Capítulo 4

Meu grito morreu na garganta, minha boca lacrada pelo xarope espesso e pegajoso.

Cada centímetro do meu rosto ardia ferozmente, como se um ferro de marcar em brasa tivesse sido pressionado contra a minha pele e arrastado para lá e para cá, sem parar.

Desabei no chão de mármore, enfiando os dedos nas frestas entre as lajotas. Minhas unhas se arrancaram por completo, e o sangue começou a escorrer pelas pontas dos meus dedos.

A voz de William trovejou de cima. “É só um xarope. Não faça drama. Arrastem ela para a câmara de gelo. Isso endurece quando esfria. Quando a gente tirar depois, vai arrancar sua pele junto. Vamos ver se você ainda vai ter coragem de contratar advogados.”

Dois homens me agarraram pelos braços e me puseram de pé à força. Meus joelhos bateram no batente da porta, e senti ossos estalarem por baixo da carne.

A porta pesada do porão se abriu, e uma lufada de ar gelado passou por mim. Fui arremessada com brutalidade ao chão, com a nuca batendo no gelo. Pontos pretos dançaram diante dos meus olhos.

A porta bateu com um estrondo ensurdecedor.

A escuridão total engoliu tudo. O frio cortante atravessou minhas roupas, espetando minha pele queimada como incontáveis agulhas minúsculas. O xarope que cobria meu rosto começou a endurecer, se apertando até virar uma casca rígida. Cada respiração puxava, dolorosa, a carne em carne viva por baixo.

Minhas queimaduras latejavam de calor, enquanto o gelo sob mim drenava até o último resto de calor do meu corpo. Fogo escaldante e frio congelante travavam uma guerra dentro dos meus ossos.

Apoiei as palmas no gelo, tentando me erguer. A superfície lisa me fez escorregar na hora. Lasquinhas afiadas de gelo abriram cortes nas minhas mãos, e sangue novo brotou, congelando em pequenos cristais vermelhos em questão de segundos.

Perdi a noção do tempo. Podiam ter sido horas, ou um dia inteiro. Minha consciência ia e voltava, sacudida pela dor lancinante antes de afundar de novo na escuridão sem fim.

A casca de xarope no meu rosto já tinha endurecido por completo. Tentei entreabrir os lábios, e o som de carne se rasgando ecoou nos meus ouvidos. A agonia retorceu meu corpo, e me encolhi, apertada, mordendo com força o lábio inferior. A pele ali já tinha se desprendido, deixando só a carne viva sob meus dentes.

No primeiro dia, Peter, o velho mordomo, desceu escondido com comida. Ele tinha servido ao antigo patrão por décadas e me viu crescer.

Com o último fio de força, agarrei a perna da calça dele. Com as unhas ensanguentadas, raspei a palavra Socorro no chão gelado e implorei que ele fosse procurar William.

Peter voltou mais tarde, com os olhos vermelhos e a voz falhando. “Senhora… Aurora está bloqueando a entrada. O jovem mestre deu ordens: qualquer um que implorar pela senhora vai ser demitido na hora.”

No segundo dia, minha visão ficou turva. Meus ferimentos estavam gravemente infectados, e uma febre violenta me fazia sentir como se eu estivesse queimando viva.

No terceiro dia, eu já não conseguia nem mexer os dedos.

A enorme porta de ferro rangeu ao se abrir mais uma vez.

"Senhora!" O grito trêmulo de Peter cortou o silêncio.

Eu jazia imóvel no chão, encharcada pela água do gelo derretido e pelo meu próprio sangue. Peter estendeu a mão para verificar minha respiração, depois cambaleou para trás e caiu de joelhos.

Em pânico, ele correu para fora, ignorando Aurora completamente dessa vez, e arrastou William até o porão.

"Senhor! Ela não está respirando!"

Passos apressados se aproximaram. Abri pela metade os olhos cheios de pus e vi as mãos de William — sempre arrogantes e confiantes — tremendo violentamente.

Ele se ajoelhou devagar e pressionou dois dedos contra meu pescoço para verificar meu pulso.

No segundo seguinte, ele puxou a mão de volta como se tivesse levado um choque. Seu rosto ficou pálido como a morte, e ele tropeçou, quase caindo.

Meu pulso estava fraco, quase imperceptível. Eu estava à beira da morte.

William falou, atordoado. "Eram só queimaduras... Como isso pôde acontecer..."

"Chamem um médico", ordenou ele, com a voz tensa de inquietação.

A voz leve e descuidada de Aurora soou pelo ambiente. "Não! William, é melhor que ela morra. Quando ela se for, aquele testamento escondido perde o valor. Ninguém mais poderá tirar suas ações."

William não disse nada.

Ele ficou olhando fixamente para meu rosto desfigurado, o pomo de adão subindo e descendo descontroladamente. Não rebateu uma única palavra.

Nenhuma ambulância chegou. Ninguém fez qualquer tentativa de me salvar.

Naquele instante, meu coração ficou mais frio do que o gelo sólido sob meu corpo.

Depois que eles foram embora, Peter voltou sozinho. Leal ao velho mestre até o fim, ele decidiu trair William.

Evitando todas as câmeras de segurança, ele chamou seus homens de maior confiança do lado de fora e me envolveu firmemente em uma lona impermeável. Eles me carregaram por uma saída lateral até uma lancha que esperava ali perto. Para encobrir minha fuga, Peter encharcou a área do lado de fora da câmara de gelo com gasolina e ateou fogo. As chamas se ergueram alto no céu.

O motor da lancha rugiu pelo mar escuro.

O vento salgado do mar ardia no meu rosto coberto de sangue seco, mas eu mal conseguia sentir dor agora. Peter segurava um kit de primeiros socorros, com lágrimas escorrendo pelo rosto. "Aguente firme, senhora. Estou levando você para o exterior para ser tratada."

Forcei meus lábios cobertos de sangue a se abrirem e agarrei o pulso dele com o resto das minhas forças. Minha voz estava rouca e gutural, levada pelo vento.

"Diga ao William..."

"Selene..."

"está morta."

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