Capítulo 4

Katie

—Ela que começou. — Dei de ombros, tentando afastar a lembrança. — O William deixou bem claro que eu só estou lá porque a lei exige. Ele vai bancar as coisas, mas o resto é por minha conta — nada de tutores, nada de tratamento especial, e é melhor eu não envergonhar o nome da família.

—Que frieza. — A expressão do Tyler ficou genuinamente solidária. — Meus pais também são meio desastre, mas pelo menos fingem que se importam.

Chegamos ao segundo andar, e Tyler me conduziu por um corredor ladeado de pinturas a óleo de pessoas de semblante severo que provavelmente eram doadores mortos. — Então, hoje de manhã… o lance do carro. Foi o Brandon?

—Foi. — Senti a raiva se acender de novo, quente e afiada. — Ele sabia que eu tinha aula. Primeiro dia. Mesmo assim, pegou o carro pra ir ao treino de beisebol.

—Claro que pegou. — Tyler balançou a cabeça. — Ele faz esse tipo de merda o tempo todo. No ano passado, conseguiu que suspendessem três calouros diferentes porque “desrespeitaram” ele. O pai dele tá no conselho, então a escola nunca faz nada a respeito.

Ótimo. Então meu meio-irmão não era só um mimado, como também, ao que tudo indicava, intocável. Esses dois anos iam ser uma maravilha.

—O Lucas — o cara assustador que você acabou de conhecer — é o capitão do time e o arremessador estrela — Tyler continuou enquanto andávamos. — Dezessete anos, um dos melhores arremessadores do ensino médio do estado inteiro. Já tem oferta de bolsa integral de umas seis Ivy League. E ainda é o primeiro colocado da nossa turma, o que é simplesmente injusto. E a família dele é a família Winston — sabe, o império financeiro que basicamente manda na Costa Leste.

—Parece um verdadeiro príncipe — comentei, seca, lembrando aqueles olhos frios, o jeito como ele tinha nos descartado como se a gente não merecesse nem ser notado.

—Ah, ele não é. Na verdade, ele é meio apavorante se você ficar do lado ruim dele. Mas é o seguinte: ele também é meu melhor amigo. Desde que a gente era criança. — Tyler olhou para mim, a expressão de repente séria. — E eu tenho que te avisar: o Lucas não costuma encarar as pessoas do jeito que ele acabou de encarar você. Ele tá interessado, e isso pode ser bom… ou pode ser muito, muito ruim.

Ótimo. O garoto rico e perigoso estava interessado em mim. Era exatamente o que eu precisava, por cima de todo o resto. Passei a mão pelo rosto, já me sentindo exausta, e o dia mal tinha começado.

Chegamos a uma sala de aula. Uns trinta alunos já estavam sentados, o professor à frente com cara de cansado e vagamente irritado.

Tyler bateu de leve no batente. — Sr. Smith, esta é a Kate Harrison, a nova aluna transferida. A administração mandou trazer ela direto pra sala de tutoria.

O Sr. Smith ergueu os olhos das anotações de Cálculo AP, ajustando os óculos. — Bem-vinda à Saint Claire, srta. Harrison. Sente-se em qualquer lugar vago no fundo. McCarthy, este é seu terceiro atraso nesta semana.

—Eu sei, senhor, mas eu estava ajudando a Kate a encontrar a sala e também quase fui morto por uma bola de beisebol, e a Kate literalmente salvou a minha vida com um chute voador incrível que—

A turma caiu na gargalhada. Alguém gritou:

—O McCarthy tá inventando história de novo!

—Chega. —O senhor Smith apontou para o fundo. —Sentem-se. Os dois.

Fui até a última fileira, bem ciente de todo mundo me olhando, me avaliando, me encaixando em alguma hierarquia social que existia ali. Mantive o rosto neutro, os ombros para trás, me recusando a parecer intimidado, mesmo com o estômago se revirando de nervoso.

Me enfiei numa cadeira ao lado do Tyler. Aí reparei em quem mais estava na última fila.

Lucas Winston, com fones com cancelamento de ruído, um iPad apoiado na carteira mostrando o que parecia ser uma série da Netflix. Ele nem fingia prestar atenção; só estava ali, assistindo TV no meio da aula como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Quando eu me sentei, os olhos dele desviaram para mim. Ele tirou um lado dos fones, e a boca se curvou numa coisa que não era bem um sorriso. Sustentou meu olhar por exatos dois segundos — tempo suficiente para ser de propósito, curto o bastante para manter a negação plausível — e então voltou para a série.

Um arrepio desceu pela minha coluna. Minhas mãos se fecharam na borda da carteira. Ele com certeza tinha visto o que aconteceu no pátio. E, por algum motivo, aquilo interessou a ele.

Cuidado, sussurraram meus instintos. Esse aí gosta de jogar e você ainda não conhece as regras. Não dá nada pra ele usar contra você.

O senhor Smith escrevia equações no quadro.

—Como discutimos ontem, se f(x) tem uma derivada f'(x)=3x²-6x+2, quais são os pontos críticos da função original?

Encarei os símbolos e senti o estômago despencar. Eu nunca tinha visto nada parecido na vida. Em Montana, a gente mal tinha terminado a álgebra básica antes de eu parar de ir à escola com regularidade para ajudar na fazenda. Aquilo era matemática de nível universitário, e todo mundo ao meu redor anotava como se fosse normal, como se tivesse se preparado para aquilo a vida inteira.

Eu estava tão atrasado que nem dava para enxergar a linha de largada. Minha garganta apertou.

Merda. Isso era ruim. Muito, muito ruim.

Tyler se inclinou e sussurrou:

—Relaxa. A última fileira é onde sentam todos os desastres acadêmicos. Desde que a gente não reprove feio, tá tudo certo.

—Qual é a nota pra passar? —sussurrei de volta, apertando a caneta com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos.

—Sessenta por cento. Mas o Smith geralmente dá uns pontinhos de pena no fim do semestre.

Sessenta por cento. Olhei as equações no quadro e fiz as contas. Se eu desse sorte — se eu estudasse todos os dias e, de algum jeito, conseguisse absorver anos de estudo perdido em poucos meses — talvez eu conseguisse arrancar uns trinta por cento. Talvez.

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