Capítulo 7
Katie
— Eu não gosto de valentões — ele disse, simples. — E o Brandon vem pedindo pra alguém colocar ele no lugar dele há anos.
Voltei a comer. Tyler me observava com um horror fascinado.
— Como é que você consegue mandar tudo isso pra dentro? Você é minúscula.
— Eu treino muito.
— Treina o quê?
Hesitei. O quanto eu devia contar pra eles? Lá em Montana, ninguém ligava que eu passava seis horas por dia aprendendo a quebrar gente. Mas aqui...
— Autodefesa — eu disse por fim. — Meu avô foi do exército. Ele me fazia treinar desde criança. Cortar lenha, correr com mochilas com peso. Esse tipo de coisa.
— Isso explica os reflexos. — Tyler abriu um sorriso. — Você devia tentar entrar pro time de beisebol. A gente precisa de tempo de reação assim.
— Eu não sei nada de beisebol.
— Eu posso te ensinar. As regras, a estratégia. Com o seu preparo físico, você ia ser incrível. — Ele fez uma pausa. — E o Brandon tá no time. Reserva do primeiro ano. Ia matar ele ver você mandando bem em algo em que ele é um desastre.
Pensei nas bolsas esportivas que Tyler tinha mencionado. Nas equações de AP que eu não conseguia entender. Na voz do Jack me dizendo pra encontrar outro caminho.
— Talvez — respondi, com cuidado.
Uma garota apareceu na nossa mesa com um copo do Starbucks na mão. Asiática, bonita, com maquiagem impecável e uma expressão de quem estava acostumada a conseguir o que queria. Ela me ignorou e ignorou Tyler completamente.
— Oi — disse ela para Lucas, com a voz ficando suave. — Eu trouxe o de sempre pra você.
Lucas nem tirou os olhos do celular.
— Não preciso.
O sorriso dela vacilou.
— Ah. Eu pensei que...
— Sophia. — Ele finalmente olhou para ela, educado, mas frio. — Eu disse que não preciso.
O rosto de Sophia ficou vermelho. Os olhos dela correram até mim, e eu vi o instante exato em que ela decidiu que eu era uma ameaça. A expressão mudou de constrangida para hostil.
— Certo. — Ela me olhou de novo, o olhar passando pelo meu uniforme manchado. — Você deve ser a garota nova. Um conselho: o Lucas normalmente não senta com gente aleatória. Não crie ideias sobre o que isso significa.
Ela foi embora antes que eu pudesse responder.
Tyler assobiou.
— Sophia. Ela tá tentando fazer o Lucas notar ela desde o primeiro ano.
— Ela tá no meu grupo do Model UN — disse Lucas. — Só isso.
O sinal do almoço tocou. Os estudantes começaram a juntar as coisas. Eu mal tinha comido metade, mas meu estômago já estava melhor.
Lucas se levantou.
— Qual é a sua próxima aula?
— Química AP.
— Eu tenho essa aula. Eu vou com você.
Não era uma pergunta. Ele simplesmente começou a andar.
Tyler me lançou um olhar que dizia boa sorte e foi para o outro lado.
Alcancei Lucas no corredor.
— Você não precisa ficar me vigiando.
— Eu sei.
— Então por que tá fazendo isso?
— Porque você é interessante. — Ele falou como se fosse óbvio. — E eu tô curioso pra ver o que você vai fazer depois.
Chegamos à sala. Lucas segurou a porta e eu passei, bem ciente de cada olhar se virando na nossa direção.
Sentei no fundo. Lucas sentou ao meu lado, e várias garotas da primeira fileira se viraram para encarar.
A professora começou a falar sobre estruturas moleculares e, em cinco minutos, eu já estava completamente perdida. A terminologia era desconhecida, os conceitos se apoiavam em anos de conhecimento que eu não tinha. Anotei o que consegui e torci pra entender depois, mas a sensação afundando no estômago me dizia que eu estava ferrada.
Lucas se inclinou na minha direção.
— Você realmente não sabe nada disso.
Mantive os olhos nas minhas anotações.
— Não.
— Eu posso te emprestar minhas anotações do começo do semestre.
— Por que você faria isso?
— Porque é interessante ver o que você vai fazer com elas — ele disse, casual. — E porque você vai reprovar se não fizer. Isso seria entediante.
Olhei para ele, tentando entender qual era a dele.
— Eu consigo lidar com isso sozinha — eu disse.
— Consegue? — Ele inclinou a cabeça. — Do lugar onde eu tô sentado, você tá três semanas atrasada e afundando. Mas tudo bem. Se você quer fracassar por orgulho, a escolha é sua.
A professora pediu atenção, e Lucas se virou de volta para a frente, me deixando encarando minhas anotações inúteis.
A tarde se arrastou. Química Avançada era uma tortura — terminologia interminável que eu nunca tinha ouvido, questões dissertativas que pressupunham conhecimentos que eu não tinha, uma professora que falava tão rápido que eu mal conseguia copiar o quadro. Quando o sinal finalmente tocou, meu caderno estava cheio de frases pela metade, pontos de interrogação e palavras que eu teria que procurar se quisesse ter alguma chance de passar.
Enfiei o livro na mochila, a lona esticando. Meu corpo inteiro doía depois de oito horas fingindo que eu pertencia àquele lugar.
Tyler veio saltitante, já com tudo guardado.
— Ei, Katie! Eu e o Lucas vamos jantar na lanchonete. Abriu um lugar novo de burrito mexicano — e é bom de verdade. Quer ir?
Olhei para o rosto aberto e amigável dele e senti algo se retorcer no meu peito. Ele tinha tentado o dia inteiro — comprando meu almoço, me acompanhando até a sala, puxando assunto. Eu valorizava aquilo. Mas mais socialização, mais olhares, deixar ele pagar por outra refeição que eu não tinha como retribuir...
— Obrigada — eu disse, colocando a mochila no ombro. — Mas eu devia voltar.
As palavras saíram sem vida, exaustas. Eu só queria ficar sozinha. Queria parar de fingir que estava tudo bem.
— Ah, vai, vai ser divertido—
— Tyler. — A voz de Lucas cortou a dele.
Ele estava encostado no batente da porta, fones caros em volta do pescoço, iPad debaixo de um braço. Completamente tranquilo.
— Ela disse não.
Sem irritação. Sem julgamento. Só um fato.
Tyler alternou o olhar entre nós.
— Tá. Bom, se você mudar de ideia...
Lucas pegou o braço dele e o guiou para fora.
— Você é muito irritante. — Ainda naquele tom neutro — não era maldade, só constatação.
Tyler riu por cima do ombro.
— Até amanhã, Katie!
Eu os vi indo embora e senti algo se acomodar no meu peito, algo que eu me recusei a nomear. Não era solidão. Eu tinha ficado sozinha a maior parte da minha vida. Isso era diferente. O tipo de isolamento que vinha de estar cercada de gente falando uma língua que você ainda estava aprendendo.
Fui até o ponto de ônibus, as mãos enfiadas nos bolsos do blazer. Sem celular — eu nem tinha encostado no que os Cartwrights deixaram no meu quarto. Sem expectativa de que Brandon mandasse um carro. Isso exigiria que ele pensasse em mim como alguma coisa além de um incômodo.
Atrás de mim, um grupinho de garotas do segundo ano esperava carona, as vozes finas como se achassem que estavam sendo discretas. Não estavam. Anos de treino no silêncio faziam com que eu pegasse cada palavra.
— Você viu o almoço? Ela literalmente deu um tapa no Brandon Cartwright na frente de todo mundo.
— Ela não sabe quem é a família dele? Eles podem acabar com ela.
— Mas o Lucas fez todo mundo apagar os vídeos. E depois sentou com ela no almoço. Com ela.
— A Sophia vai surtar. Ela tá em cima dele há anos.
— Você acha que eles estão...?
— Se estiverem, a Kate acabou de pintar um alvo nela mesma.
Mantive o rosto neutro, respirando de maneira regular. Por dentro, alguma coisa fria se enrolou nas minhas costelas. Eu não tinha pedido a ajuda do Lucas. Não tinha pedido para virar alimento de fofoca. Mas ali estava eu, enroscada em algo que eu não entendia, sem fazer ideia do que Lucas queria ou por que tinha se dado ao trabalho.
Gente como ele não fazia nada sem um motivo.
O ônibus estava atrasado. Os alunos foram embora em carros caros com motoristas de terno, até sobrar só eu, as garotas fofoqueiras e alguns atrasados. Foi quando eu reparei neles.
