Capítulo 5
A semana seguinte passou num borrão de reuniões e treinamentos. Os monges ainda se recusavam a deixar qualquer um dos guerreiros ir embora, insistindo, repetidas vezes, que todos estavam mais seguros juntos.
Elaina começou a conhecer melhor seus companheiros guerreiros do Norte, decidindo que era melhor entendê-los do que evitá-los completamente. Embora houvesse um guerreiro que ela evitava: Chase.
Ele tentara falar com ela no primeiro dia em que o treinamento começou, mas Elaina insistira que tinha outro lugar para estar e disparara para fora pela porta.
Ela também não via muito Charise; os monges haviam feito a outra garota dormir num quarto separado do dela. Na visão dos monges, quanto menos laços qualquer um deles tivesse com os outros, mais fácil seria lutar quando chegasse a hora. Não era que estivessem sendo maldosos; era simplesmente a melhor escolha para todos, porque, se você levasse apegos para a batalha, podia acabar morto ao tentar ajudar um amigo.
Tudo no templo e no mundo dos guerreiros se resumia a lutar e defender a causa.
Ao fim da semana, Chase finalmente desistiu de tentar falar com Elaina, entendendo o recado e dando a ela seu espaço.
Elaina ficou grata e decidiu que era melhor esquecê-lo de vez.
Agora, enquanto ela estava sentada à toa no jardim, aproveitando o sol, uma sombra surgiu sobre ela, arrancando-a do exercício de memorizar algumas novas táticas de batalha que aprendera mais cedo naquele dia.
— Ei, sumida.
Era Charise, sorrindo e bebendo de uma garrafa de água.
— Tenho a impressão de que os monges estiveram de propósito me mantendo longe de você. Como você tem passado?
Elaina ponderou.
— Já estive melhor, eu acho.
Era o máximo de sinceridade que conseguia ter com a amiga. Apesar de ter concordado em ficar, Elaina ainda considerava fugir às escondidas na calada da noite.
— Só estou bem dolorida por causa do treino corpo a corpo de hoje. Aqueles guerreiros do Norte realmente batem forte.
Charise riu e se sentou.
— Nem me fale. Ontem eu achei que o Chase tinha me dado um olho roxo, mas dei sorte. Meu rosto, como você sabe, é meu ganha-pão. Preciso dele inteiro.
— Boa sorte com isso — murmurou Elaina. — No nosso trabalho, cicatrizes e hematomas vêm no pacote.
— Eu sei — Charise deu de ombros e tomou mais um gole de água. — Só estou dizendo que seria bom evitar isso pelo maior tempo possível. Embora, do jeito que as coisas têm ido, eu acho que talvez eu dê sorte.
Elaina estremeceu.
— Baixar a guarda é o pior erro que você pode cometer. Nunca presuma nada. Nada é certo.
A voz do Irmão Benjamin surgiu, sem ser chamada, na cabeça de Elaina, dizendo exatamente aquilo quando ela era muito mais jovem. Depois da morte dos pais, as bestas tinham parado de atacar; é claro que ela presumira que talvez finalmente tivessem conseguido o que queriam e tivessem terminado. Um dia depois, houve um ataque enorme ao antigo bairro dela outra vez; o que restara da casa dos pais foi completamente destruído, sem sobrar nada. Seja o que for que a besta tinha ido buscar ali, não tinha encontrado, e tentara encontrar de novo.
Não era a primeira vez que Elaina se perguntava o que exatamente os guerreiros sombrios queriam; nenhuma das casas dos outros guerreiros havia sido atacada ou destruída. Só a dela. O que a levava de volta a se perguntar por que, exatamente, os monges achavam melhor manter todos confinados no templo.
A casa de nenhum guerreiro era atacada; os guerreiros sombrios não se importavam o bastante com isso. Preferiam atacá-los quando estivessem desprevenidos.
— Alô? Elaina, na Terra. — Charise acenava com a mão na frente do rosto de Elaina, tentando chamar sua atenção.
Elaina sacudiu a cabeça e sorriu para a amiga.
— Desculpa. Achei que tinha visto alguma coisa ali. — disse, sem convicção.
Charise arqueou uma sobrancelha. “Claro que fez. Tem alguma coisa que queira me contar?”
Elaina estudou o rosto da amiga; Charise parecia muito séria enquanto a encarava.
“Deixa eu adivinhar”, Elaina começou, suspirando. “Você falou com o Chase em algum momento essa semana e ele te contou tudo sobre a minha tentativa de fuga.”
Charise assentiu. “Por que você sequer pensaria em fazer uma coisa tão estúpida?”
“Porque o Chase disse que as feras só estavam atrás de mim. Elas não tinham absolutamente nenhum interesse no resto de vocês, então eu pensei que, se eu me tirasse da equação, todos vocês poderiam voltar a viver suas vidas confortáveis”, Elaina respondeu com displicência. “Eu estava fazendo um favor para todos vocês, na verdade.”
“Quem você acha que está enganando?”, Charise perguntou, fazendo o máximo para manter a voz firme. “Você realmente acha que ninguém se importaria se você sumisse e, algum dia, fosse encontrada morta?”
“Na verdade, não...”, Elaina começou.
Charise a interrompeu com um olhar fulminante. “Você é minha melhor amiga desde antes de eu saber andar. Eu ficaria absolutamente devastada se você sumisse. E, muito provavelmente, eu sairia por aí caçando você. Nunca mais pense em fazer uma coisa dessas, está me ouvindo?”
Elaina observou a amiga com cuidado. Seus olhos escuros ardiam, e as bochechas tinham corado de leve. O jeito calmo de sempre tinha sumido por completo.
“Ok. Eu vou ficar aqui e ser uma boa guerreira. Melhor?”
Irritada e pronta para esmagar o Chase por ter falado com Charise sobre aquilo, Elaina se levantou e se espreguiçou. “Vou entrar. Daqui a pouco tenho meditação e quero chegar antes que peguem todos os bons colchonetes.”
Charise não disse nada; apenas continuou encarando Elaina.
Ela sabia que Charise seria uma das pessoas chateadas, mas achou que ela superaria — como superava os muitos namorados.
Por um tempo as coisas eram ótimas e então ele ia embora. Charise ficava abalada por, talvez, um ou dois dias e depois voltava a ser ela mesma, indo ao clube do bairro em busca do próximo “sabor”.
Elaina sabia que a amizade delas era mais forte do que isso; elas já tinham passado por tanta coisa juntas.
Charise estivera ao lado dela quando ela chorou a morte dos pais e lutara e treinara junto com ela. Sabia todos os segredos de Elaina e a conhecia por completo, algo que ninguém mais jamais tinha conseguido.
Olhando para a amiga mais uma vez, ela se apressou para dentro, querendo fugir da sensação estranha que se espalhava por ela.
“Inspire profundamente e expire... imagine algo tranquilo, algo que te traga alegria.”
A voz do Irmão Isaac chegou até Elaina, que estava com os olhos bem fechados.
Ela tentou fazer o que mandavam, tentou bloquear tudo o que corroía sua mente.
A conversa com Charise ainda fresca na cabeça; o jeito como a amiga a olhara quando a confrontara por tentar fugir; o lampejo de quase mágoa que passara por seus olhos antes de a raiva assumir.
Elaina sabia que, com o tempo, Charise superaria, mas ela nunca a tinha visto tão brava, especialmente com ela.
Então Chase voltou, sem ser convidado, e uma raiva tão intensa, tão branca, se acendeu que Elaina precisou puxar o ar com um tremor para se acalmar.
Ninguém jamais despertava tanta raiva em Elaina — nem mesmo os irmãos, quando a repreendiam na infância por ela ter cometido algum erro.
Normalmente, os castigos envolviam palmadas ou isolamento, dependendo do tamanho da falha.
Ela já tinha ficado com raiva, furiosa até. Uma vez, chegou a socar a parede e abrir um buraco depois de ter ficado no isolamento por mais de uma hora. Aquela raiva não se comparava à raiva que sentia agora; era completamente nova, estranha.
“Elaina, concentre-se.” A voz do Irmão Isaac estava bem ao lado dela.
Assustada, os olhos de Elaina se abriram de supetão, e ela encarou o rosto abatido do irmão.
O Irmão Isaac era o mais velho dos guerreiros brancos.
Normalmente os irmãos viviam pelo menos até os cem anos; o irmão Isaac estava beirando os 103 e ainda assim parecia tão cheio de vida. Seus olhos vidrados a observavam com atenção.
— Desculpe — sussurrou Elaina, corando intensamente.
Alguns dos guerreiros sentados ao redor dela haviam parado de meditar e olhavam em sua direção. Ela lançou um olhar para eles antes de fechar os olhos e inspirar profundamente.
Mais uma vez, tentou deixar tudo escorrer para fora de si, todos os pensamentos de raiva e mágoa se indo como um rio. Seguiu a luz branca e tranquilizadora que começava a se formar em sua mente.
Logo, viu-se flutuando para um estado de vazio. Pequenos lampejos tentavam se transformar em imagens, mas Elaina não permitiu que viessem do jeito que queriam.
Normalmente, quando meditava, ela via coisas — coisas que não conseguia entender direito e não tinha vontade de comentar com ninguém. Flashes de um campo, a luz do sol tão forte que fazia a grama ficar de um verde tão vivo que parecia irreal.
Seus pais estavam à sua frente, de costas para ela, encarando alguma coisa. Eles se viraram só para se certificar de que ela estava distraída — e estava; brincava com um coelhinho branco que tinha pulado até seus pés. Os bigodes dele tremiam freneticamente enquanto ela estendia a mão para ele.
Ela ouvia sussurros ao redor, mas continuava prestando atenção no coelho, tão fascinada pela criaturinha que não se importava com o homem sombrio com quem seus pais conversavam.
De vez em quando, ela ouvia um suspiro engasgado e se encolhia, assustada.
Por fim, ergueu os olhos quando o homem entregou algo embrulhado em seda à sua mãe, que o enfiou apressada num bolso, voltando a olhar para Elaina.
Ao perceber que a filha a observava, ela empalideceu; toda a cor sumiu completamente.
O homem sombrio capturou o olhar de Elaina; os olhos dele brilharam num vermelho intenso. Ele sorriu, exibindo dentes afiados como lâminas, e bateu as mandíbulas, o que fez um grito escapar da boca dela.
Rindo, ele se ergueu à altura total e abriu imensas asas negras. Pareciam feitas de couro quando o sol reluziu sobre elas. Com mais um sorriso perigoso, ele desapareceu, deixando apenas ela e seus pais no campo novamente.
Ofegante, Elaina abriu os olhos; agora todos a observavam com expressões confusas no rosto. Sua respiração vinha em sopros curtos e rápidos, e o suor escorria de sua testa. O irmão Isaac ajoelhou-se ao lado dela, segurando sua mão e murmurando palavras tranquilizadoras. Incapaz de entender de verdade a cena ao redor, Elaina se levantou depressa, fez uma reverência uma vez e saiu correndo do templo, deixando perguntas sem resposta.
Ela continuou correndo até se ver na biblioteca, arfando desesperadamente por ar. Elaina diminuiu o ritmo e tentou pensar, tentou dar sentido ao que acabara de ver.
Com certeza seus pais não tinham conspirado com os guerreiros sombrios; aquilo simplesmente não era possível.
Sentindo-se fraca, ela desabou numa cadeira, a cabeça caindo entre as mãos.
— O que foi aquilo? — exigiu uma voz atrás dela.
Agora não; qualquer outro momento, menos agora. Elaina pensou, desesperada, preparando-se para lidar com Chase, que por acaso estava ali quando ela surtou durante a meditação.
— Por favor, vai embora — disse Elaina, sem se dar ao trabalho de levantar a cabeça. — Eu realmente não quero ser incomodada.
Ouviram-se passos e, em seguida, uma cadeira sendo puxada ao seu lado.
Ela espiou e viu Chase se sentando ao lado dela, com uma expressão de confusão no rosto.
— O que aconteceu lá atrás? — ele insistiu. — Você começou a se contorcer e a gritar, e então simplesmente se levantou e foi embora.
— Eu já disse que não quero falar sobre isso. — Elaina retrucou, recompondo-se. — Você é burro ou só teimoso?
Chase apenas lançou um olhar fulminante, os olhos verdes faiscando.
— Você está me evitando a semana inteira e aí simplesmente surta na meditação. O que está acontecendo com você? — ele pressionou.
— Por que você se importa? — Elaina gritou, virando-se contra ele. — Você não me conhece e não é meu amigo. Por que continua tentando me incomodar?
— A Charise está com medo demais pra sentar e conversar com você de verdade. Ela se importa com você, sabia? Mesmo que você se recuse a aceitar. Se você nem consegue falar com ela, então tem alguma coisa muito errada. — Um olhar de determinação atravessou o rosto de Chase, e Elaina soube que ele não ia largar o assunto.
Ela suspirou, vencida. — O que te faz pensar que eu vou falar com você, então, se eu nem falo com a minha melhor amiga?
Por um segundo, Chase não disse nada; apenas estudou Elaina como se ela fosse algo que ele nunca tinha visto antes.
— Achei que um ouvido imparcial seria melhor — disse, por fim, dando de ombros.
— Você achou errado.
— Você sabe que não engana ninguém.
Chocada, Elaina lançou outro olhar para Chase. Quem esse cara pensava que era para falar com ela daquele jeito? — Do que você está falando?
— Essa pose toda de “eu não ligo” e “não preciso de ninguém” que você tenta manter... você não engana ninguém com isso, não. Eu sei que por baixo tem uma garota apavorada se escondendo dos próprios problemas. — Ele disse isso já se levantando. Com mais um olhar, foi embora, deixando Elaina sozinha de novo.
Chocada demais para dizer qualquer coisa, ela ficou olhando até Chase desaparecer entre as estantes de livros.
Elaina não sabia se devia ficar com raiva ou ser grata; naquele momento, sentia uma mistura dos dois.
Ela sabia, em algum lugar dentro de si, que Chase esperava que ela se levantasse num salto e fosse atrás dele exigindo uma explicação sobre o que ele tinha dito a respeito dela, mas Elaina não ia lhe dar essa satisfação. Em vez disso, permaneceu onde estava, fazendo o possível para limpar a mente.
Por quê?, pensou então. Por que tudo estava acontecendo agora? Durante doze anos, ela só enfrentara feras menores, derrotando-as com facilidade. Nunca acontecera nada sério; então, do nada, o inferno começou a se soltar. Não fazia sentido. Talvez tivesse algo a ver com a união dos guerreiros, mas isso ainda não explicava por que as piores feras finalmente estavam dando as caras.
De novo, a voz do Irmão Benjamin surgiu na cabeça dela, lembrando-a de nunca baixar a guarda.
Sempre se falara de uma batalha gigantesca entre a escuridão e a luz, mas Elaina sempre achara que isso aconteceria um dia, quando ela estivesse velha demais para participar. Ela dizia a si mesma que estaria sempre preparada, mas agora, ao perceber que parecia que ia acontecer mais cedo do que esperava, sentiu uma pontada de medo — algo que nunca tinha sentido antes. Claro, ela já tinha sentido dor e tristeza, mas nunca, nem uma vez, tivera medo.
Depois da morte dos pais, ela perdera toda a vontade de viver, sem se importar se um dia não acordasse. Atirou-se nas batalhas tentando bloquear tudo o que sentia, e tinha funcionado.
Ela se sentia invencível, como se nada pudesse tocá-la, mas depois de ser mordida por uma fera burlack e quase morrer por causa do veneno, já não tinha tanta certeza de que estava realmente pronta para morrer, pronta para abrir mão de tudo o que tinha. Mesmo que tudo o que tivesse fossem os irmãos e Charise, ainda era o suficiente para querer viver.
De pé, Elaina se espreguiçou e balançou a cabeça uma vez. Tudo o que queria era ir para o quarto e desaparecer num sono abençoado. Sabia que, quando a manhã chegasse, teria de se explicar: os irmãos iam querer saber o que a tinha assustado tanto. Mas, por enquanto, ela encontrou conforto na solidão que a consumia.
Caminhando devagar, saiu da biblioteca, olhando para trás apenas uma vez, para as estantes cheias de livros cobertos de poeira; depois apressou-se escada acima, até onde ficavam os dormitórios, puxou a porta com força demais e entrou, desaparecendo lá dentro sem se dar ao trabalho de acender as luzes. Ainda totalmente vestida, desabou na cama e fechou os olhos.
