Capítulo 6
Katie
Vi a bochecha dele ficar vermelha, a marca perfeita da minha palma já visível, e não senti absolutamente nada. Nenhuma satisfação. Nenhuma culpa. Nenhum medo. Só uma clareza fria, cristalina, que dizia: Ele passou dos limites e agora sabe disso.
Brandon se virou para mim devagar, com uma mão pressionada contra o rosto. Os olhos dele estavam arregalados de choque, como se não conseguisse processar o que tinha acabado de acontecer. A boca se abriu, mas não saiu nada.
— Diga mais uma palavra — eu disse, com a voz firme e gelada como o Ártico — e a próxima vai ser mais forte.
Ele deu um passo para trás. Deu mesmo. O corpo dele se moveu por puro instinto, porque o cérebro registrou que eu era perigosa de um jeito que ele não tinha previsto.
— Senhorita Harrison! — A voz de um professor cortou o silêncio. O Sr. Smith abriu caminho no meio da multidão, o rosto vermelho. Bastou olhar para a bochecha inchando de Brandon para a expressão dele explodir. — Quem fez isso?
Os colegas de time de Brandon apontaram para mim em uníssono.
— Ela! Ela bateu nele do nada!
— Isso é mentira pra caralho! — Tyler empurrou a frente. — O Brandon derrubou a bandeja dela de propósito—
— Eu não quero saber o que aconteceu antes. — O Sr. Smith agarrou meu braço, com força suficiente para doer. — Harrison, você vem comigo. Violência física não é tolerada de jeito nenhum em Saint Claire.
Eu não resisti. Só deixei que ele me puxasse, bem ciente de todos os celulares ainda apontados para nós, de cada aluno assistindo. A marca vermelha no rosto de Brandon estava escurecendo. Ia ficar roxo.
Ótimo.
A multidão começou a se abrir quando alguém falou do fundo do refeitório.
— Sr. Smith.
A voz era baixa, mas cortou o barulho como uma faca. Todo mundo se virou.
Lucas caminhou na nossa direção com as mãos nos bolsos, expressão tranquila e completamente indiferente. A multidão se afastou dele automaticamente, os alunos se atropelando para sair do caminho. Quando Brandon o viu, algo complicado atravessou o rosto dele — adoração e medo, tudo misturado.
Lucas parou diante do Sr. Smith.
— O senhor está lidando com um caso de agressão?
— Isso não diz respeito a você, Winston—
— Eu sou testemunha. — A voz de Lucas continuou agradável, mas havia algo nela que fez a boca do Sr. Smith se fechar na hora. — Eu vi o incidente inteiro. Cartwright derrubou deliberadamente a bandeja da senhorita Harrison das mãos dela. Ela tentou ir embora e ele bloqueou o caminho dela enquanto a assediava verbalmente. A reação dela foi legítima defesa.
O rosto do Sr. Smith passou por várias cores.
— Mesmo assim, ela agrediu outro aluno—
— Depois de uma provocação contínua. — Lucas olhou para a multidão, para todos os celulares ainda gravando. — Sugiro que todos apaguem esses vídeos. Isto é um assunto particular entre dois alunos. Não precisa virar entretenimento de rede social.
Não era uma sugestão. Era uma ordem.
Os celulares começaram a sumir. Os alunos se olharam, nervosos, e começaram a tocar nas telas. Em trinta segundos, todos os vídeos tinham desaparecido.
Lucas voltou a encarar o Sr. Smith.
— Vou dar meu depoimento ao diretor Morrison. Quer que eu acompanhe a senhorita Harrison até lá pessoalmente?
O Sr. Smith parecia querer discutir, mas estava em desvantagem e sabia disso.
— Vou levar o Cartwright à enfermaria. Você resolve com o Morrison.
Ele agarrou o braço de Brandon e começou a arrastá-lo para longe. Brandon olhou para mim uma vez por cima do ombro, o rosto uma máscara de ódio, e mexeu os lábios com algo que parecia você tá morta.
Eu sustentei o olhar até ele desviar primeiro.
A multidão se dispersou. Tyler apareceu ao meu lado.
— Kate, você tá—
— Eu tô bem. — Olhei para Lucas, que me observava com a mesma expressão indecifrável. — Por que você fez isso?
— Fiz o quê? — ele perguntou.
—Me ajuda. Faz todo mundo apagar os vídeos. Você não me conhece.
A boca dele se curvou naquele sorriso que não chegava aos olhos. —Você é interessante. E eu não gosto de ver as pessoas serem emboscadas. Ele olhou para a minha camisa coberta de comida. —Você devia se limpar antes de a gente ver a Morrison. O banheiro fica logo ali na esquina.
Ele disse isso como se fosse óbvio. Como se me ajudar fosse a coisa mais natural do mundo. Mas havia algo nos olhos dele que me fez pensar que ele estava jogando um jogo que eu ainda não conseguia ver.
—Eu não preciso da sua ajuda —eu disse.
—Anotado. —Ele não se mexeu. —O banheiro é por ali.
Eu queria discutir, mas sentia o molho escorrendo pela minha barriga e havia arroz caindo da minha gola. Virei e fui andando em direção ao banheiro, sentindo os olhos dele nas minhas costas o caminho inteiro.
O banheiro estava vazio. Eu me tranquei em uma cabine e encarei meu reflexo na porta de metal. Minha camisa branca estava completamente arruinada, manchada de marrom e laranja. Minha saia estava coberta de arroz. Havia um pedaço de frango preso no meu cabelo.
Eu parecia exatamente o que Brandon tinha me chamado. Lixo.
Minhas mãos começaram a tremer de novo. Segurei a borda da pia e me forcei a respirar devagar, contando cada inspiração e expiração até o tremor passar. Eu não podia me desmanchar. Não ali. Não na frente daquelas pessoas que estavam apenas esperando que eu provasse que elas estavam certas.
Passei dez minutos tentando me limpar com papel-toalha e sabonete líquido. Não adiantou — as manchas já tinham impregnado e eu ainda cheirava a comida de refeitório —, mas pelo menos eu não parecia tanto alguém que tinha saído de uma guerra de comida.
Quando saí, Lucas estava encostado na parede, rolando a tela do celular. Ele levantou os olhos.
—Melhor?
—Na verdade, não. —Cruzei os braços sobre as piores manchas. —Ainda não entendo por que você está me ajudando.
Ele me estudou por um longo instante. —Você acha que todo mundo aqui tem segundas intenções.
—E não têm?
—Provavelmente. —Ele se desencostou da parede. —Mas talvez as minhas sejam mais simples do que você pensa. Talvez eu só quisesse ver o que você faria. Se ia recuar ou revidar.
—E aí?
—Você é interessante. —Os olhos dele baixaram para a minha camisa manchada e depois voltaram para o meu rosto. —Tyler está esperando com uma bandeja nova. Mas, se você prefere morrer de fome a aceitar ajuda, a escolha é sua.
Ele começou a andar. Depois de três passos, olhou por cima do ombro.
—Vem?
Fiquei ali, pesando minhas opções. Meu orgulho dizia para mandar ele se foder. O bom senso dizia que eu estava morrendo de fome e já tinha gastado quase toda a minha energia. E alguma outra coisa — algo que eu não queria examinar — estava curiosa para saber o que Lucas Winston realmente queria.
Eu o segui.
Tyler estava numa mesa no canto com uma bandeja carregada com ainda mais comida do que antes. Ele se levantou num pulo quando nos viu.
—Kate! Desculpa, eu devia ter te avisado sobre o Brandon... —Ele notou Lucas e toda a postura dele mudou. —Ah. Oi.
—McCarthy. —Lucas se sentou ao lado da cadeira vazia como se tivesse sido convidado. Os olhos de Tyler se arregalaram, mas ele não disse nada.
Sentei e puxei a bandeja para mim. Comecei a comer, me concentrando na comida e em nada mais. Ao nosso redor, eu sentia as pessoas olhando. Cochichando. A garota nova que deu um tapa em Brandon Cartwright. A garota nova com quem Lucas estava sentado.
Perfeito.
Tyler se sentou na nossa frente. —Então... isso foi intenso.
—Foi idiota —eu disse em volta de uma garfada de frango. —Eu não devia ter batido nele.
—Tá brincando? Ele mereceu. —Tyler se inclinou para a frente. —Todo mundo viu o que ele fez.
—Não importa o que todo mundo viu —disse Lucas, em tom ameno. —O que importa é o que Morrison vai ouvir. E ela vai ouvir a minha versão.
Olhei para ele. —Por que você se importa?
