Capítulo 2
Fiquei diante do espelho no vão da escada e fui retocando a maquiagem borrada aos poucos.
No reflexo, eu estava ali com meu vestido de noiva e o colar de pérolas no pescoço, usando um sorriso suave e sereno. Perfeito. É exatamente assim que eu preciso estar.
Empurrei a porta corta-fogo e saí. William me puxou imediatamente para os braços dele, exalando álcool. "Querida, amanhã vamos para as ilhas na nossa lua de mel. As Maldivas. Animada?"
"Estou." Curvei os lábios em um sorriso. "O que você escolher está bom para mim."
Ele se inclinou e depositou um beijo gentil no topo da minha cabeça, claramente satisfeito.
Enquanto o avião cortava as nuvens, William e Aurora estavam sentados na frente, conversando e rindo alegremente. Eu me acomodei sozinha junto à janela, na classe executiva, e fechei os olhos. O rosto encovado do velho Sr. Sinclair em seu leito de morte continuava surgindo na minha mente.
"Selene, eu devo a minha vida ao seu pai."
Ele tinha apertado minha mão, com a respiração fraca e irregular. "Eu já redigi meu testamento. Se aquele filho imprestável meu algum dia trair você ou quebrar a palavra, cada ação que eu possuo no Grupo Sinclair será sua."
"Minha querida, nossa família lhe deve pelo menos isso."
Naquela época, eu desabei em lágrimas e disse a ele que não queria nada daquilo. Tudo o que eu desejava era que ele se recuperasse. Agora percebo que o velho já enxergava através do próprio filho havia muito tempo.
O avião pousou, e uma brisa salgada do mar nos envolveu.
Aurora enlaçou o braço no de William e foi andando à frente. Ela olhou para trás com um sorriso. "Selene, você não se importa de eu vir junto, né? William disse que ficou preocupado que você fosse ficar entediada, então me pediu para fazer companhia a você."
"Nem um pouco." Arrastei minha mala atrás de mim, observando a mão de William repousar com firmeza na cintura dela, sem se mover nem um centímetro.
Uma onda de tristeza se abateu sobre meu coração, mas eu a reprimi no mesmo instante.
Aurora não perdeu tempo em arrumar confusão logo na primeira noite.
William foi tomar banho. Ela se enroscou no sofá, rolando a tela do celular, depois ergueu os olhos de repente. "Ei, ouvi dizer que tiraram toda a sua roupa quando você foi sequestrada? É verdade?"
Mantive o rosto impassível e permaneci em silêncio.
"Nossa, calma, eu só estava curiosa!" Ela piscou os cílios. "Pelo menos William não joga isso na sua cara, joga?"
Na manhã seguinte, no café da manhã, William mal tinha se sentado quando os olhos de Aurora se encheram de lágrimas.
"William, eu errei em vir para cá? Selene não fala uma palavra comigo. Ela me odeia?"
William se virou para me olhar, e o calor em seus olhos desapareceu num instante. “Selene, a Aurora veio até aqui só para te fazer companhia na nossa lua de mel. Por que você está tratando ela com frieza?”
Pousei o garfo. “Eu não estou.”
“Não está?” Ele soltou um bufar gelado. “Você acha que eu sou idiota? Você nunca foi tão amarga e de língua afiada. O que deu em você?”
Na terceira noite, um grupo de amigos encostados do William o arrastou para beber. Entediada até a alma, Aurora reuniu todo mundo na sala de estar da vila para ver um filme.
“Gente, olhem só uma coisa divertida que eu achei.” Ela puxou um tablet, com um sorriso doce.
A tela se acendeu.
Nela havia uma mulher vendada, com as mãos amarradas atrás das costas e uma mordaça enfiada na boca. Ela se encolhia no chão, tremendo. Alguém rasgou suas roupas, e ela gritou. Um tapa estalou no rosto dela, e ela se contorceu, soluçando sem controle.
Assobios ecoaram pela sala.
“Ela tem um corpão”, um homem gritou, animado. “Quem é essa garota, afinal?”
Aurora inclinou a cabeça. “Sei lá. Um amigo me mandou, disse que era coisa pesada.”
Na tela, mãos ásperas deslizaram pelo rosto da mulher e depois mais para baixo, agarrando o peito dela. Ela se debat ia, implorando repetidas vezes com uma voz rouca, irreconhecível.
Eu conhecia aquela voz.
Era a minha.
Minhas mãos começaram a tremer violentamente.
“Nossa, ela tá chorando de verdade”, Aurora riu. “Esperem pra ver o que acontece depois — fica ainda melhor.”
Eu me joguei para a frente para arrancar o tablet das mãos dela.
Aurora girou o pulso no último segundo. Eu errei completamente e caí com tudo no tapete. Ela ergueu o tablet bem alto acima da cabeça, a tela ainda brilhando. Eu encarei minha própria figura desgrenhada, com lágrimas escorrendo pelo rosto, congelada ali, exposta para todo mundo ver.
“Selene, por que você está chorando?” Ela olhou para mim com uma expressão perfeitamente inocente. “Espera… é você na tela?”
A sala ficou em silêncio absoluto por um instante.
Então alguém caiu na gargalhada. “Ah, não… sério?”
Meu rosto queimava, como se eu tivesse levado tapa atrás de tapa. Eu estava largada no tapete, com os dedos cravando com força no tecido. Eu até ouvi o estalo seco das minhas unhas quebrando.
“Não…” eu arquejei, as palavras mal conseguindo passar pela minha garganta. “Desliga… por favor, desliga.”
Aurora tapou a boca com a mão, num choque fingido. “Meu Deus, é você mesmo! Me desculpa, eu não fazia ideia—”
O tablet continuou ligado. Ouvi meus próprios gritos apavorados ecoando pelas caixas de som. Mais assobios vieram do grupo, homens zombando, dizendo que as imagens eram excitantes. Meus dentes batiam sem controle.
Nesse momento, a porta da frente se escancarou.
