Capítulo 2
Elaina acordou na manhã seguinte sentindo o peso da batalha da noite anterior.
Saindo devagarinho da cama, o corpo gritava com ela, implorando que ficasse onde estava — e era exatamente o que ela queria —, mas sabia que não podia.
Ignorando os protestos, tomou um banho rápido e vestiu jeans e camiseta. Depois desceu às pressas, seguindo o cheiro de café que se espalhava pela sala vindo da cozinha, chamando-a para a frente.
— Bom dia — chamou Charise, sem se virar do smoothie que estava preparando. — Fiz café pra você.
Grata, Elaina se serviu de uma xícara e se sentou à mesa.
Como sempre, Charise já estava vestida para o trabalho, com calça preta, uma camisa branca simples e um avental vermelho. O cabelo castanho, indomável, estava preso num coque no alto da cabeça.
Charise trabalhava como barista numa cafeteria da região, mesmo sem precisar do dinheiro; ela insistia que isso a fazia se sentir um pouco mais normal.
Elaina sempre tinha achado aquilo estranho, mas Charise era diferente. Ela gostava da batalha e, às vezes, até sentia prazer nisso, mas também gostava de agir como uma mulher comum no começo dos vinte.
Ao contrário de Elaina, Charise não tinha escolhido aquela vida; os pais haviam escolhido por ela e, com uma boa dose de persuasão de Elaina, Charise concordara em seguir os passos deles e treinar para ser uma guerreira também. Enquanto Elaina torcia para que as batalhas nunca terminassem, Charise esperava que um dia elas acabassem e que ela pudesse viver em paz, com uma família. Algo que Elaina sabia que nunca quis.
— Noite longa? — perguntou Charise, curiosa, finalmente se virando.
Elaina deu de ombros.
— É, você sabe… os sonhos aterrorizantes de sempre e depois um encontro com um mensageiro dos irmãos das trevas.
Os olhos de Charise se arregalaram.
— Você recebeu uma mensagem dos irmãos das trevas? Por que você não veio me chamar? Você se machucou?
— Ei, ei — disse Elaina, erguendo as mãos. — Eu obviamente dei conta numa boa. Eu estou aqui sentada falando com você, não estou?
— Verdade — Charise encarou Elaina com curiosidade. — Como é que você conseguiu, afinal?
Elaina suspirou.
— Pra falar a verdade, eu tive uma ajudinha. Um cara apareceu bem na hora, antes de eu virar um espetinho.
— Um homem? — Charise perguntou, erguendo uma sobrancelha. — Um homem bonitinho, talvez?
— Por que você sempre tem que fazer essa pergunta especificamente? Que diferença faz se ele é bonito ou não? Ele foi ofensivo e totalmente convencido — respondeu Elaina, simples.
— Ofensivo como? — Charise insistiu, obviamente querendo cada detalhe.
— Ele me chamou de garotinha idiota e mandou eu ir pra casa e deixar os grandões cuidarem da luta contra as feras — resmungou Elaina, pousando a xícara na mesa.
Charise não tirou os olhos dela.
— Ele falou exatamente assim ou você está exagerando?
— Talvez eu tenha acrescentado umas coisas, mas foi basicamente isso.
Elaina percebeu que a xícara estava vazia e se levantou para se servir de mais café.
Charise continuou observando, como se Elaina tivesse acabado de criar uma segunda cabeça.
— Por que você está me encarando? — perguntou Elaina, impaciente, virando-se de repente.
— Você não fica nem um pouquinho curiosa pra saber como esse homem apareceu do nada, já que você não sabia quem ele era? Ele obviamente não faz parte da irmandade do Leste — Charise parecia muito interessada no mistério daquele homem estranho.
— Eu não tenho interesse em nada sobre ele — disse Elaina, indignada, sentando-se de novo. — Ele foi grosseiro, arrogante e achou que mulheres não são capazes de lutar numa batalha ao lado de homens.
Charise lambeu os lábios. “Arrogante e herói… eu queria muito conhecer esse cara.”
Elaina suspirou, derrotada. Levantou-se, enxaguou a xícara de café e a deixou na pia. “Boa sorte com isso. Não faço ideia de onde ele está nem de onde veio.”
Elaina saiu da cozinha em disparada, mas não rápido o bastante para não ouvir Charise chamando atrás dela:
“Você nunca respondeu minha pergunta.”
Elaina se virou. “Que pergunta?”
“Ele era bonito?”, Charise devolveu, em voz alta.
Sem se dar ao trabalho de responder, Elaina calçou as botas e saiu. Depois do que tinha acontecido na noite anterior, ela planejava visitar os irmãos para arrancar respostas deles.
O céu lá fora estava de um azul perfeito e intenso; o cheiro da chegada do outono era evidente na brisa. Puxando o ar com força, Elaina começou a caminhar.
Quando Elaina chegou ao instituto, o Irmão Benjamin estava no portão para recebê-la.
Ela tinha mandado avisar que iria. O Irmão Benjamin sorriu para ela, com as rugas bem marcadas no rosto.
Ele fora um dos principais cuidadores de Elaina enquanto ela crescia; era o mais próximo que Elaina tinha de um pai.
“Olá, Elaina”, disse o Irmão Benjamin quando ela se aproximou. “O que a traz aqui?”
“Tive um encontro… interessante ontem à noite”, confessou Elaina, seguindo o Irmão Benjamin para dentro.
“Quer explicar melhor?”, perguntou o Irmão Benjamin, sem nem se dar ao trabalho de olhar para trás.
Elaina respirou fundo. “Eu trombei com uma besta que disse fazer parte dos Irmãos do Norte. Ele falou que estava trazendo uma mensagem sobre algum tipo de escuridão vindo na nossa direção. Depois, tentou me matar, mas fui salva por um homem. Que, vale dizer, é um dos guerreiros.”
O Irmão Benjamin ouviu em silêncio e não pareceu surpreso quando Elaina mencionou o homem que a salvara.
“Então eles chegaram”, disse ele simplesmente, virando-se e desaparecendo numa alcova.
Elaina o seguiu, abaixando-se para passar por entre a cortina de contas que separava os cômodos do salão principal. O Irmão Benjamin sentou-se num tapete na frente do quarto e fez um gesto para que Elaina se sentasse diante dele.
Elaina obedeceu, sentando-se com as pernas recolhidas sob o corpo. Observou o ambiente ao redor; era a sala em que ela passara muitos dias meditando.
Arandelas em cada lado do cômodo sustentavam velas que ardiam com força, iluminando as paredes douradas ao redor.
Atrás do Irmão Benjamin havia a estátua de Ezra, o primeiro guerreiro da irmandade, com a espada mestra firmemente segura na mão estendida.
A espada fora perdida após a batalha da escuridão; a maioria achava que ela tinha sido destruída junto com Ezra, embora outros acreditassem que o exército sombrio a havia tomado e planejava usá-la contra eles um dia, em vingança.
“Quem chegou?”, perguntou Elaina. “Você convocou os outros guerreiros da irmandade?”
O Irmão Benjamin apenas assentiu. “Como você sabe, é muito incomum as coisas estarem tão calmas. Tememos que os irmãos sombrios estejam reunindo todas as forças, preparando um ataque.”
Elaina soltou o ar. “Você tem certeza de que eles simplesmente não começaram, enfim, a morrer todos? Não tem como existir tantos demônios e bestas assim.”
“Para cada guerreiro que temos, há pelo menos mil bestas, Elaina”, respondeu o Irmão Benjamin, com a voz áspera. “Elas são criadas quando os guerreiros nascem.”
“Isso não pode ser verdade”, sussurrou Elaina. “Nós somos tão poucos… como pode existir tanta coisa assim?”
“É o jeito do mundo”, disse o Irmão Benjamin, simplesmente. “Quanto a esse outro guerreiro com quem você se deparou, me conte mais sobre ele.”
Mais uma vez, Elaina recontou o encontro com o guerreiro arrogante que a repreendeu só por ela ser mulher. Ela tentou manter a voz firme, sem deixar o Irmão Benjamin perceber o quanto detestava o homem; como guerreira, era esperado que ela não demonstrasse nada além de respeito pelos outros guerreiros que encontrasse, embora o homem não tivesse se dado ao trabalho de demonstrar respeito algum por ela.
“Ele não se apresentou a você?”, perguntou o Irmão Benjamin, curioso.
Elaina balançou a cabeça. “Não, mas eu não dei muita chance”, admitiu, sem graça. “Fiquei com raiva e fui embora.”
O Irmão Benjamin lançou-lhe um olhar de desaprovação, fazendo Elaina se sentir de novo como uma criança em treinamento. Toda vez que deixava a raiva tomar conta e baixava a guarda, fosse qual fosse o irmão que estivesse treinando-a naquele momento, recebia um olhar de desaprovação que a fazia sentir como se tivesse decepcionado todos eles.
Elaina se remexeu sob o olhar do Irmão Benjamin, querendo mais do que tudo se levantar e ir embora, mas sabendo que não podia fazer isso; seria a coisa mais desrespeitosa que poderia fazer.
Depois do que pareceu horas, o Irmão Benjamin finalmente falou: “Vamos ter um encontro esta noite, uma forma de apresentar nossos guerreiros aos visitantes. Espero que desta vez você demonstre mais respeito, Elaina.”
“Sim, Irmão Benjamin”, disse Elaina, derrotada.
“Agora, vá para casa, criança.”
Elaina assentiu e se levantou. Inclinou-se levemente diante do Irmão Benjamin antes de se apressar para sair.
“Um encontro!”, Charise guinchou, animada. “Espero que tenha pelo menos alguns guerreiros bonitos, estou tão entediada com todos os que a gente tem aqui.”
“Só porque você já passou por todos eles”, observou Elaina.
Ela estava diante do espelho de corpo inteiro de Charise, segurando um vestido preto com decote em V à frente do corpo e depois um azul-bebê que caía até os joelhos, mas parecia mais apresentável de lado a lado.
Quando Elaina contou a Charise sobre a reunião daquela noite, Charise insistiu que ela pegasse um de seus vestidos emprestado. Apesar de muitos protestos, Charise acabou vencendo e agora a mantinha como refém até ter certeza absoluta de que Elaina parecia uma mulher de verdade.
A própria Charise já tinha trocado o uniforme de trabalho por um modelo violeta tão curto que poderia ser considerado inapropriado, colado ao corpo, valorizando suas curvas — certo de atrair o olhar de vários dos guerreiros homens do Norte.
“Eu não sei”, retrucou Elaina, continuando a alternar um vestido e outro. “Não sinto que nenhum desses combina muito comigo.”
Charise revirou os olhos. “Você não acha que vestido nenhum combina com você.”
Verdade, mas Charise estava fazendo um drama por nada.
“Me diz de novo por que minhas roupas normais de reunião não são boas o bastante pra esse encontro?”, disse Elaina, jogando os vestidos no chão, frustrada.
Quando os Irmãos normalmente convocavam um encontro dos guerreiros, eles eram obrigados a vestir tudo preto: camisa preta, calça e botas. Simples, fácil de vestir e ir, mas Charise insistia que esse encontro seria diferente.
Ela tinha conversado com os pais, e eles disseram que seria meio que um banquete, com comida e dança, uma celebração da união dos dois grupos. Aquilo tinha deixado Charise em polvorosa, e quando ela começava, com certeza era uma força a ser enfrentada.
— Você não tem nada um pouco mais... modesto? — perguntou Elaina, sentando-se na beirada da cama de Charise.
Charise suspirou e sumiu dentro do closet.
Elaina observou enquanto peças de roupa voavam para fora, Charise revirando tudo, tentando achar alguma coisa que a deixasse satisfeita.
Em dado momento, Elaina viu uma calça masculina ser arremessada para fora, mas decidiu ficar de boca fechada. O que Charise fazia não era da conta dela; afinal, as duas eram adultas e podiam fazer o que quisessem.
Depois que uma grande pilha de roupas se formou no meio do quarto, Charise apareceu segurando um vestido simples de algodão cinza, com decote redondo. Ela jogou a peça em Elaina e exigiu que ela a vestisse.
Percebendo o humor de Charise, Elaina desapareceu no banheiro e fez o que lhe mandaram.
O vestido, na verdade, não ficava ruim nela. Ajustava-se aos quadris e ao busto na medida certa, mas não tanto a ponto de chamar atenção de verdade. Era um pouco curto, porém nada que a deixasse terrivelmente desconfortável.
Quando Elaina saiu do banheiro, Charise soltou um assobio e começou a fazer gracinhas, cantando ela.
Elaina pegou um travesseiro e arremessou na amiga, o que fez Charise cair na risada.
— Agora, senta para eu fazer sua maquiagem. — Charise exigiu, puxando a cadeira da penteadeira.
— Espera, o quê? — Elaina perguntou, arregalando os olhos.
— Você não falou nada sobre ter que usar maquiagem.
Charise suspirou, perdendo a paciência com a melhor amiga. — Isso aqui é meio que um baile, lembra daqueles de que falavam pra gente quando éramos crianças?
Elaina assentiu. — Sim, mas o que isso tem a ver comigo usar maquiagem?
— Só deixa eu fazer o que eu sei fazer melhor. — insistiu Charise, pegando um estojo.
Fechando os olhos, Elaina deixou Charise atacar o seu rosto e, sem aviso nenhum, ela partiu para o cabelo também.
Elaina tentou protestar, mas Charise apenas a silenciou com um resmungo irritado.
— Abre os olhos. — Charise bateu palmas, enfim terminando. Ela deu um passo para trás e examinou Elaina, sorrindo com orgulho. — Você está fabulosa.
Elaina abriu os olhos e se virou para encarar a si mesma no espelho.
Um suspiro espantado escapou de seus lábios ao encarar a estranha diante dela. Charise conseguira definir as ondas escuras do cabelo, fazendo com que emoldurassem o rosto ainda mais do que de costume e caíssem com graça pelas costas e pelos ombros. A pele dela parecia de porcelana, muito clara, exceto pelo tom rosado no alto das maçãs do rosto. Os olhos estavam contornados de prata, fazendo o azul saltar ainda mais, e os cílios pareciam cheios e longos, lançando sombra sobre seus olhos grandes demais.
Uma tontura tomou Elaina, que desabou de volta na cadeira, com lágrimas ameaçando cair.
— O que foi? — Charise perguntou, preocupada. — Você está bem? Está se sentindo mal?
— Parece que eu estou olhando para a minha mãe. — sussurrou Elaina, se recusando a encarar o reflexo de novo. — Eu estou igualzinha a ela.
Charise pousou uma mão reconfortante no ombro de Elaina. — Sua mãe ficaria tão orgulhosa da mulher que você se tornou, Elaina.
— Você acha mesmo? — Elaina perguntou, fungando.
— Claro. — disse Charise. — Você é linda, forte e uma guerreira durona pra caramba. Do que não teria orgulho?
Elaina pensou nisso e então sorriu. — Eu sou bem durona, né?
— E cheia de si; tinha esquecido essa parte. — Charise disse, rindo. — Agora anda, ou vamos nos atrasar para esse encontro.
Elaina assentiu enquanto se levantava, então olhou para os pés, ainda descalços. — Por acaso você não teria uns sapatos pra eu pegar emprestado, teria?
Charise abriu um daqueles sorrisos maliciosos. — Mas é claro que tenho.
