Capítulo 6

— Acorda.

A voz áspera arrancou Elaina do sono e, meio desajeitada, ela tateou em busca do abajur na mesinha de cabeceira. Quando enfim o encontrou, se encolheu com o clarão agressivo.

Charise estava ao lado da cama, com uma expressão muito séria, as mãos na cintura.

— O que você está fazendo aqui? — Elaina resmungou, conferindo o relógio. — A essa hora, inclusive, que é quando pessoas normais dormem.

— Eu fui acordada pelo Chase, que insistiu que eu precisava vir falar com você imediatamente — disse Charise, bocejando.

Elaina reparou no pijama rosa e no cabelo todo desgrenhado. Ainda havia olheiras escuras sob os olhos; era óbvio que ela também não tinha acordado fazia muito tempo.

— Ele está no corredor, não está? — Elaina perguntou, em vez disso. — Chase! — chamou alto. — Entra logo, assim você já diz pra nós duas por que diabos acha que a gente tem que conversar.

A porta se abriu e Chase entrou vestindo apenas uma camiseta preta e uma calça de moletom cinza. O cabelo dele estava todo espetado; parecia que também não tinha acordado fazia muito tempo.

— O que é isso? — Elaina perguntou, sentando-se na cama.

Chase suspirou, passando a mão pelo rosto.

— Eu não consegui parar de pensar no seu surto durante a meditação. Fui falar com a Charise e perguntei se você tinha, por acaso, conversado com ela depois que eu mandei.

— Não, na verdade não. Em vez disso eu fiz como qualquer pessoa normal faria: me tranquei no meu quarto e decidi tentar dormir — Elaina retrucou, irritada. — Achei que podia trazer isso à tona no almoço de amanhã, mas pelo visto essa opção não existe mais.

— Surto? — Charise perguntou, encarando Elaina com firmeza. — Você disse que aconteceu alguma coisa, alguma coisa séria. — Ela virou o olhar para Chase, que se sobressaltou de leve. — Você fez parecer sério. A Elaina tem surtos aleatórios o tempo todo.

— Ei! — Elaina protestou, virando-se para Charise, que ergueu uma sobrancelha, desafiando-a a tentar argumentar. — Deixa pra lá — disse Elaina depois de pensar um instante, voltando a atenção para Chase.

As duas observaram Chase, esperando que ele falasse. Quando ele não disse nada, Elaina se jogou de volta no travesseiro.

— Bom, se você não vai dizer nada, eu acho que terminamos por aqui. Vou voltar a dormir.

— A Elaina teve algum tipo de visão durante a meditação, e isso assustou ela pra caramba. Ela disse algo tipo “por que eles estão com ele”, e aí começou a tremer muito — Chase finalmente conseguiu encontrar a voz. — Apesar de ela agir como se não fosse nada demais, eu acho que tem alguma coisa que ela não está contando pra ninguém.

Elaina lançou a ele um olhar de pura raiva antes de se virar para Charise, observando sua reação.

Por um momento, Charise manteve a expressão tão neutra que Elaina quase se convenceu de que talvez ela não achasse isso grande coisa; mas então os olhos de Charise se estreitaram, e Elaina sentiu o próprio corpo se encolher.

— Quer explicar? — perguntou Charise, mantendo o olhar duro.

— Eu vi meus pais, só isso — Elaina respondeu, dando de ombros. — Eu vejo eles com bastante frequência na meditação. É por isso que eu parei de meditar sozinha.

— Ela é sempre tão difícil assim? — Chase perguntou a Charise, como se estivesse puxando conversa.

Charise assentiu.

— Desde que os pais dela morreram, sim, basicamente. Embora ela esteja estranha desde o ataque; pode ser porque ela não concluiu a tarefa dela de fugir.

— Ei! — Elaina rosnou, chocada com as palavras da amiga. — Eu não estava tentando fugir. Eu estava tentando fazer um favor pra todo mundo.

— Você tem sorte de o Chase ter estado por perto pra pôr juízo na sua cabeça — Charise rebateu. — Senão, provavelmente a gente já teria encontrado seu corpo em algum lugar.

Elaina se eriçou.

— Eu não teria me deixado matar. — Se tinha uma coisa que ela odiava mais do que qualquer outra, era acharem que ela era indefesa. — Talvez eu já tivesse encontrado o mandante do ataque e matado ele.

Chase e Charise caíram na risada, deixando Elaina alternar o olhar de um para o outro, de boca aberta e magoada.

Ao ver o olhar dela, eles pararam, mas continuaram sorrindo.

— Você pode achar que nada é capaz de te ferir, mas eu já vi com meus próprios olhos que você pode se machucar, como o resto de nós — apontou Chase. — Se eu não tivesse estado por perto naquela primeira noite, tenho certeza de que você não estaria aqui agora.

— Eu estaria, sim — resmungou Elaina, sentando-se de novo. — Embora eu tenha quase certeza de que aquela coisa não teria escapado.

— Tenho quase certeza de que teria escapado e teria levado você junto — rebateu Chase. — Só admite que você não é indestrutível para a gente chegar a algum lugar e voltar pra cama.

Um bocejo escapou dos lábios de Elaina.

— Você está mais do que à vontade para voltar pra cama. Particularmente, eu adoraria fazer isso também.

— Elaina Marie Mason — ralhou Charise, soando demais como a mãe dela. — Você precisa responder à minha pergunta.

— Qual? — Elaina tentou não parecer ofendida por Charise ter usado o nome completo dela, mas não estava se saindo muito bem. — Eu nem tinha percebido que tinha uma pergunta.

Balançando a cabeça, Charise murmurou algo que soou ofensivo antes de inspirar fundo.

— O que você viu durante a meditação?

No começo, Elaina não respondeu; em vez disso, avaliou as expressões das duas pessoas que a encaravam. Charise parecia irritada, mas interessada. Chase parecia relaxado, os braços cruzados sobre o peito, esperando pacientemente.

Por fim, ela falou:

— Eu estava num campo, o mesmo campo que eu vejo toda vez que tento ir para o meu lugar feliz feito uma boa garotinha. Você sabe como os irmãos fazem a gente encontrar a paz interior, então eu sempre acabo nesse campo. — Ela olhou de Charise para Chase; os dois esperavam que ela continuasse. — Enfim, meus pais estavam lá conversando com alguém, mas eu estava interessada demais nesse coelho branco idiota, como se eu nunca tivesse visto um antes. Eu brinquei com ele enquanto meus pais falavam com essa pessoa. Eu não conseguia entender nada do que saía da boca deles, mas, sinceramente, eu também não me importava. Aí ele deu para a minha mãe uma coisa que chamou minha atenção.

— O que ele deu para a sua mãe? — Chase insistiu. — Você viu o que era?

Elaina balançou a cabeça.

— Não. Estava embrulhado em seda e minha mãe escondeu bem rápido. Depois, ela olhou para trás e me pegou observando. A pessoa com quem eles estavam falando era, de fato, um guerreiro das trevas. Eu vi os olhos vermelhos, os dentes, e então ele criou asas. Ele me observou e depois voou embora, nada demais. Depois disso eu estava de volta na sala de meditação e todo mundo estava me encarando. Acho que você consegue deduzir o resto a partir daí, Chase — acrescentou, para dar ênfase.

Charise permaneceu em silêncio, com um ar pensativo.

— Você sabe se isso realmente aconteceu quando você era criança?

— Acho que não. Tenho quase certeza de que eu lembraria de algo tão sério. É um péssimo agouro um guerreiro do branco interagir com um guerreiro do negro.

Apesar das palavras, Elaina já estava revirando a mente atrás de alguma lembrança de algo parecido — mas tudo o que conseguia ver era a visão.

— Você falou com os irmãos sobre isso? — perguntou Chase. — Talvez eles possam te dizer se é irrelevante ou se é algo que você deveria tentar investigar.

Elaina lançou um olhar fulminante.

— Eu já disse que meus pais nunca fariam uma coisa dessas. É bem provável que eu só esteja estressada e por isso isso aparece na minha cabeça. Pergunta pra Charise: eu tenho uma imaginação hiperativa; na maior parte do tempo, eu não consigo distinguir o que é real do que é imaginário.

Ao lado dela, Charise soltou um longo suspiro de irritação.

— Sabe de uma coisa, Elaina? — disse, parecendo um pouco satisfeita consigo mesma.

— Não, mas tenho certeza de que você vai me contar — respondeu Elaina, esperando.

Charise sorriu docemente.

— Normalmente você fica bem sarcástica quando está preocupada. Isso aí me diz que você acha que isso pode ser algo sério, e não só uma visão.

Chocada demais para responder, Elaina abriu e fechou a boca, tentando pensar em alguma coisa para retrucar à Charise.

Do outro lado, Chase soltou uma risada curta, mas a disfarçou com uma tosse quando Elaina lançou um olhar para ele. Em vez de encará-la, ele olhou ao redor do quarto, as sobrancelhas se erguendo à medida que ia absorvendo tudo.

— Tem algum motivo para os monges te colocarem num quarto de criança? — perguntou, examinando as flores na parede. — Eu sei que eles estão sem espaço, mas podiam ter feito melhor.

— Esse era o meu quarto quando eu era mais nova — disse Elaina, indignada. — Eu queria que fosse assim.

Os olhos de Chase se arregalaram.

— Eu simplesmente não consigo te imaginar nesse quarto, nem uma versão pequena de você. É tão... — Ele procurou uma palavra, gesticulando em volta. — É tão...

— Menininho? — Elaina perguntou, docemente.

Chase assentiu.

— Se você não percebeu, eu sou uma menina.

— Eu sei, mas eu meio que te imaginava com um quarto de paredes pretas, chão vermelho, cama toda preta, armas por todo lado. Eu não consigo te ver nisso — Chase continuou, cutucando o último nervo da Elaina.

— Você não sabe nada sobre mim. Talvez eu goste da cor rosa e de coisas fofinhas — Elaina retrucou, ríspida. — Talvez eu ainda tenha uma amiga imaginária que por acaso é um unicórnio, e esse unicórnio vomita arco-íris e só come risadas e sorrisos.

Dessa vez foi Charise quem caiu na gargalhada.

— Você nem gostava dessas coisas quando era criança, Elaina. Para de deixar o Chase desconfortável.

E, de fato, Chase a encarava de olhos arregalados; talvez ele tivesse acreditado mesmo que ela fazia tudo aquilo.

— Se você olhar no armário — disse Charise, dando um tapinha no braço de Chase — vai encontrar todas as armas que estava esperando, e tenho quase certeza de que vai encontrar os restos de bonecas que estavam no lugar errado, na hora errada. A coisa mais feminina que a Elaina fez na infância foi balé, e foi porque a mãe dela insistiu.

Elaina soltou um sopro de ar com as palavras de Charise. Fazia tanto tempo que ela não pensava nas aulas de balé que aquilo a pegou desprevenida. Quando ela tinha três anos, a mãe a matriculara no balé, insistindo que aquilo faria bem a ela algum dia. Naquela idade, Elaina ainda não sabia muita coisa sobre o estilo de vida de uma guerreira, mas sabia que elas eram fortes, flexíveis e rápidas.

Ela levou o balé a sério, sabendo que, se a mãe queria que ela fizesse aquilo, então era a coisa mais importante do mundo. As aulas a ajudaram a aperfeiçoar o equilíbrio e a coordenação entre mãos e olhos. Também a deixaram graciosa e ágil. Aos cinco anos, a mãe começou a ensiná-la a incorporar o balé à luta. Elaina girava e saltava pelos percursos de obstáculos que o pai montava, sem precisar recomeçar nenhuma vez.

Por um tempo depois da morte dos pais, Elaina manteve o balé, mas quando os irmãos insistiram que aquilo tomava a maior parte do tempo dela, ela largou e passou a focar apenas em combate e técnicas com armas. Até onde Elaina sabia, provavelmente nem era mais capaz de completar nenhum dos movimentos que um dia ficaram gravados na cabeça dela.

— ...Imagina ela fazendo isso — Chase dizia agora, quando Elaina voltou à realidade num estalo. Ela tinha perdido a primeira metade da frase dele. — Acho que existe um lado especial reservado só para os amigos mais queridos dela.

Ele já estava revirando o armário de Elaina, puxando punhais e flechas soltas, jogando tudo numa pilha no chão. Tirou uma cabeça de boneca com uma estrela ninja cravada no olho e lançou um olhar para ela antes de voltar a fuçar.

— Uau, prêmio grande — disse, arrancando alguma coisa de lá. — Isso aqui é de verdade?

Elaina examinou as duas espadas longas que Chase segurava com cuidado diante dela. As lâminas estavam limpas e um pouco arranhadas; os cabos, pretos, com aberturas perto da ponta por onde ela podia passar as mãos. Acima dos buracos havia soqueiras de latão — assim, se alguém chegasse perto demais, ela teria com o que se defender.

— As soqueiras se soltam — Elaina disse, simplesmente, se deslocando para o lado para que Charise se sentasse ao seu lado. — Sinceramente, eu até tinha esquecido que elas estavam aí. Foi a última coisa que meu pai me deu antes de morrer.

— São bem fodonas, mas estão muito cegas. Você precisa investir num afiador — disse Chase, segurando uma das espadas e cortando o ar algumas vezes antes de erguê-la para olhar de novo.

Elaina conseguia ver o reflexo dele na superfície lisa da espada; elas ainda estavam quase impecáveis, já que ela não tinha tido a oportunidade de testá-las de verdade em batalha. Ela tinha praticado algumas vezes no seu boneco de treino, mas decidiu que adagas combinavam mais com ela e empurrou as espadas de volta para o armário.

Pelo jeito que Chase as encarava, como uma criança na manhã de Natal, ela quase pensou em dizer que ele podia ficar com elas, mas uma pontada de tristeza a deteve; o pai as tinha dado a ela para proteção, e ela simplesmente não conseguia se desfazer delas.

— Então isso significa que vamos fazer uma festa do pijama? — perguntou Charise, interrompendo os pensamentos de Elaina. — Quer dizer, estamos todos aqui e tal.

— Você pode ficar, mas o Chase tem que ir — Elaina respondeu com firmeza. — Tenho certeza de que os irmãos não iam gostar de você estar aqui. Só de imaginar o que eles pensariam de eu deixar um homem dormir no meu quarto...

Charise deu uma risadinha.

— Tenho certeza de que os irmãos nem iam entender o que isso significa. Eles vivem aqui a vida toda; tenho quase certeza de que nunca tiveram nenhuma interação com o sexo oposto.

— Talvez com o mesmo sexo — sugeriu Elaina, sem conseguir segurar a própria risada. — Eles devem ficar solitários e, já que estão todos aqui... — Ela deixou a frase morrer antes de ir longe demais.

— Para com isso — Charise riu, acertando Elaina com um travesseiro.

— Desculpa, minha querida amiga; você começou a passar pro meu lado e eu não consigo manter a cabeça no lugar em que ela precisa estar. — Pegando um travesseiro, Elaina acertou Charise de volta.

— Então ela é capaz de rir — disse Chase, largando as espadas que estava segurando. — Achei que ela nunca tinha aprendido.

— Cala a boca, você — Elaina retrucou, atirando um travesseiro nele. — Mais uma gracinha e eu mesma vou te jogar pra fora deste quarto.

— Sei — ele não pareceu nem um pouco abalado, rebatendo o travesseiro com facilidade.

— Isso é um desafio? — perguntou Elaina, sentindo a adrenalina começar a subir.

Antes que Elaina pudesse ir até Chase, Charise saltou de pé e se colocou entre os dois. Ela estendeu as mãos e pousou as palmas no peito de cada um, mantendo-os onde estavam.

Elaina lançou um olhar fulminante para Chase, que apenas parecia divertido. Rosnando, ela foi e se sentou de novo.

— Você já ouviu o que queria saber. Pode, por favor, ir embora agora?

Chase fingiu parecer magoado.

— E eu aqui achando que a gente tinha passado de alguma barreira e ia começar a ser amigo.

— Você achou errado — Elaina respondeu, seca. — Agora vai.

Ela apontou para a porta e o encarou com severidade.

Dando de ombros, ele suspirou, acenou em despedida e desapareceu no corredor.

Elaina continuou olhando enquanto a porta se fechava, ouvindo o som dos passos de Chase se afastando pelo corredor. Quando finalmente desviou o olhar, encontrou Charise a observando com calma.

— O quê? — perguntou Elaina, se jogando de volta contra os travesseiros.

— Nada — disse Charise, apenas balançando a cabeça.

Bocejando, ela se enfiou debaixo das cobertas, com Elaina virando de costas para ela.

Elaina também bocejou e fechou os olhos, mas a expressão no rosto de Charise continuava imóvel na sua cabeça.

Ela não sabia o que aquilo significava, mas sabia que não era nada como Charise tinha dito.

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