Capítulo 3

Rafael esperou Camila dormir ou fingir que dormia. Às três da manhã, pegou o notebook velho e sentou à mesa da cozinha. A casa estava silenciosa, mas não parecia mais lar. Ele abriu o internet banking da conta conjunta.

A senha não funcionou.

Tentou de novo, devagar. Negada. Tentou a senha antiga de Camila, uma combinação que ela usava para quase tudo. Entrou.

O extrato carregou em linhas pequenas, e Rafael teve a sensação física de ver uma carga tombando em câmera lenta.

PIX de R$ 4.800 para DM Consultoria.

PIX de R$ 7.200 para D. Monteiro Serviços.

Transferência de R$ 18.000 para uma conta de titularidade que começava com Davi.

Pagamento de boleto de concessionária.

Novo PIX de R$ 11.500.

As datas se espalhavam por três meses. Os valores somavam a maior parte da indenização e quase toda a entrada do caminhão. Camila drenara como vazamento pequeno em câmara fria: quando o motorista percebia, a carga já estava perdida.

Rafael baixou os comprovantes e enviou cópias para um e-mail antigo. Depois abriu o histórico: logins de madrugada pelo celular dela e um acesso de computador desconhecido num bairro nobre de Santa Aurora.

Ele lembrou do SUV.

Foi até a picape e retirou o cartão de memória da câmera veicular. Meses antes, por hábito, instalara uma câmera dupla: uma apontada para frente, outra para dentro. Camila tinha usado a picape duas vezes enquanto o carro dela estava “na oficina”. Ele conectou o cartão ao notebook e procurou pelas datas dos PIX maiores.

Na primeira gravação, Camila entrou na picape falando ao celular.

— Calma, Davi. Ele não confere nada. Rafael acha que casamento é confiança.

A voz do outro lado saía baixa pelo viva-voz, mas dava para ouvir.

— Confiança é o nome bonito da burrice.

Rafael ficou imóvel.

Na tela, Camila riu.

— Depois do exame, ele assina. Minha mãe vai fazer a comunidade cair em cima dele.

— E a indenização?

— Já movi quase tudo. Amanhã mando o resto.

O vídeo continuou. Camila estacionou em frente a um prédio espelhado. Um homem entrou no banco do passageiro: cabelo penteado para trás, camisa cara, relógio grande demais. Davi Monteiro beijou Camila como quem chega em casa.

Rafael pausou a imagem.

Não sentiu explosão. Sentiu foco.

Abriu outro arquivo. Estacionamento de motel na saída da cidade. Camila e Davi entrando no SUV. Data: a mesma semana em que ela chorara dizendo estar sem dinheiro para pagar a conta de luz. Outro arquivo: a garagem de um edifício. Davi mostrando uma pasta a Camila.

— O laudo está pronto. Um amigo da clínica ajustou o carimbo. Se ele chiar, você fala que vai fazer boletim por violência psicológica.

— Ele não é violento.

— Melhor. Homem calmo tem mais medo de parecer monstro.

Rafael foi até a pia e deixou a água correr sobre as mãos até a tremedeira passar.

O impulso de acordar Camila morreu ali. Não porque ele a perdoasse. Porque acordá-la seria avisar a cobra que a enxada tinha sido comprada.

Às seis, antes que ela saísse do quarto, ele copiou os vídeos para dois pendrives e para a nuvem. Guardou um no forro da picape. O outro colocou dentro da bota de trabalho.

Camila apareceu às sete e meia, usando óculos escuros dentro de casa.

— Cartório às nove.

— Eu sei.

Ela analisou o rosto dele, tentando medir estrago.

— Você está estranho.

— Passei a noite pensando.

— Pensou no certo?

— Pensei que não quero mais confusão.

O alívio dela foi pequeno, mas real. Rafael viu. Foi como ver um ladrão sorrir ao descobrir que a câmera está virada para o outro lado.

O celular dela vibrou. Ela leu, virou a tela contra o corpo e foi para o banheiro. Rafael ouviu o áudio sair baixo, mas a casa pequena carregava som.

— Amor, ele amoleceu. Hoje assina.

A resposta masculina veio com risada.

— Perfeito. Com a assinatura, a casa fica no caminho. O dinheiro já está quase todo limpo. Depois eu boto o caminhoneiro para fora até da lembrança.

— E se ele descobrir os PIX?

— Ele não entende de banco. E mesmo que entenda, vai parecer acordo entre marido e mulher. Fica tranquila.

— Minha mãe acha que devemos pedir mais.

— Vamos pedir. Primeiro ele assina a renúncia. Depois a gente pressiona com o vídeo da igreja. Gente humilhada paga para sumir.

Rafael gravava tudo com o próprio celular, encostado atrás de uma pilha de panos na lavanderia.

Camila saiu do banheiro sorrindo.

— Vamos?

— Vamos.

No caminho para o cartório, ela falou sobre dignidade, cura, recomeço. Rafael dirigiu sem responder. Cada semáforo parecia longo demais. Na porta do cartório, Dona Sônia e Bruno esperavam. Bruno digitava freneticamente, talvez apostando em jogo, talvez contando dinheiro que ainda não tinha.

Antes de descer, Camila recebeu uma chamada de vídeo. O nome apareceu no painel do carro conectado por Bluetooth: Davi Monteiro.

Ela recusou depressa, mas o sistema reproduziu o áudio da mensagem seguinte automaticamente.

— Linda, escuta. Assim que o Rafael assinar, o dinheiro e a casa são nossos. Deixa ele sair com a roupa do corpo. À noite a gente comemora no apartamento. Aquele idiota nunca vai saber que pagou até o carro que eu uso para buscar você.

O áudio terminou.

Camila ficou branca.

Dona Sônia bateu no vidro do lado de fora.

Rafael desligou o carro, olhou para a esposa e sorriu pela primeira vez em dois dias.

— Vamos entrar. Seu noivo parece com pressa.

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