Capítulo 3

William parou na porta, absorvendo a cena: eu encolhida no tapete, Aurora com o tablet erguido, e ao redor as expressões variadas da multidão.

— O que está acontecendo aqui? — Ele franziu o cenho, profundamente.

Aurora correu até ele na mesma hora, os olhos brilhando de lágrimas.

— William, a culpa é toda minha. Eu acabei colocando um vídeo sem querer, e nunca imaginei que era a Selene na tela… Ela está furiosa comigo, mas eu juro que não tive a intenção de fazer mal nenhum.

William lançou-me um olhar, frio e desdenhoso, como se eu não fosse nada além de sujeira no chão.

— Levante. Pare de passar vergonha na frente de todo mundo.

Ele pegou a mão de Aurora e a conduziu para longe, deixando-me completamente sozinha no tapete.

Com dificuldade, eu me pus de pé e limpei o sangue das unhas quebradas no meu vestido.

Tarde naquela noite, eu estava deitada na cama, bem acordada.

Ruídos vinham do quarto ao lado — primeiro risadas, depois uma respiração pesada, seguidas pelos gemidos de uma mulher.

William estava com Aurora. Com os olhos semicerrados de desejo, ela ofegou uma pergunta:

— Amor, quando você vai se divorciar daquela velha bruxa?

— Sem pressa — William debochou, sem diminuir o ritmo. — Assim que eu puser as mãos na herança do meu pai, ela já era.

Aurora deu uma risadinha afetada e passou os braços pelo pescoço dele.

— Você realmente não mede palavras. Sinceramente, como é que você consegue sequer tocar nela depois de tudo o que ela passou? Eu é que sou pura pra você.

— Claro que é, minha doce menina.

Saí da cama descalça e fui até a porta de mansinho. Espiando pela fresta, vi que o corredor estava vazio. A porta do quarto ao lado estava entreaberta, com uma luz quente escapando.

Os sons obscenos continuavam sem parar.

— Devagar, William… — Aurora choramingou.

— Você é muito melhor do que ela — a voz de William saiu áspera, carregada de tesão. — Só de pensar nela sendo tocada por todos aqueles homens, me dá nojo.

Do lado de fora da porta, fui tomada por um frio que parecia entrar nos ossos e se espalhar pelo meu corpo inteiro. Meus dedos tremeram quando puxei um gravador de voz do bolso do pijama e apertei para gravar.

Voltei para a cama e passei os dedos pela tatuagem de lírio marcada logo acima da minha clavícula.

Eu a tinha feito no meu aniversário de dezoito anos. Naquele dia, William me levara a um estúdio de tatuagem e se inclinara para sussurrar no meu ouvido:

— Esse lírio combina perfeitamente com você — pura e intocada.

Na época, eu tinha sorrido como uma idiota. Agora, ao passar os dedos sobre a tinta, parecia que eu estava tocando uma lápide.


Na manhã seguinte, no café da manhã, eu mal tinha me sentado quando Aurora trouxe uma tigela de mingau de arroz e se acomodou à minha frente, com um sorriso meloso.

—Selene, você ouviu algum barulho estranho ontem à noite? —Ela inclinou a cabeça, num ar de brincadeira. —Eu mal preguei os olhos. Alguém estava bem... enérgico...

William deu uma risadinha obscena ao lado dela.

Eu encarei a tigela à minha frente, com as mãos tremendo incontrolavelmente.

De repente, Aurora soltou um gritinho falso. O mingau quente espirrou direto no dorso da minha mão. Minha pele ficou vermelho-viva instantaneamente por causa do calor escaldante.

—Ai, não, me desculpa! Minha mão escorregou! —Ela piscou, sem um pingo de remorso de verdade no rosto.

Eu engoli a dor e murmurei:

—Tá tudo bem.

Naquela tarde, eu estava sentada no sofá quando minha visão embaçou. Uma crise forte de hipoglicemia me atingiu em cheio.

Aurora veio até mim segurando uma tigela de calda doce, com uma expressão suave, aparentemente gentil.

—Toma, come um pouco disso. Vai te fazer se sentir melhor.

Eu fiquei desconfiada, imaginando qual seria o truque daquela vez, mas estendi a mão para pegar mesmo assim.

Num instante, ela girou o pulso. A tigela se espatifou no chão, e a calda espirrou para todos os lados. Ela soltou um grito estridente e apertou a própria mão.

—Tá queimando!

William entrou na sala imediatamente.

—O que aconteceu?!

—E-eu tô bem... —Os olhos de Aurora se encheram de lágrimas. —Eu só queria trazer calda pra Selene, mas ela me empurrou.

—Eu não fiz isso! —protestei.

—Selene! Por que você continua implicando com ela? Você enlouqueceu?! —Ele avançou, me agarrou pelo cabelo e puxou minha cabeça para trás.

Quando ele puxou meu cabelo, o documento oficial para ativar o testamento oculto escorregou dentre as almofadas do sofá e caiu bem aos pés dele.

Ele se abaixou para pegar. Depois de passar os olhos pelas palavras, arregalou os olhos, chocado.

—Um testamento oculto? O velho tinha isso na manga esse tempo todo? Você de fato ativou?!

Ele me fulminou com o olhar, os olhos injetados de sangue, cheios de fúria.

—Você ousa tentar roubar todas as ações da minha família? Sua bruxa inútil!

Então o olhar dele caiu sobre outra tigela de calda em cima da mesa — uma que Aurora tinha preparado mais cedo, e eu não fazia ideia de que substâncias perigosas ela tinha misturado ali.

William agarrou a tigela e arremessou o conteúdo direto no meu rosto.

No instante em que o líquido escaldante atingiu minha pele, a princípio eu não senti dor — só um chiado fraco.

Depois, a agonia explodiu pela minha pele, se enfiando fundo na carne e queimando até os ossos.

Meus olhos se apertaram com força, e meus lábios grudaram. Eu soube na hora que aquilo nunca foi só calda.

Uma fumacinha branca subiu, enquanto o líquido corrosivo, misturado com ácido, devorava minha pele.

Eu abri a boca e soltei um grito cru, de gelar o sangue.

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