Capítulo 4

Ao redor, entre a multidão, criaturas negras irromperam dos arbustos, os olhos vermelhos em brasa enquanto todos corriam para se proteger.

Elaina observou enquanto os supostos guerreiros se atrapalhavam ao redor dela.

Chutando os sapatos para longe, ela encarou de frente a fera mais próxima. A criatura guinchou na cara dela, expelindo um gás sulfuroso que a fez ter ânsia por um instante.

Uma sensação de rasgo subiu pelo braço de Elaina, mas ela não se importou. Erguendo a adaga, ela golpeou o peito da besta, fazendo-a cambalear para trás.

Ela soltou um grito terrível quando mais dois de seus “amigos” vieram se juntar a ela.

Elaina firmou a postura, pronta para enfrentar a próxima criatura que viesse.

Um guincho soou atrás dela. Virando-se rápido, Elaina se esquivou da fera que avançava em sua direção.

À esquerda, Charise vinha ao encontro dela com a espada em punho. Grata pela amiga, Elaina atacou a criatura mais próxima, abrindo o pescoço dela num corte.

A besta berrou antes de desabar no chão.

Por um momento distraída, outra a arranhou nas costas com as garras, fazendo Elaina gritar de surpresa.

Com a raiva ardendo, ela se virou depressa e cravou a adaga direto no coração da criatura.

Agora sem arma para lutar, Elaina se preparou para enfrentar as criaturas com as próprias mãos.

Alguém gritou à direita; ela se virou a tempo de ver Chase correndo até ela, com duas espadas nas mãos. Ele enfiou uma na direção dela antes de se virar e encarar uma das feras.

Pega desprevenida, Elaina mal teve tempo de reagir à criatura que mergulhava sobre ela, vinda de cima. Guinchando, ela se lançou contra Elaina, e as duas despencaram rumo ao chão.

Elaina sentiu o ar escapar dos pulmões por um instante enquanto a besta arranhava e estalava os dentes perto do rosto dela. Tentando ao máximo, ela não conseguiu impedir que a criatura fisgasse seu pescoço.

Faíscas de fogo atravessaram o corpo de Elaina quando o veneno entrou no seu organismo. Pontos negros começaram a dançar diante de seus olhos enquanto a criatura mantinha o aperto. Então, com um guincho, ela se foi, e Charise estava de pé acima dela, estendendo uma mão.

Tossindo, Elaina segurou a mão e se levantou com os joelhos bambos. Precisaria tirar o veneno do corpo antes que causasse algum dano maior.

— SÃO MUITOS! — gritou o pai de Charise, recuando na direção da segurança do instituto.

— Não, a gente tem que lutar. — Elaina gritou, incapaz de acreditar que um guerreiro já velho desistiria com tanta facilidade.

— Elaina, você vai acabar se matando. — Charise arfou.

Sem dar atenção aos protestos de Elaina, Charise a puxou na direção do instituto.

Para o choque absoluto de Elaina, Chase a agarrou e a jogou por cima do ombro, seguindo Charise para dentro.

Dizzy demais, Elaina perdeu a vontade de lutar.

— Você está bem? — Charise perguntou quando Elaina escorregou do ombro de Chase para o chão e não conseguiu se levantar.

Em resposta, Elaina mostrou o pescoço a Charise. A cor sumiu do rosto dela ao perceber o que tinha acontecido.

— A gente precisa de um curandeiro agora. — Charise gritou, levantando-se. — A Elaina foi mordida.

Ao redor, Elaina conseguia ouvir pessoas arfando e, depois, gritando por ajuda. A noite em que seus pais morreram invadiu sua cabeça sem ser chamada, os mesmos berros ecoando enquanto a casa queimava.

Aos poucos, a tontura voltou e levou Elaina para a escuridão junto com ela.

A fera irrompeu do prédio em chamas. As pessoas gritavam e corriam para se proteger. A garotinha tentou se arrastar na direção da criatura, mas mãos fortes a mantiveram imóvel. Ela tentou com todas as forças, mas as mãos simplesmente não a deixavam ir.

Soltando um grito de angústia, ela tombou para trás.

Acima dela, a fera gargalhava, satisfeita, sabendo que havia destruído a única coisa com que a garotinha se importava, sabendo que arruinara a vida dela para sempre ao tirar seus pais.

Soluços explodiram da menina enquanto ela se agarrava aos braços que a envolviam. Eles a apertavam com força e acariciavam seu cabelo, dizendo que tudo ficaria bem, que tudo o que ela precisava fazer era acordar.

Ofegante, Elaina se sentou num sobressalto na cama, o coração martelando no peito. O suor escorria pela pele, fazendo seu cabelo espesso grudar na testa e no pescoço.

Ainda arfando, Elaina olhou ao redor, atordoada, incapaz de aceitar exatamente onde estava.

Alguém estava sentado ao lado dela, observando-a com interesse. Por mais que tentasse, Elaina não conseguia focar direito na pessoa.

Por fim, sua mente começou a processar do jeito que deveria, e ela reconheceu o rosto do homem ao seu lado.

— A bela adormecida acorda — disse Chase, sorrindo. — A gente estava começando a achar que a besta de burlack tinha te injetado veneno demais.

Elaina tentou se sentar, mas a tontura a venceu.

— Onde eu estou? — perguntou, em vez disso.

— Na enfermaria. Os irmãos acham que talvez não seja uma boa ideia sair daqui, sabe como é, força na quantidade, esse tipo de coisa. — Chase se espreguiçou, displicente, na cadeira.

— Cadê a Charise? — Elaina insistiu. — Por que você está aqui e não ela?

— Ela está numa reunião. Estão decidindo qual deve ser o próximo passo. Um ataque em solo sagrado é… bem sério, Elaina.

— Matem todos eles. — Elaina tentou se sentar de novo. Dessa vez, conseguiu se apoiar nos cotovelos. — Há quanto tempo eu apaguei?

— Uma semana — respondeu Chase. — Como eu disse, por um tempo a gente achou que o melhor era tirar você do antídoto e deixar a natureza seguir o curso.

— Você quer dizer me deixar morrer? — A raiva se acendeu no peito de Elaina. — Provavelmente teria sido melhor.

— Você ficou falando de um fogo e de uma criatura enorme — disse Chase, devagar. — Isso é… quer dizer, foi assim que…?

— Meus pais morreram? — Elaina completou por ele. — Sim. Foram mortos por uma fera sem nome, maior do que uma casa e praticamente indestrutível. Agora você já sabe tudo sobre a minha infância contaminada.

— Ei. — Chase pareceu como se ela tivesse lhe dado um tapa. — Desculpa. Eu só estava me perguntando… você não precisava me contar tudo isso.

Cansada demais, Elaina desabou na cama outra vez.

— Está todo mundo bem? Se uma daquelas criaturas imundas me mordeu, eu espero que tenha sido pelo menos por um bom motivo.

— Sim, está todo mundo bem. — Chase a encarou de um jeito estranho. — Você foi, tipo… a única pessoa atrás de quem eles foram.

Isso chamou a atenção de Elaina.

— Como assim eu fui a única pessoa atrás de quem eles foram?

— Quero dizer… — Chase disse. — Eles não deram a mínima para mais ninguém. Todos foram na sua direção.

— Então tá. — Elaina anunciou, tentando se sentar outra vez. — Eu tenho a solução perfeita para esse problema e para qual deve ser o próximo passo.

— Qual? — perguntou Chase, genuinamente curioso.

— Eu vou embora. Se eu não estiver aqui, essas criaturas não devem voltar. — Elaina falou simplesmente, jogando as pernas para fora da cama. — Considere isso o meu sacrifício.

Chase a encarava como se ela tivesse perdido a cabeça, com uma expressão de horror no rosto.

— Você não pode estar falando sério.

Elaina se virou para ele.

— Ah, mas estou. Pergunte à Charise: eu não brinco com nada. Nunca.

De pé, com as pernas bambas, Elaina se encaminhou para a porta. Chase pulou na frente na mesma hora, bloqueando sua passagem. Ela lançou um olhar fulminante e tentou empurrá-lo, mas ele era muito mais forte do que ela — especialmente porque ela tinha passado a última semana praticamente morta.

Suspirando, Elaina olhou para a janela e uma ideia lhe ocorreu.

— A enfermaria fica no segundo andar, né? — perguntou, com a maior inocência.

Chase franziu a testa.

— Sim, por quê?

Usando o pouco de força que ainda tinha, Elaina se lançou em direção à janela, que Chase, felizmente, havia deixado aberta.

Por um instante, não sentiu nada sob si; então despencou em direção ao chão.

Encolhendo os joelhos, ela deu uma cambalhota no ar e pousou com os pés primeiro. Ficou de pé, acenou para Chase e saiu disparada pelo jardim da frente, atravessando os portões e indo embora.

Ela ouvia ele gritando atrás dela, mas não se importava. Chase tinha dito que as bestas não prestavam atenção em mais ninguém, só nela; isso significava que, apesar do que qualquer um dissesse, ela precisava sair dali para salvar vidas inocentes.

Os gritos continuaram e, por um instante, pareceu que estavam se aproximando, mas não podia ser. Chase não teria coragem de pular por aquela janela — pelo menos, ela não achava que teria.

Com medo demais de olhar para trás, Elaina acelerou o passo e continuou correndo, usando o último fiapo de energia para se lançar adiante.

As árvores viravam borrões ao redor enquanto ela corria. No entanto, os gritos não paravam, e Elaina imediatamente praguejou contra quem a perseguia.

Por que ele se importaria com o que aconteceria com ela, afinal? Ele não a conhecia, não tinha motivo algum para se importar se ela vivia ou morria... mas então mãos agarraram seus ombros e ela foi puxada para trás.

Ofegante, tentou se soltar do aperto dele, mas estava fraca demais. Desistindo por completo, virou-se e o encarou.

O rosto de Chase estava vermelho de tanto correr e havia um corte recente na bochecha — provavelmente de quando esbarrou num galho.

A fúria ardia em seus olhos verdes.

— Você é maluca ou suicida? — exigiu, sacudindo-a de leve.

Elaina rosnou e bateu nas mãos dele para afastá-las.

— Como você se atreve a encostar em mim! — ela berrou. — Por que você se importa, afinal?

— Como guerreiro, nós juramos proteger os nossos do perigo e de ferimentos. Eu vejo assim: você é uma guerreira como eu e está se jogando direto nas mãos dos irmãos sombrios — anunciou Chase, exasperado. — Eu não vou deixar você fazer uma idiotice dessas.

— Quem liga? — Elaina retrucou. — Não é como se alguém fosse sentir minha falta se alguma coisa acontecesse. Claro, a Charise ia ficar chateada, mas vamos combinar: a Charise é meio dramática. Não é como se eu tivesse família que fosse sentir minha falta.

Em vez de responder, Chase apenas continuou encarando-a como se ela tivesse crescido uma segunda cabeça.

Por fim, desistindo, ela se virou e começou a caminhar de volta na direção do templo.

Atrás dela, Chase soltou um suspiro satisfeito e começou a segui-la.

Eles caminharam em silêncio, nenhum dos dois com muita vontade de conversar. Embora Elaina soubesse por que não queria falar com Chase, não fazia ideia de por que Chase não queria falar com ela.

— Sabe... — disse Chase por fim, num tom casual. — Aquilo foi um pulo e tanto lá atrás. A maioria das pessoas teria, no mínimo, torcido o tornozelo ou quebrado alguma coisa. Você foi como um gato, caindo fácil em pé. Fiquei impressionado.

— A Charise e eu costumávamos pular do telhado dela por diversão, então não foi nada demais, pra falar a verdade — disse Elaina, simplesmente, dando de ombros. — Agora, se eu tivesse tentado pular do quarto ou do quinto andar de algum lugar, aí talvez fosse diferente.

— Você alguma vez para pra pensar no que está fazendo ou só reage sem nem um minuto de hesitação? — continuou Chase, obviamente querendo evitar que o silêncio voltasse.

Elaina pensou por um momento.

— Não sei. Nunca parei muito pra pensar nisso. Eu só faço o que meu corpo manda eu fazer.

— Então você tem reflexos muito bons?

Aparentemente, ele simplesmente não ia deixar o assunto morrer.

Puxando o ar, irritada, Elaina acelerou o passo, querendo apenas chegar ao templo e se afastar daquele homem.

De volta ao seu quarto no templo — o mesmo em que dormia quando era criança —, Elaina se jogou na cama, e os lençóis brancos se inflaram ao redor dela. Lembrou-se de quando era pequena e imaginou que aqueles lençóis eram nuvens flutuando ao seu redor enquanto ela adormecia e despertava.

Os monges tinham pintado o teto de azul para que ela pudesse ficar olhando e imaginar que era o céu. As paredes ainda exibiam as flores de mentira que ela mesma tinha desenhado nelas.

Ela também queria ter um carpete felpudo verde, para sentir como se houvesse grama sob seus pés, mas os monges traçaram um limite ali. Em vez disso, o chão era apenas de madeira dura e simples, com um tapete branco no meio.

O quarto guardava muitos vestígios da infância dela: livros alinhados com cuidado numa estante e desenhos que ela tinha colorido, presos de qualquer jeito nas paredes. Brinquedos descansavam num baú no canto, e algumas de suas primeiras armas ainda estavam espalhadas pelo chão.

Suspirando, Elaina fechou os olhos e tentou se deixar levar agora. Lampejos de seus pesadelos apareceram, fazendo o coração acelerar e o suor brotar em seu rosto. Por mais que tentasse, simplesmente não conseguia empurrar as imagens para o fundo da mente.

Desistindo, ela se levantou e pegou duas de suas adagas de arremesso. Olhando ao redor do quarto, encontrou o velho boneco de treino escondido no armário, coberto por uma camada grossa de poeira. Com um esforço, conseguiu arrancá-lo de baixo das pilhas de tralha que o encobriam e o puxou para o meio do quarto.

Dando um passo para trás, posicionou as adagas nas mãos e respirou fundo.

Com um rápido movimento do pulso, lançou a adaga contra o boneco; ela se cravou com suavidade no peito. Fazendo o mesmo com a segunda, acertou mais uma vez exatamente no mesmo lugar.

Insatisfeita, Elaina pegou as adagas de novo e começou a golpear o boneco, determinada a rasgá-lo em pedaços.

A frustração subiu, e logo lágrimas de raiva começaram a encher seus olhos.

Com um grito, ela cortou o boneco à sua frente, imaginando-o como a fera em sua cabeça que havia levado seus pais.

Ofegante, caiu no chão e começou a chorar. Por muito tempo, Elaina ficou ali, chorando, deixando toda a frustração que sentia escorrer aos poucos para fora dela. A frustração de por que precisava lutar dia após dia, por que fora escolhida para aquela vida e, acima de tudo, por que não podia ser normal. Todos os pensamentos que mantinha enterrados lá no fundo, devagar, mas com certeza, foram vazando.

Quando finalmente se acalmou, olhou ao redor. Flocos brancos estavam espalhados como montes de neve por toda parte. Em algum momento, ela tinha decepado a cabeça do boneco, e a cabeça estava num canto, com a adaga ainda enfiada na têmpora.

Com choque, percebeu que a outra adaga ainda estava em sua mão, a lâmina voltada para a própria palma. O sangue escorria livremente ao redor dela.

Suspirando, ela a largou e olhou para o talho comprido que tinha feito.

Sem querer preocupar ninguém, vasculhou debaixo da cama em busca do kit de primeiros socorros que mantinha escondido em segredo. Ao puxá-lo, enfaixou depressa a mão machucada, desinfetando duas vezes para ter certeza de que não ficaria nenhuma infecção.

Limpar a bagunça levou muito mais tempo do que ela esperava; a luz do sol, que antes brilhava intensamente por todo o quarto, agora entrava inclinada pelo chão, mostrando que o sol começava a se pôr.

Terminada a tarefa, Elaina foi até a janela e, com facilidade, puxou as cortinas para abrir, deixando entrar ainda mais luz.

Por muito tempo, ficou ali sentada, encarando o céu enquanto o sol deslizava lentamente abaixo do horizonte, deixando para trás uma noite de outono límpida.

Era difícil acreditar que, apenas uma semana antes, o templo fora atacado e as coisas haviam mudado tão completamente.

Elaina ainda achava que ir embora seria o melhor a fazer para salvar seus companheiros guerreiros e o lar de sua infância, mas Chase deixara perfeitamente claro que aquilo simplesmente não era uma opção.

A mente dela voltou para Chase, pensando repetidas vezes no motivo de ele não ter permitido que ela partisse. O primeiro encontro dos dois fora um desastre total, com ele deixando claro que não tinha lá grande consideração por mulheres. Ainda assim, ele lutara ao lado dela na noite em que as feras de burlack atacaram, e ele estivera lá quando ela finalmente despertou de seus sonhos cheios de veneno.

Por que ele fizera aquilo? Ele nem a conhecia, e ela não tinha sido nem um pouco gentil com ele; mesmo assim, precisava admitir que apreciara o gesto e, por alguma razão que não conseguia explicar, era grata por ele tê-la feito voltar ao templo, exigindo que todos permanecessem juntos.

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