Capítulo 1
“Eu planejei o sequestro. Se eu não arruinasse a reputação dela, como ela obedeceria a mim como uma marionete e me ajudaria a conseguir a herança?”
Todas as ilusões dos românticos incuráveis desabaram de uma vez. Bem no dia do nosso casamento, eu descobri que o meu próprio marido era o mentor por trás do meu rapto.
Ele ficou parado, assistindo à amante dele jogar ácido em mim, e depois me trancou numa câmara frigorífica, deixando que eu morresse junto com o nosso filho que ainda nem tinha nascido.
Mas eu ganhei uma segunda vida, com um novo rosto. Com o testamento oculto nas mãos, voltei mais forte do que nunca. Abocanhei, de uma só vez, os bilhões da fortuna da família, deixando-o muito abaixo de mim.
De joelhos, aquele canalha implorou por misericórdia. Eu atirei os papéis do divórcio nele e zombei:
— Assina. E depois se prepara pra apodrecer na prisão.
1
Os lustres de cristal pendurados sobre o salão de casamento da igreja queimavam meus olhos.
— Soube? A noiva foi sequestrada e ficou em cativeiro um dia e uma noite inteiros. Quem sabe o que aconteceu com ela lá fora?
— Coitado do Sr. William. Vai acabar casando com alguém com um passado tão manchado.
— Shh, fala mais baixo... o noivo está vindo.
Sussurros maldosos e olhares de julgamento espetavam minhas costas nuas como milhares de agulhinhas. Apertei o buquê com tanta força que as pontas dos meus dedos ficaram pálidas.
Fazia menos de uma semana daquela abdução de pesadelo. Mesmo quando eu fechava os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro de mofo daquele galpão abandonado.
— Selene.
William Sinclair se ajoelhou diante de mim, erguendo o colar de pérolas de família que pertencera à matriarca dos Sinclair.
— Não ligue para o que estão dizendo. — Ele ergueu os olhos para mim; o olhar dele era tão terno que chegava a embriagar. — Eu, William Sinclair, juro aos céus: você é o único amor da minha vida, e eu vou proteger você por toda a eternidade.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
Eu me atirei nos braços dele e me agarrei com força.
Quando o mundo inteiro falava mal de mim, ele era a minha única luz na escuridão. Naquela época, eu realmente acreditei que tinha me casado com o maior amor que o mundo já conheceu.
O público nos bancos estava com os olhos marejados, cutucando uns aos outros, animado.
— Nossa, o William é um fofo! A Selene deve ter feito algo incrível na vida passada pra conseguir um homem tão dedicado.
— Pois é. Hoje em dia, homem assim é um em um milhão.
As pérolas frias repousaram contra o meu pescoço, e meus olhos se encheram de lágrimas, comovida além do que eu conseguia dizer.
A recepção do casamento finalmente chegou ao fim, já tarde da noite.
Carreguei uma tigela de sopa para ressaca e segui em direção ao banheiro masculino, nos fundos do salão de banquetes. A porta estava entreaberta, e a gargalhada estridente de vários homens escapava de lá.
— Cara, você tem coragem, William! Não acredito que você mandou a sua própria noiva direto pra um bando de capangas!
— Essa sua atuação toda amorosa hoje foi impecável. Quase me convenceu também!
A voz arrastada de William cortou o barulho, carregada de desprezo mal disfarçado.
— Aqueles idiotas acham mesmo que eu sou louco por ela?
Meus pés travaram onde eu estava.
— Como mais eu ia domar aquele jeito metido dela? Eu tive que encenar aquele sequestro e acabar com a reputação dela primeiro; caso contrário, ela nunca viraria minha marionete obediente. — William soltou uma fungada de deboche, seguida do estalo seco de um isqueiro. — O testamento do meu falecido pai não deixou brecha nenhuma: eu só posso pegar a herança se eu me casar com a Selene. Agora que o nome dela foi arrastado na lama, ela não tem pra onde ir a não ser se agarrar em mim. Ela não vai ver um centavo daquela fortuna.
— Jogada brilhante, Sr. Sinclair! — os amigos dele comemoraram. — Tomara que aqueles sequestradores não tenham passado do limite com ela?
— Eu mandei dar um susto de verdade. Além disso, umas fotos comprometedoras já são mais do que suficientes pra destruir a reputação dela e deixar ela totalmente dependente de mim.
— Desde aquele dia, ela nem ousa olhar nos meus olhos. Tá igual um cachorro dócil agora, fazendo tudo o que eu mando.
Uma onda de náusea me atingiu, e a tigela de porcelana nas minhas mãos tremeu violentamente.
O colar de pérolas no meu pescoço parecia um laço de gelo, se apertando em volta da minha garganta e roubando meu ar.
Memórias horríveis inundaram minha mente: as mãos ásperas rasgando minhas roupas durante o sequestro, o desespero absoluto que eu senti e a humilhação daqueles flashes de câmera disparando de novo e de novo.
Nunca foi um acidente.
O homem que eu tinha jurado amar por toda a vida tinha construído pessoalmente esse inferno vivo para mim.
Mordi com força o lábio inferior até sentir o gosto metálico de sangue. Em vez de entrar de rompante e fazer um escândalo histérico, recuei em silêncio até a escada de incêndio no fim do corredor.
Empurrei a pesada porta corta-fogo, e um vento gelado varreu meu vestido de noiva fino.
Puxei o celular e disquei um número particular, criptografado.
A ligação foi atendida após dois toques.
Encarando o brilho fraco que vazava do banheiro ao longo do corredor, minha expressão foi ficando gélida, pouco a pouco.
— Doutor Chen, preciso que o senhor acione a cláusula oculta no testamento do velho Sr. Sinclair.
— E também prepare os papéis do divórcio pra mim.
Houve uma breve pausa na linha, então o farfalhar de papel.
— Entendido.
