Capítulo 5

Katie

O sino da manhã tocou e eu já estava fora da cadeira antes de o Sr. Smith terminar a frase sobre o dever de casa de amanhã. Tyler veio atrás de mim, atrapalhado, enquanto eu ia direto para o refeitório, com o estômago roncando alto o bastante para eu ter quase certeza de que dava para ouvir no corredor ao lado.

— Ei, calma — Tyler disse, trotando para acompanhar meu ritmo. — Você vai acabar torcendo o pescoço desse jeito.

— Eu preciso comer. — Minha voz saiu reta. — Agora.

O refeitório era um espaço gótico enorme, com teto abobadado e janelas altas que deixavam entrar uma luz fria de outono. Os alunos já estavam entrando aos montes, formando filas nas estações de serviço. O cheiro de comida quente me atingiu e minha boca salivou tanto que chegou a doer.

Eu fui na direção da fila mais próxima e foi então que vi. Todo santo aluno na minha frente tirava um cartãozinho de plástico, passava no leitor do caixa. Bip. Bip. Bip. Um atrás do outro, como algum tipo de ritual que ninguém tinha me ensinado.

Meu estômago afundou.

Eu não tinha cartão de refeição. Claro que eu não tinha cartão de refeição. Ninguém tinha mencionado nada sobre cartão de refeição quando me arrancaram de Montana e me trouxeram para cá. Lá na fazenda, comida simplesmente existia — você caçava, plantava, ou o Jack buscava na loja de suprimentos da cidade uma vez por mês. A ideia de que eu precisava de um pedaço de plástico especial só para almoçar parecia absurdamente, impossivelmente complicada.

Saí da fila, com o rosto queimando. À minha volta, os alunos riam e conversavam, completamente alheios ao fato de que eu estava ali, morrendo de fome, porque não sabia como funcionava o sistema idiota deles.

— Kate? — Tyler apareceu ao meu lado. — Você tá bem? Você tá meio…

— Eu não tenho cartão de refeição. — As palavras saíram baixas, quase um sussurro. Eu odiei o quão pequena a minha voz soou.

O rosto de Tyler se iluminou.

— Ah! Sem problema, eu te cubro. Vem.

Ele pegou na minha manga e me puxou de volta para a fila. Eu quis discutir, quis dizer que eu mesma podia dar um jeito, mas meu estômago estava se devorando e orgulho não ia encher ele.

Chegamos à estação de serviço e eu encarei as opções. Peito de frango grelhado. Bife. Legumes frescos. Três tipos diferentes de salada. Macarrão. Arroz. Minhas mãos começaram a tremer de leve. Quando tinha sido a última vez que eu comera? Café da manhã às cinco da manhã, antes do meu treino. Oito horas atrás.

— O que você quer? — Tyler perguntou, já tirando o cartão.

Eu fiz as contas na cabeça. Muita proteína, muito carboidrato. O suficiente para aguentar o resto do dia sem apagar.

— Duas porções de arroz. O frango. Aquele bife. E a salada de legumes.

A funcionária do refeitório arqueou as sobrancelhas, mas começou a encher minha bandeja. Os olhos de Tyler se arregalaram conforme a comida se empilhava cada vez mais.

— Caramba. Você não tava brincando sobre o apetite.

— Eu queimo calorias rápido. — Eu observei ela colocar uma terceira colherada de arroz e senti alguma coisa no meu peito soltar um pouco. — Eu te pago depois.

— Nem esquenta. — Tyler passou o cartão e o leitor apitou. — Considera um presente de boas-vindas.

A gratidão me atingiu com tanta força que eu precisei desviar o olhar por um segundo. Esse garoto mal me conhecia e estava simplesmente… ajudando. Sem cobrança, sem sermão sobre como eu devia ser grata — só gentileza direta. Isso apertou a minha garganta.

— Obrigada — consegui dizer.

Peguei minha bandeja e comecei a procurar um lugar para sentar. O refeitório estava enchendo rápido, os alunos se juntando em mesas em grupos claramente definidos. Os atletas perto das janelas. O pessoal do debate no canto. O que pareciam ser os do teatro perto do palco. Eu ainda estava tentando entender onde pessoas como eu deveriam ficar quando alguém trombou em mim por trás, com força.

O impacto foi forte e deliberado. Eu senti nos ombros, no jeito como a força veio num ângulo calculado para me tirar do equilíbrio. Minha bandeja inclinou e eu tive talvez meio segundo para reagir. Tentei compensar, mudando o peso do corpo, mas a física venceu. A bandeja virou, e tudo — arroz, frango, bife, legumes — voou antes de despencar em cima do meu uniforme.

Molho quente encharcou minha camisa branca. Arroz se espalhou pela minha saia. Um pedaço de bife acertou o chão com um tapa molhado que ecoou no silêncio repentino.

Porque o refeitório ficou absolutamente quieto. Aquele silêncio horrível, de expectativa, em que todo mundo sabe que alguma coisa está prestes a acontecer e fica olhando para ver o que é.

Olhei para o meu uniforme arruinado. Senti a comida escorrendo pelo meu peito, entrando pelo colarinho, quente e nojenta. E alguma coisa fria se assentou no meu estômago, cristalina e afiada. Eu conhecia aquele impacto. O ângulo. A força. O momento.

Aquilo não foi um acidente.

Eu me virei devagar.

Brandon estava ali com dois colegas do time, os três com sorrisos iguais, de deboche. Ele tinha uma mão tapando a boca numa surpresa fingida, mas os olhos brilhavam com um prazer maldoso.

— Ops — ele disse, sem nem tentar soar sincero. — Foi mal, não te vi aí.

Celulares surgiram ao nosso redor. Alunos tirando os aparelhos do bolso, buscando o melhor ângulo. Aquilo ia estar em todas as redes sociais em trinta segundos. A garota nova, coberta de comida, humilhada em público no primeiro dia.

Minha visão se estreitou. O barulho do refeitório se dissolveu num chiado branco. Cada músculo do meu corpo ficou rígido, encolhido, pronto para saltar. Eu sentia meu coração na garganta, nas têmporas, atrás dos olhos. A vontade de agarrar Brandon por aquela cara convencida e esmagá-la na mesa mais próxima era tão forte que minhas mãos estavam tremendo.

Não. A voz de Jack cortou a névoa vermelha, calma e firme. A coisa mais idiota que você pode fazer num campo de batalha é andar direto para uma emboscada e provar que seu inimigo estava certo sobre você.

Respirei. Depois respirei de novo. A visão em túnel começou a se desfazer.

Brandon queria que eu surtasse. Queria que eu batesse nele, que eu gritasse, que eu desse a ele e à família dele munição para me pintarem como a caipira violenta, o lixo de fazenda que não pertencia ali. Se eu reagisse do jeito que meu corpo estava berrando para eu reagir, eu estaria provando cada coisa horrível que eles pensavam de mim.

Então eu não reagi.

Olhei para Brandon — para as roupas caras, o cabelo perfeito e os amigos já rindo — e deixei meu rosto ficar em branco. Neutro. Como se fosse um inconveniente leve, mas não merecesse minha energia.

— Tudo bem — eu disse. Minha voz saiu plana e controlada. — Acontece.

Me virei na direção dos banheiros. Tyler segurou meu braço, o rosto vermelho de raiva.

— Kate, ele fez isso de propósito, você não pode simplesmente—

Balancei a cabeça uma vez. Seco. Ele se calou.

Mas Brandon não tinha terminado. Ele deu um passo à minha frente, bloqueando meu caminho. Os dois colegas se moveram para ficar ao lado dele. Ao nosso redor, mais celulares apareceram. A roda estava crescendo, alunos se apertando para chegar mais perto.

— Sabe o que é engraçado? — Brandon disse, alto o bastante para todo mundo ouvir. — Garotas da fazenda são mesmo diferentes. Nem conseguem segurar uma bandeja sem fazer sujeira.

Uma risada percorreu a multidão. Cada risada parecia um corte pequeno, feito para me sangrar aos poucos. Eu travei a mandíbula com tanta força que meus dentes doeram.

— Sai — eu disse, baixinho.

Brandon se inclinou, perto o suficiente para só eu ouvir. A voz desceu para um sussurro venenoso. — Você não é nada além de lixo de fazenda. Você não pertence aqui. Você é uma vergonha pra nossa família, e todo mundo nesta sala sabe disso. Você devia ter ficado naquele cu de mundo imundo de onde você rastejou.

Minha mão se mexeu antes de meu cérebro acompanhar.

O tapa estalou na bochecha esquerda dele com um som de tiro. Seco, limpo, absurdamente alto no silêncio repentino.

A cabeça de Brandon virou de lado. Os amigos dele congelaram. O refeitório inteiro ficou mudo.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo