lembranças autografadas, tudo isso.”

Ótimo. Meu meio-irmão era um riquinho mimado com uma quedinha de celebridade pelo capitão assustador do time. Aquilo só ficava melhor.

— Eu conheci ele ontem — eu disse, mantendo a voz neutra. — Ele parece... confiante.

Tyler soltou um resmungo debochado.

— Essa é uma palavra pra isso. Mas espera aí, você chegou ontem? Tipo, acabou de se mudar mesmo?

— Sim. — Passei a mão pelo rosto, de repente exausta. A lembrança de ontem caiu sobre mim como uma onda — o quarto de hóspedes branco e estéril, as fotos de família que não me incluíam, a cortesia profissional de Eileen que não conseguia esconder totalmente o desconforto.

A propriedade dos Cartwright parecia algo saído de uma revista que eu nunca tinha lido. Dois acres de gramado perfeito, um cubo branco de quatro andares, janelas do chão ao teto por toda parte. A piscina de borda infinita nos fundos gritando “temos dinheiro e precisamos que você saiba disso”.

Eu tinha descido do carro executivo com minha bolsa de lona — a mesma desde os doze anos, remendada com fita adesiva em três lugares — e senti o maxilar travar. Minhas botas de trabalho ecoaram no mármore italiano como tiros. Cada passo praticamente berrando que eu não pertencia àquele lugar.

— Deve ter sido um primeiro dia e tanto — disse Tyler, com a voz mais gentil agora.

— Pode-se dizer isso. — Pensei nas cinco tigelas de arroz, no olhar de desprezo de Brandon quando me chamou de porca, na simpatia silenciosa de Robert. — Brandon e eu jantamos juntos. Foi tão bem quanto dá pra imaginar.

Ele tinha ficado de pé sobre mim à mesa, usando a altura pra intimidar, inclinando-se perto o suficiente para eu sentir o perfume caro dele. “Escuta aqui, garota da roça. A partir de amanhã, você é aluna de Saint Claire. Aquelas garotas são da elite — elas se importam com aparência, elegância. Se você envergonhar o nome Cartwright, vai se arrepender.”

Minha mão se apertou no garfo. “Dá pra eu terminar meu jantar?”

O rosto dele ficou vermelho e, por um segundo, achei que ele fosse mesmo tentar alguma coisa física. Uma parte de mim quase quis que tentasse. Mas, em vez disso, a voz dele desceu para algo mais feio.

“Sua mãe era só uma zé-ninguém do mato que armou pro meu pai e depois teve a decência de morrer. Você aparecer aqui é como ela de novo — você não pertence, e nunca vai pertencer.”

Meu maxilar se contraiu com a lembrança. Tyler me observava com cuidado, como se conseguisse ver a raiva fervendo por baixo da minha pele.

— Ele falou alguma merda? — perguntou Tyler.

— Ele tinha opiniões sobre a minha mãe. — Minha voz saiu chapada, controlada. — Eu tinha opiniões sobre a dele.

Tyler fez uma careta.

— Caramba. A Victoria vai te adorar.

— Nós já nos conhecemos. — Pensei no escritório às onze e meia da noite, na fúria gelada de William e no desprezo embebido em vinho de Victoria. — Ela chamou meu avô — o homem que me criou — de alguém “sem nenhum entendimento de comportamento apropriado”.

Eu me virei para olhar pra ela, exausta, irritada e de saco cheio de tudo. “Você tem razão. O Jack não me ensinou sobre comportamento apropriado. Ele me ensinou a não destruir a família dos outros. Acho que nossas prioridades eram diferentes.”

O silêncio que veio depois foi do tipo que costuma anteceder violência. William se levantou devagar, o rosto fazendo aquela coisa curiosa de tentar se manter composto e, ao mesmo tempo, expressar uma fúria absoluta.

“Você entende quem eu sou?” A voz dele desceu para algo perigoso. “Eu sou seu pai. Seu responsável legal. Você vive sob o meu teto e vai me respeitar.”

“Você é meu responsável legal.” Eu mantive a voz firme, mesmo com as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo. “É isso que a lei diz. Além disso...” Eu dei de ombros. “Tem mais alguma coisa? Porque eu realmente preciso dormir.”

— Jesus — murmurou Tyler. — Você foi direto na jugular, hein?

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