Capítulo 8
Elaina passou a maior parte da manhã na academia, praticando técnicas de luta.
Aos poucos, treinava manobras, imaginando o oponente rebatendo cada uma delas e então pensando em algo completamente diferente.
Puxando uma adaga de dentro da bota, ela a cortou o ar, passando de um lado para o outro. Só parou tempo suficiente para ponderar o lugar certo de cravá-la para destruir seu agressor. Com um salto gracioso, imaginou a lâmina desaparecendo dentro de um peito, perfurando o coração escondido ali embaixo.
— Pelo visto, um amigo imaginário seu morreu — disse uma voz atrás dela.
Elaina se virou para encarar Chase.
— Que pena. Eu estava imaginando que era você. — Ela deu um sorriso doce, recolocando a adaga no suporte. — Tenho que dizer: você não foi grande desafio.
— Acho que meu eu imaginário é preguiçoso. Posso te garantir que precisaria de muito mais do que isso pra sequer me derrubar. — Chase abriu um sorriso brilhante, e Elaina o observou enquanto ele tirava a jaqueta. Ao flexionar, ergueu uma sobrancelha para ela. — Quer experimentar o eu de verdade, pra comparar?
— Você só está tentando arrumar um motivo pra me provocar, senhor Gregory? — Elaina retrucou, se posicionando para qualquer ataque surpresa que Chase tentasse.
Chase continuou sorrindo.
— Eu pensei que, se a gente fizesse um ou dois rounds, você talvez finalmente largasse toda essa hostilidade que está sentindo por mim. Vale a tentativa, não vale?
Em vez de responder, Elaina deu um chute, mas Chase desviou com facilidade. Recuperando o equilíbrio, ela lançou um soco na direção da têmpora dele; mais uma vez, ele bloqueou. Jogando o outro punho, Elaina acertou o estômago de Chase enquanto ele estava desprevenido.
Ele soltou um “uuf” de ar num engasgo mais de surpresa do que de dor.
Elaina se endireitou, mãos erguidas, pronta para atacar de novo.
Sorrindo, Chase girou, mais rápido do que Elaina já tinha visto alguém se mover. Segurando o braço dela, puxou-o para trás e o imobilizou nas costas. Ofegante, Elaina se debateu tentando se soltar, mas Chase manteve uma pegada firme.
Ela continuou se contorcendo, tentando se libertar, enquanto Chase sorria, parecendo estar se divertindo de verdade com aquilo. Pensando rápido, Elaina chutou, fazendo Chase cair para trás — ainda assim, ele não soltou o braço dela.
Os dois caíram juntos no chão, Chase por baixo e Elaina por cima.
Chase rolou e retomou a vantagem. Respirando pesado, prendeu Elaina no chão.
A raiva percorreu o corpo inteiro dela, e Elaina fez o possível para se soltar, mas ele era uns bons trinta centímetros mais alto e tinha muita massa magra; mesmo com todo o treino de força dela, ele era pesado demais para tirar de cima.
— Ainda acha que eu não dou conta de você? — perguntou Chase. Ele a encarava de cima, com um sorriso no rosto.
— Você deu sorte — Elaina retrucou, ainda se debatendo. — Da próxima vez isso não vai acontecer.
Chase soltou uma risada grave que Elaina sentiu reverberar pelo corpo inteiro. Com o corpo dele colado ao dela, ela conseguia sentir cada respiração e as batidas do coração dele.
Desconfortável, ela tentou com ainda mais força se soltar. Chase, ocupado demais olhando para ela, não pareceu notar a luta.
— Dá pra sair de cima de mim? — ela disse por fim, um pouco mais agressiva do que pretendia.
— Ah. — Chase corou um pouco. — Claro. Preparada pro segundo round?
— Vem. — Elaina se levantou num salto e se colocou em guarda, pronta para recomeçar.
Em vez de dar o primeiro golpe, Elaina decidiu jogar no ataque, esperando Chase vir para cima. Avançando, Chase lançou o punho na direção dela, mas Elaina se esquivou para o lado, deixando o golpe passar voando a centímetros da orelha direita. Num movimento fluido, ela chutou, acertando em cheio o abdômen de Chase e fazendo-o cambalear para trás.
— Golpe de sorte — Chase resfolegou, se endireitando.
— Aham — Elaina riu.
Sem dar tempo para Chase se preparar por completo, Elaina avançou, socando na direção dele, mas ele desviou do ataque e tentou revidar com o próprio. Elaina derrubou o braço dele com facilidade e bateu a palma da mão no peito de Chase, mandando-o voar para trás.
Saltando, Chase avançou na direção de Elaina, determinado a derrubá-la.
Aumentando o ritmo, Chase continuou desferindo golpes contra ela, fazendo o possível para derrubá-la de novo. Elaina se agachou e chutou, fazendo as pernas de Chase voarem debaixo dele; ele bateu no piso da academia com um baque.
Atordoado demais para entender direito o que tinha acabado de acontecer, Chase sentiu Elaina pular em cima dele, apertando as coxas contra os lados do corpo dele e imobilizando seus braços ao lado.
Ela se inclinou para perto e sorriu, vitoriosa.
— Parece que você acabou de ser derrubado por uma garota — disse ela, docemente. — É isso que acontece quando você fica convencido.
Chase suspirou alto.
— Eu deixei você fazer isso.
— Aham, deixou. — Elaina saltou para trás e estendeu a mão; Chase a pegou, permitindo que ela o puxasse para cima.
— Melhor de três? — ele perguntou, ofegante.
— Fechado.
Elaina estava sentada no jardim, aproveitando o pouquinho de sol que conseguiu romper as nuvens negras que ainda pairavam acima.
A chuva tinha parado por enquanto, e ela estava se aproveitando disso.
Seus músculos doíam por causa do treino com Chase — e ela tinha de admitir que aquilo a fazia se sentir mais viva do que nunca, até mais do que quando enfrentava uma fera.
No fim, ele tinha acabado vencendo a última luta, jogando na defensiva até Elaina ficar tão exausta que não conseguiu bloquear de novo. Em vez de derrubá-la com as mãos, ele simplesmente a agarrou, jogou-a no chão e a manteve presa até ela admitir que ele tinha vencido — o que ela não fez lá com muita elegância.
Depois, ela tomou banho e saiu para o lado de fora.
Agora, sentada sozinha e aproveitando aquela breve aparição do sol, ela fazia o possível para determinar se o que tinha visto ontem, durante a meditação, era real ou se tinha sido algo inventado pela sua mente. Por mais que tentasse, tudo parecia tão irreal que, por fim, com um suspiro, desistiu e empurrou tudo de volta para o lugar onde pertencia na sua cabeça.
Um relâmpago riscou o céu, indicando que era hora de voltar para dentro, mas um movimento à direita chamou sua atenção.
Ela observou a chuva começar a cair, esperando por algo que nem sabia o que era.
Parecia não haver nada ali, e ela já estava começando a se encharcar.
Virando-se, começou a andar, mas viu de novo — desta vez à sua frente. Franziu a testa e esperou.
A essa altura, a chuva caía como se fosse despejada em baldes, encharcando-a até os ossos.
Tremendo sob o ataque de mais uma tempestade completa, Elaina começou a voltar em direção ao conforto do templo quando algo enorme se colocou no seu caminho.
Puxando o ar em uma inspiração profunda, ela observou a criatura se erguer até sua altura total. Agora ela conseguia ver o que era: escamas negras que cintilavam de leve em verde, num corpo longo, semelhante ao de uma serpente. Quatro pares de braços com garras afiadas como navalhas. Um focinho comprido, contraído num rosnado, exibindo dentes cortantes. Ela sibilou uma vez para Elaina e esperou.
— Não é muito justo emboscar uma mulher desarmada, não acha? — Elaina perguntou, com naturalidade, enquanto começava a se abaixar devagar, já alcançando a adaga que mantinha presa na bota. — Quero dizer, afinal, avisar um pouco teria sido a coisa educada a se fazer.
A fera sibilou de novo, os olhos negros cintilando. Ela atacou uma vez, mostrando que falava sério.
— Muito bem — disse Elaina, simplesmente.
Arrancando a adaga do suporte, ela se colocou em posição, preparando-se para lutar. A fera nem se deu ao trabalho de se mover; em vez disso, encarou a arma com um olhar divertidamente desdenhoso.
— Arminhas não vão funcionar comigo, garota — ela sibilou, num som quase gutural.
Embora Elaina soubesse que a maioria das feras não era capaz de se comunicar, não ficou nem um pouco surpresa por aquela ter, ao menos, um pouco de cérebro.
Ela se aproximou aos poucos, tomando cuidado para não se mover rápido demais. Se conseguisse chegar perto o suficiente, talvez pudesse ao menos feri-la por tempo bastante para disparar para dentro.
A fera rosnou de novo e cravou as garras na direção dela; ofegante de surpresa, Elaina se jogou para trás, desviando do ataque.
Ela se debateu depressressa, tentando voltar a ficar de pé — ficar estendida de costas no chão não ia servir de nada para protegê-la. A fera, porém, continuou avançando, golpeando com as garras feito uma maníaca.
Uma delas se enterrou na perna de Elaina, rasgando o jeans.
Ela viu o sangue começar a brotar dos cortes.
Com a raiva explodindo, Elaina saltou e começou a correr; normalmente aquilo era completamente contra a sua natureza, mas ela sabia que não conseguiria conter aquele monstro sozinha.
Atrás dela, a fera riu e começou a persegui-la, divertindo-se em brincar de gato e rato. Elaina estremeceu com a ideia e aumentou a velocidade.
A chuva castigava seu corpo; o vento parecia tentar segurá-la.
Ofegante, ela deu a volta e tentou alcançar a entrada lateral do templo. Uma coisa ela sabia: aquele era um solo sagrado, e nenhuma fera podia cruzar suas paredes sem se incendiar.
Mais à frente, ela viu a porta se erguer diante de seus olhos, como um milagre.
Um guincho soou de cima, congelando o sangue de Elaina — uma fera burlack viera se juntar à luta.
Bloqueando todo o resto, ela concentrou toda a atenção em alcançar a porta.
Sua perna ardia, e o coração batia tão alto que ela conseguia ouvi-lo nos ouvidos.
Com um grito, ela se lançou para a frente, aterrissando a um passo de distância. Viu a fera burlack mergulhar na direção dela enquanto o outro monstro se arrastava em sua direção. Arranhando o chão, ela alcançou a porta.
— Acho que vocês foram lentos demais — provocou, saltando e empurrando a porta para abri-la.
As duas feras guincharam de raiva e pareceram prestes a arriscar entrar no templo. Elaina se deixou cair no chão, observando-as até que desapareceram no ar.
Com um suspiro de alívio, ela desabou no piso, a água encharcando o tapete branco sob seu corpo. Ficou ali por alguns minutos, recuperando o fôlego e tentando entender o que acabara de acontecer.
As feras não deveriam atacar em solo sagrado, e, no entanto, já tinham feito isso duas vezes. Havia algo sério acontecendo, e ela não gostava nem um pouco do que aquilo sugeria. Levantando-se, mancando, ela foi falar com a única pessoa que poderia lhe dar respostas.
Encontrou o Irmão Isaac sentado sozinho em seu santuário, encarando a estátua de Ezra, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, murmúrios baixos escapando de sua boca. Percebendo a presença dela, ele virou o rosto, sereno.
— Elaina — disse ele, em voz baixa, observando enquanto ela se aproximava. — Aconteceu alguma coisa?
Elaina quase teve vontade de rir com a pergunta.
— Dá pra dizer que sim.
— Você está sangrando. — Ele olhou para a perna dela, agora encharcada de sangue, poças se formando no chão abaixo.
— Irmão Isaac, eu acabei de ser atacada por uma fera corvico e por outra coisa que eu nunca vi antes. — Ela começou a fazer careta quando a perna lançou uma fisgada de agonia.
— Por que você saiu do santuário do templo, criança? — perguntou ele, preocupado. Devagar, ele se levantou, ainda observando-a.
— Eu não saí. Eu estava do lado de fora, só tentando organizar meus pensamentos, e ela simplesmente apareceu. — Elaina tentou ignorar a irritação que sentiu ao ser chamada de criança. — Eu achei que eles não podiam entrar em solo sagrado, mas já é a segunda vez que atacam.
O Irmão Isaac pareceu pensativo; uma coisa comum entre os irmãos era que nunca perdiam a calma nem pareciam se surpreender muito com nada.
— Alguma coisa está acontecendo, alguma coisa séria. Você tem alguma ideia do que isso significa? — Elaina continuou, desabando no chão outra vez.
— Você conhece os avisos tão bem quanto eu, Elaina — respondeu o Irmão Isaac. — Sabíamos que algo assim acabaria acontecendo. Parece que os guerreiros sombrios estão deixando claro que pretendem se livrar de todos nós.
— Isso não responde nada — resmungou Elaina, tremendo.
O Irmão Isaac se dirigiu até uma estante cheia de livros antigos. Olhando com cuidado, puxou um deles, a capa gasta pelo tempo. Folheando silenciosamente suas páginas, por fim parou no que ela supôs ser o que ele procurava e deu um passo na direção dela.
— Quando a escuridão alcançar seu poder máximo, eles virão — entoou ele, lendo em voz alta. — Virão em ondas, tornando seu poder conhecido. Será o fim da paz e o começo do terror e da tragédia.
— Eu conheço as palavras do Livro Branco — Elaina apontou. — Eu o li pelo menos três vezes, de capa a capa, no tempo em que estive aqui.
— Então por que está me perguntando o que está acontecendo? Você deveria saber tão bem quanto o resto de nós. Este é o começo do fim.
Elaina absorveu as palavras dele, o começo do fim; a expressão lhe mandou um arrepio, eriçando os pelos de seus braços. Claro que seria o começo do fim — tudo precisava terminar um dia, não precisava? Mesmo assim, alguma coisa continuava martelando na sua cabeça.
— Irmão Isaac — ela começou, se perguntando qual seria a reação dele ao que diria em seguida. — Ontem, na meditação, eu tive uma visão... ou talvez uma memória. Eu não tenho certeza do que foi.
— Eu sei — disse o Irmão Isaac, em voz baixa. — Eu já falei com o Irmão Benjamin.
— Bem, eu estava me perguntando... como exatamente eu posso determinar se foi real ou não? — ela insistiu. — Eu vivo tendo flashes assim; eu nunca consigo saber se estão me mostrando algo que eu reprimi ao longo dos anos ou se é a minha imaginação me enganando.
— Só há um jeito de descobrir — disse o Irmão Isaac, devolvendo agora o Livro Branco ao seu lugar. — Você precisa consultar os anciãos.
Elaina se sobressaltou com aquilo; ninguém consultava os anciãos, exceto os irmãos.
Eles viviam no alto do Monte Raganut, bem longe, isolados do resto do templo. Era uma sorte conseguir uma audiência com os anciãos. Na maior parte do tempo, consideravam os problemas dos guerreiros pequenos demais e indignos do tempo deles.
— Irmão Isaac, você não pode estar falando sério — ela tentou argumentar.
O Irmão Isaac a encarou com solenidade.
— Mas estou, criança. Eles são os únicos que conseguem ver dentro de nossas mentes e determinar a verdade.
— Quando? — ela perguntou, tremendo ainda mais, mais de medo do que de frio. Havia muito tempo que não sentia medo de verdade.
— Vou mandar uma mensagem a eles e avisarei quando eu receber uma resposta — disse o Irmão Isaac, aproximando-se dela. — Agora vá se trocar e se limpar.
— Você sabe por que aquela besta destruiu meu lar quando eu era criança? — ela perguntou de repente. — Por que incendiaram tudo e mataram meus pais?
— Ninguém sabe a resposta para isso, Elaina — disse o Irmão Isaac, parecendo confuso. — Por que está perguntando?
Elaina puxou um fôlego fundo.
— Porque, na minha visão, eu os vi receberem algo de um membro da escuridão. Ele tinha aquilo, seja lá o que fosse, embrulhado em seda, então eu não consegui ver o que era. Eu pensei se talvez fosse isso que eles estavam procurando naquela noite. Talvez seja por isso que foram mortos: porque aceitaram um presente do inimigo.
— Seus pais eram boas pessoas e guerreiros corajosos, Elaina. Eu não acredito que eles aceitariam qualquer coisa da escuridão. Você só está abalada por causa da manhã. Vá descansar.
Apesar das palavras, o Irmão Isaac parecia um pouco tenso, embora Elaina não tivesse certeza.
Acenando rápido com a cabeça, ela saiu mancando do santuário e subiu as escadas.
Sua mente continuou repetindo as palavras que o Irmão Isaac dissera, de novo e de novo: o começo do fim, o começo do fim. Elas a acompanharam enquanto ela se trocava e examinava a perna ferida.
Os arranhões eram longos, mas não tão profundos quanto ela esperava.
Enrolando uma atadura ao redor, ela vestiu um short. De repente, exausta, desabou na cama, desejando que o sono viesse, mas ele não veio. As palavras continuaram se repetindo, como um disco preso: o começo do fim, o começo do fim.
