Capítulo 1

O fogo devora e o enxofre cai,

  Com dias escurecidos, o caos governa tudo.

  O rei das trevas se ergue, pintando os céus de vermelho,

  Homens e mulheres se curvam, a lealdade será jurada.

  —Ancião Aurj

Fogo. Era a única coisa que a garotinha conseguia compreender enquanto encarava, em choque, o que tinha diante de si. As chamas lambiam a casa onde ela vivia. A fumaça subia em colunas, e o reflexo do fogo nela dava à cena um brilho infernal.

Aquilo não fazia sentido para a menina; a casa não devia estar pegando fogo. Devia estar iluminada apenas pelo brilho das lamparinas — as mesmas sob as quais sua mãe lia e seu pai afiava as lâminas.

Ao redor dela, as pessoas gritavam por socorro, mandando que alguém chamasse os bombeiros.

Eles vão chegar tarde demais, pensou a garotinha, entorpecida.

Não sobraria nada da casa quando chegassem; nada além de cinzas e montes fumegantes da vida dela, perdida para sempre.

Saindo do torpor de repente, a menina gritou e se lançou em direção à casa.

Mãos a agarraram por trás, puxando-a para longe. Ela chutou e berrou, exigindo que a soltassem, mas as mãos não afrouxaram. Eram mãos escuras, cor de caramelo, notou a menina ao desviar o olhar da cena por um instante. A voz que vinha junto era suave, reconfortante. Vagarosamente, ela começou a perceber que aquelas mãos pertenciam a Samantha Morgan, a mãe de Charise, sua melhor amiga. Claro que ela estaria ali; tinha acabado de deixá-la em casa.

—Precisamos ir —murmurou Samantha, continuando a puxar a menina.

—NÃO! —uivou a garotinha. —Meus pais ainda estão lá dentro!

—É tarde demais —insistiu Samantha, arrastando a criança.

Ao longe, a menina conseguiu ouvir o som das sirenes se aproximando. Ainda pareciam distantes, distantes demais.

Um estrondo agudo veio da casa em chamas quando vidro e destroços voaram na direção delas.

Samantha se jogou para trás com a menina, e as duas rolaram pela grama endurecida de frio.

Pararam de rolar a poucos centímetros da rua.

As pessoas ao redor gritavam, horrorizadas. À frente delas, uma criatura emergiu do prédio em chamas, negra como a noite. Ela abriu as asas escamosas e soltou um grito estridente. Seus olhos ardiam como o próprio fogo.

A garotinha ficou hipnotizada pela coisa à sua frente. Samantha enrijeceu e empurrou a menina para o lado, saltando de pé e puxando algo da bota.

A menina reconheceu a adaga antes mesmo de Samantha brandi-la e assumir uma posição de luta. Era demais; a menina ficou tonta e desmaiou.

Elaina acordou sobressaltada, o coração martelando no peito. O lençol com que tinha se coberto mais cedo estava enrolado com força ao redor do corpo.

Se contorcendo, ela conseguiu libertar uma das mãos e a usou para afastar o cabelo escuro e grosso da testa úmida.

Ainda estava escuro ao redor, nem de perto era hora de acordar.

Uma risadinha veio do quarto ao lado; obviamente, Charise tinha acabado de chegar em casa depois de uma noite de festa e, muito provavelmente, estava entretendo um convidado… ou dois. Com ela, nunca dava para ter certeza.

Elaina suspirou ao conseguir se desvencilhar do lençol de vez.

O pesadelo do qual acabara de despertar ainda estava claro como o dia na mente enevoada de sono. Eles sempre a assombravam nessa época do ano; afinal, foi quando aconteceu. A besta atacara seus pais e então incendiara sua casa, deixando-a órfã.

Depois daquilo, os monges a acolheram, dando-lhe abrigo e comida. Em troca, ela treinou vigorosamente com eles e prometeu cumprir seus deveres como guerreira — os mesmos deveres que seus pais também haviam prometido cumprir.

Um baque alto e risadas atravessaram a parede; pelo jeito, eles iam ficar acordados por um bom tempo.

Sem querer servir de plateia para os joguinhos de Charise, Elaina saiu da cama, se vestiu depressa e então saiu do quarto e da casa.

O ar lá fora estava fresco; ainda não fazia frio o bastante para usar casaco, mas era gelado o suficiente para arrepiar os braços de Elaina enquanto ela andava. Ela não sabia ao certo para onde estava indo, nem o que pretendia fazer, mas o ar da noite ajudava a clarear sua mente, expulsando os demônios que tinha na cabeça.

Ao redor, as casas estavam todas escuras. Todo mundo dormia profundamente e em conforto, sem se preocupar com nada.

Os postes de luz acima iluminavam seu caminho enquanto ela acelerava o passo.

Elaina invejava aquelas pessoas dormindo felizes em suas camas. Elas não sabiam nada sobre as criaturas que existiam — as mesmas que assombravam a mente de Elaina, acordada e dormindo.

As crianças que moravam por ali ainda tinham os pais; não sabiam como era tê-los arrancados num único instante. Não sabiam como era ter de treinar dia após dia, usando o treino como fuga das lembranças. Às vezes simplesmente não era justo, mas, pensou Elaina com amargura, a vida não era justa.

Balançando a cabeça, Elaina começou a trotar, observando tudo ao redor se borrar. A adrenalina sempre a ajudava a se acalmar. Ela desejou que houvesse um monstro ou alguma coisa para lutar, para bloquear completamente tudo, mas ultimamente as coisas tinham estado estranhamente calmas.

Os monges achavam aquilo esquisito, porque sempre havia alguma coisa por perto, mesmo que fosse uma bestinha de estopa. Mas, ainda assim, agora eles não estavam em lugar nenhum.

Elaina continuou correndo, sem ter certeza do destino, mas sabendo que precisava chegar a algum lugar. Era quase como um puxão magnético; alguma coisa a impelia para a frente, dizendo a ela para onde ir.

Elaina agora corria em velocidade máxima, o ar saindo em nuvens de sua boca.

Por fim, começou a desacelerar e então parou de vez.

De pé à sua frente, sob a luz de um poste, estava um dos monges. Ele vestia o amarelo e o bordô cerimoniais da paz.

Ele observou Elaina com curiosidade enquanto ela se aproximava.

A maioria dos monges que Elaina conhecia tinha a cabeça raspada e não tinha pelo facial algum, mas aquele monge era diferente.

O cabelo escuro caía de forma bagunçada ao redor do rosto, e ele parecia não ter tido a chance de se barbear havia dias.

— Você é novo? — Elaina perguntou, parando diante dele.

O monge continuou a estudá-la, pensativo, com um sorrisinho brincando nos lábios.

— Eu pareço só um bebezinho? — Os olhos do monge brilharam, divertidos.

Elaina se eriçou.

— Não foi isso que eu quis dizer. — Cruzou os braços, indignada, e continuou observando o monge.

— Sou o irmão Joseph dos Irmãos do Norte — ele disse por fim. — Fui enviado para alertar os irmãos do Leste.

— Alertar sobre o quê? — Elaina perguntou, curiosa, avaliando o irmão Joseph.

Uma pena ele ser monge; não era nada feio — dava até para dizer que era bonitinho.

O irmão Joseph continuou estudando Elaina, como se ponderasse o quanto podia lhe contar.

— A desgraça iminente que está vindo para cá — disse ele, finalmente. — Ela já atacou meus irmãos; a maioria não sobreviveu.

Isso explicava o rosto por fazer e o cabelo, mas significava que o irmão Joseph estava fugindo havia um tempo, refletiu Elaina. O que não explicava, porém, era por que ele trazia o aviso.

Elaina sabia que os irmãos tinham algum tipo de circuito que espalhava notícias por toda a irmandade; em geral, eles nunca saíam de seus abrigos para se verem.

— Por que você está aqui em vez de estar lá alertando os irmãos, então, irmão Joseph? — Elaina perguntou, em voz baixa. — Você não deveria estar avisando o irmão Isaac em vez de falar comigo?

O irmão Joseph não pareceu nem um pouco ofendido pelas palavras de Elaina, o que, para ser sincera, era típico da irmandade.

— Você me encontrou; eu não vim te procurar — o irmão Joseph apontou, solene. — Mas é bom que eu tenha encontrado você primeiro.

— Por quê? — Elaina retrucou, ríspida.

— Porque...

O irmão Joseph não terminou a frase. Num movimento tão rápido que Elaina quase não acompanhou, ele arrancou o manto, revelando um cinto cheio de armas. Presa aos ombros, havia uma espada, que ele puxou com um tranco e brandiu diante dela.

Os olhos dele, Elaina percebeu então, eram escuros como a noite, e pequenas faíscas vermelhas tremeluziam lá dentro. Um sorriso largo se formou em seus lábios quando ele ergueu a espada, pronto para lutar.

— Você confia demais, Elaina Mason — disse ele, sorrindo.

Elaina sorriu docemente para o homem à sua frente. Ele observou quando ela levou as mãos para trás da cabeça e, num único movimento rápido, puxou a adaga que sempre escondia numa correia presa ao ombro, empunhando-a diante de si.

Elaina sabia que sua adaguinha não ajudaria muito contra a espada daquele homem, mas talvez pudesse segurá-lo por tempo suficiente para ela escapar.

— Acho que não estou tão surpreso — disse o homem, displicente, olhando a adaga na mão de Elaina. — Embora eu não entenda muito bem o que você pretende fazer com esse brinquedinho.

— Mais do que você é capaz de imaginar — respondeu Elaina, agachando-se numa postura defensiva de combate.

Era verdade; ela já tinha derrubado três oponentes de uma vez usando apenas a adaga.

No geral, ela tinha se saído muito bem; tirando algumas costelas quebradas e um tornozelo torcido, tinha saído ilesa. O problema era que aqueles homens tinham sido capangas dos Irmãos das Trevas enviados para sequestrá-la.

Este homem era um demônio, mas ela não sabia quanta escuridão havia dentro dele.

Com um grito, o homem avançou, apontando a espada para o peito de Elaina.

Ela se esquivou, mas não rápido o bastante para evitar que a lâmina lhe cortasse o braço. Abafou um gemido de dor e correu na direção dele enquanto ele tentava firmar o pé de novo.

Ele era rápido, muito mais rápido do que ela, e se afastou com facilidade.

Girando, ela se moveu outra vez, concentrando toda a energia na besta diante dela.

Ele sorriu de um jeito selvagem, rebatendo a adaga dela sem esforço.

Decidindo que a defesa não era a melhor opção, Elaina resolveu tentar partir para o ataque. Ela se firmou, virando-se e encarando o oponente mais uma vez. Ele sorria de modo maníaco, observando-a com divertimento.

— Você realmente achou que podia me derrotar com essa coisinha, não achou, Elaina Mason? — ele riu.

Elaina cerrou os dentes.

— Não me chame assim.

Parecendo ainda mais divertido, o homem começou a se mover devagar ao redor dela. Elaina acompanhou o movimento, sem tirar os olhos do braço com que ele empunhava a arma; ela sabia que, se desviasse o olhar, seria o fim.

— Por que não, Elaina Mason? — perguntou ele. — Você não gosta de ouvir o nome da sua família? Imagino que possa ser um pouco doloroso depois da morte dos seus pais. Uma coisa terrível... Se ao menos eles tivessem cooperado, talvez ainda estivessem aqui hoje.

A raiva se acendeu em Elaina, quase fazendo-a perder a concentração. Percebendo na hora que era isso que a besta queria, ela engoliu tudo e mostrou os dentes num rosnado.

— Você não sabe nada sobre os meus pais — cuspiu ela.

Outra risada explodiu do homem, profunda e gutural.

— Eu sei muito mais do que você imagina. Quem você acha que mandou aquela besta destruí-los?

Os ouvidos de Elaina começaram a zunir, as palavras dele se infiltrando em sua mente. Ele estava dizendo a verdade? Tinha mesmo enviado aquela criatura para matar seus pais onze anos atrás?

Uma fúria branca e ardente subiu em Elaina, uma fúria que assustou até a ela.

Sem se importar mais em manter a besta sob controle, ela soltou um grito e correu para cima dele outra vez — um movimento que teria lhe custado caro se alguém não a tivesse empurrado para longe no último segundo.

Elaina se estatelou na grama enquanto a besta puxava o ar, chocada.

Ele se virou para encarar quem quer que tivesse salvado a vida dela no último instante.

Em algum momento, eles tinham saído debaixo da luz, então tudo o que Elaina conseguia distinguir era o contorno da pessoa.

Ele segurava alguma coisa nas mãos, pronto para golpear a besta se ela decidisse vir para cima dele.

— Saia daqui! — gritou seu salvador, ferozmente. — Sua garota idiota, você nem devia estar aqui agora.

A raiva voltou a crescer em Elaina ao ser chamada de idiota.

Saltando, ela avançou contra a besta, agarrando-a por trás enquanto ela estava distraída. Os dois rolaram pelo chão de novo, a criatura arranhando e se debatendo.

Elaina fez o possível para conter os ataques da besta, mas, em certo momento, o punho dele acertou a têmpora dela, lançando-a pelo ar. Ela se chocou contra algo duro, e todo o ar escapou dos seus pulmões.

Por um segundo, tudo ficou embaçado e seus ouvidos zumbiram.

Ofegante, ela tentou se levantar outra vez, ignorando os gritos de protesto do próprio corpo.

— Fique no chão. — a pessoa disse de novo, correndo até ela. — Está me ouvindo? Fique no chão!

Elaina se viu cara a cara com um homem, os olhos verdes dele ardendo de raiva. Cachos escuros caíam sobre o rosto. Elaina reparou numa cicatriz na bochecha, sinal inconfundível de batalha — uma marca que ele carregaria pelo resto da vida.

— Se você valoriza a sua vida, vai ficar onde está, ouviu...?

Ele não conseguiu terminar a frase: a besta o ergueu e o arremessou pelo ar.

Ofegante, Elaina saltou, preparando-se para outro ataque, mas a criatura apenas sibilou e desapareceu, virando nada além de vapor.

Atônita, Elaina olhou ao redor, tentando entender o que exatamente tinha acabado de acontecer. Não havia mais ninguém ali, só ela e o homem que a tinha salvado, largado, mole, na grama.

Elaina correu até ele, ajoelhando-se ao seu lado e virando-o. Ele estava acordado e encarava o nada, zonzo; quando os olhos enfim focaram, ele franziu a testa e empurrou as mãos de Elaina para longe.

— Tinha que ser uma mulher pra estragar tudo. — rosnou, sentando-se e levando uma mão à cabeça. Puxou os dedos, melados de sangue.

— Droga, você deixou aquela coisa fugir!

Elaina recuou como se tivesse levado um soco.

— Como assim eu deixei fugir? — ela rosnou. — Eu estava lidando muito bem com ele até você se meter.

O homem riu.

— Sim, porque quase levar uma facada no peito é “lidar muito bem”.

— Eu teria ficado bem. — Elaina retrucou, indignada. — Já tive ferimentos piores. E quem é você, afinal?

— Não é da sua conta quem eu sou. — o homem disse, ficando de pé e sacudindo a grama da roupa.

Elaina notou que ele usava o equipamento de batalha costumeiro dos irmãos: um colete preto simples por cima de uma couraça de aço. Calças pretas com muitos bolsos para esconder inúmeras armas e botas de caça. Ele era mais alto do que Elaina e a encarava de cima como se ela fosse uma criança desobediente.

— O quê? — Elaina exigiu, sentindo-se um pouco constrangida.

— Você não devia estar em casa, dormindo, onde é seguro pra crianças? — o homem perguntou, cruzando os braços.

— Eu não sou criança. — Elaina disse entre os dentes.

— Você tem o quê, dezesseis, dezessete talvez? — ele continuou, cutucando, até a paciência de Elaina chegar ao limite.

— Eu tenho vinte e dois. — Elaina disparou. — Idade legal de um guerreiro dos irmãos.

Isso pegou o homem desprevenido; ele encarou Elaina de um jeito novo, como se a estivesse notando pela primeira vez.

Elaina estava acostumada com as pessoas acharem que ela era nova. Tinha herdado a aparência da mãe: cabelos escuros e ondulados que emolduravam o rosto, deixando-a com ar de boneca, olhos azul-vivo e apenas um metro e cinquenta e dois de altura. A única coisa que indicava maturidade eram as curvas de mulher com as quais, por sorte, tinha sido abençoada.

— Você é uma guerreira dos irmãos? — o homem perguntou, desconfiado.

— O que eles acham que uma coisinha pequena como você consegue fazer?

Já tendo ouvido o suficiente, Elaina avançou furiosa, segurou o homem pelo braço e pelo ombro e, com um único tranco, o projetou por cima do próprio corpo. Ele caiu de costas e ficou ali, olhando para ela, chocado.

— E então, sobre se perguntar o que uma coisinha pequena como eu consegue fazer? — Elaina perguntou docemente, fazendo covinhas no rosto.

— Você teve sorte. — o homem disse, simplesmente, sentando-se. — Isso não vai acontecer de novo, pode confiar.

— Você tem razão, não vai. Porque eu não pretendo trombar com você de novo. — Elaina disse, virando-se e indo embora. Deixou para trás o homem idiota, encarando, embasbacado, a figura dela se afastando.

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