Capítulo 2

Rafael não foi para casa. Dirigiu até o pátio da transportadora e ficou dentro da picape com a cópia do exame sobre o volante. Ele leu cada linha até a raiva virar uma coisa fria.

O laudo dizia que ele tinha sido atendido numa terça-feira, às 14h17, na Clínica Vida Plena, em Santa Aurora. O médico estava quase ilegível, a assinatura parecia treinada às pressas e o resultado destacado era a única parte perfeitamente visível.

Rafael abriu o aplicativo do rastreador da empresa. Terça-feira. 14h17. O caminhão estava na BR-116, perto de Registro. Ele parara às 13h52 num posto e seguira às 14h23. Havia nota fiscal, pedágio, tacógrafo, câmera interna e mensagem do despachante sobre a temperatura do baú.

Ele riu uma vez, sem alegria.

— Burra ou confiante demais?

Talvez as duas coisas. Camila nunca tinha entendido o quanto a estrada registrava um homem: balança, pedágio, GPS, comprovante de descarga, foto de lacre, sensor de temperatura. Para ela, papel falso parecia verdade suficiente.

O celular tocou. Era ela.

Rafael atendeu sem dizer nada.

— Você sumiu por quê? — Camila perguntou.

Ao fundo havia música baixa, copos, uma risada masculina que parou rápido.

— Estou lendo.

— Lê direito. Não tenta bancar esperto.

— Você está em casa?

— Estou com minha mãe. Preciso de apoio depois do que você me fez.

Outra risada, mais distante. Rafael fechou os olhos. Não era a casa de Dona Sônia. Lá tinha televisão alta, cachorro latindo, panela batendo. Aquele fundo era de lugar caro, com eco limpo e gente falando baixo para parecer importante.

— Amanhã às nove — Camila continuou. — Leva RG, comprovante de conta e não faz cena.

— E se eu pedir outro exame?

O silêncio veio rápido.

— Você perdeu o direito de me humilhar mais.

— Eu estou falando do meu.

— Rafael, pelo amor de Deus. Você ainda quer fingir?

— Na terça do laudo eu estava na estrada.

Camila respirou pelo nariz.

— Então prova. Mas prova antes de todo mundo ver o vídeo da igreja.

A ligação caiu.

Rafael ficou olhando para a tela. Ela tinha ameaçado postar o vídeo, não provar o exame. Quem tem golpe mostra plateia.

Ele foi até a sala dos motoristas. O vigia, seu Osvaldo, levantou a cabeça.

— Vi coisa feia no grupo da comunidade, Rafa. Quer café?

Rafael sentiu vergonha como pancada. A mentira já tinha corrido.

— Quero as imagens do pátio de terça passada, se ainda tiverem.

— Algum problema com carga?

— Com minha vida.

Osvaldo não perguntou mais. Puxou as câmeras: Rafael entrou no pátio às cinco da manhã, saiu às cinco e quarenta e voltou só no dia seguinte. Depois imprimiram o rastreador. Osvaldo assinou declaração dizendo que Rafael estava em viagem no horário citado pelo laudo.

— Você vai na delegacia? — o vigia perguntou.

— Ainda não.

— Por quê?

Rafael dobrou os papéis.

— Porque isso é só a casca.

Voltou à picape perto da meia-noite. A vontade era arrombar a porta de casa, jogar o laudo na cara de Camila e exigir a verdade. Mas alguma coisa o segurava. A linha sobre a indenização no acordo. A pressa para assinar. A risada masculina no telefone. O relógio novo de Bruno. A segurança teatral de Dona Sônia.

Ele precisava ver a casa.

Chegou ao bairro Jardim das Palmeiras com os faróis apagados no último quarteirão. A casa simples, financiada em nome dos dois, estava iluminada. O carro de Camila não estava na garagem. A janela da sala tinha a cortina entreaberta. Rafael entrou com sua chave.

O cheiro o atingiu primeiro: perfume importado, doce e caro. Era masculino. Sobre a mesa havia taças, uma sacola de grife e um recibo dobrado. Rafael pegou.

Chaveiro automotivo Monte Carlo. Cópia de chave presencial. Modelo: SUV importado.

O valor pago daria para abastecer a picape por quase um mês.

Ele ouviu barulho no corredor. Camila surgiu do quarto, ainda maquiada, o cabelo preso de qualquer jeito. Assustou-se ao vê-lo, mas recuperou a máscara em segundos.

— Você entrou como ladrão agora?

— A casa ainda é minha.

— Depois de amanhã talvez não.

Rafael ergueu o recibo.

— Que chave é essa?

Camila avançou e arrancou o papel da mão dele.

— Coisa da clínica. Um paciente esqueceu.

— Paciente deixa recibo de chaveiro na nossa mesa?

— Não começa. Eu não tenho energia para suas paranoias.

Ela pegou a bolsa no sofá. Ao puxar, a fivela abriu e o conteúdo caiu: batom, carteira, cartões, uma caixinha de remédio e uma chave preta com emblema prateado. Rafael conhecia caminhão, mas também conhecia carro. Era chave de SUV de luxo.

Os dois olharam para o objeto ao mesmo tempo.

Camila se abaixou rápido. Rafael foi mais rápido. Pegou a chave e apertou o botão.

Lá fora, no fim da rua, atrás de uma árvore, um SUV preto piscou os faróis.

Rafael sentiu o mundo ficar estreito.

— De quem é?

Camila ficou pálida.

— Me devolve.

— De quem é, Camila?

O celular dela vibrou em cima do sofá. Na tela, uma mensagem apareceu antes que ela conseguisse virar o aparelho.

Davi Monteiro: O caminhoneiro já assinou? Preciso liberar o dinheiro da entrada amanhã.

Rafael não tocou no celular. Não precisava. A frase já tinha entrado nele como lâmina.

Camila avançou, pegou o aparelho e o apertou contra o peito.

— Sai da minha casa.

Rafael colocou a chave sobre a mesa com cuidado.

— Amanhã eu vou ao cartório.

Ela piscou, surpresa com a rendição.

— Ótimo.

— Mas antes vou conferir uma coisa.

— O quê?

Rafael olhou para o SUV escuro no fim da rua, depois para a esposa que tremia de medo não dele, mas da descoberta.

— De onde saiu o dinheiro que acende farol quando você aperta o botão.

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