Capítulo 1

Durante anos, acreditei que uma família rival tinha roubado meus filhos.

Quatro deles. Dois menininhos — e, três dias atrás, meus gêmeos recém-nascidos.

Hoje à noite, agachada do lado de fora da porta do meu marido, descobri a verdade. Foi ele quem jogou cada um deles no mar.

Eu tinha descido ao porão procurando Orso. A porta do depósito dos fundos estava entreaberta e, através da fresta, vi meu marido — o homem que jurou que morreria antes de deixar alguém encostar em mim — beijando outra mulher.

— Então você realmente resolveu o probleminha? — perguntou a mulher. A voz dela era suave, quase provocadora.

Era Renata. O primeiro amor de Orso. A mulher que ele um dia me disse ter morrido numa guerra de gangues anos atrás.

Orso soltou uma risada baixa.

— Claro, bebê. Por você e pelo nosso filho, não existe nada que eu não faça.

— Mas eles também eram do seu sangue.

— Sangue? — ele cuspiu a palavra. — Saveria é uma idiota. Ela realmente acha que eu a amo. Se eu não precisasse da confiança do velho para assumir a família Aleria, eu nunca teria tocado nela.

Levei a mão à boca. Minhas unhas cravaram na palma até abrir a pele. Eu nem senti.

Três dias atrás, eu tinha dado à luz gêmeos. Um menino e uma menina. Quase morri para conseguir.

Orso tinha me segurado, coberto do meu sangue, e chorado como uma criança. Disse que eles eram o melhor presente que Deus já tinha lhe dado.

Naquela mesma noite, ele cambaleou para dentro do meu quarto, com a camisa rasgada, e me disse que uma família rival tinha emboscado o carro e levado os dois bebês. Ele os perseguiu, disse. Viu o carro despencar do penhasco e cair na água.

Eu acreditei nele. Eu gritei até desmaiar.

Acreditei nele da primeira vez também. E da segunda.

Meu primeiro filho. Meu segundo filho. Os dois “levados” do mesmo jeito, os dois com mal um mês de vida. Nas duas vezes, Orso chorou ao lado da minha cama. Nas duas vezes, jurou vingança e sumiu por dias. Nas duas vezes, voltou para casa com um nome e uma cabeça — prova de que tinha feito eles pagarem.

Ele nunca fez ninguém pagar. Não existia família rival nenhuma. Só existia ele.

— Você tinha que ter visto — a voz de Orso ficou viva, quase empolgada. — Eu mesmo joguei as duas incubadoras do penhasco. Nem pisquei. Ouvi elas baterem na água e não senti nada além de alívio. Agora, o único herdeiro que sobra do nome Aleria é o nosso menino.

O porão ficou em silêncio.

Eu sou a única filha do velho don. O sangue Aleria de verdade corre em mim, não em Orso. Ele entrou na família pelo casamento. Enquanto eu tivesse um único filho vivo, esse filho vinha antes de qualquer pessoa — e o filho de Renata não era nada.

Então toda criança que eu lhe desse precisava morrer.

Dizem que, no momento em que uma mulher deixa de ser idiota por amor, ela finalmente fica inteligente. É verdade.

Eu não invadi a sala gritando. Não arranhei a porta. Neste mundo, lágrimas são a coisa mais inútil que alguém pode gastar.

Orso controlava a maior parte das armas da família. Se eu mostrasse a minha cara agora, eu não teria vingança. Eu teria uma bala.

Inspirei devagar e empurrei tudo para trás dos meus olhos.

Esperem por mim, meus bebês. A mamãe vai fazer ele pagar.

Voltei pelo corredor de passagem até o quarto principal, limpei o sangue da palma da mão e me enfiei na cama.

Dez minutos depois, a porta se abriu. Orso entrou, ainda carregando o frio do porão e o leve cheiro do perfume de Renata.

— Saveria. Você está acordada? — ele foi até a cama, os olhos já vermelhos, e pegou minha mão. — Me desculpa. Eu não consegui proteger eles. Eu não consegui proteger os nossos filhos.

Eu quase ri.

— Não se culpe, Orso — eu disse, num tom suave. — Não foi culpa sua. Foram aquelas pessoas. As que levaram eles.

Ele piscou, como se não esperasse que eu estivesse tão calma.

— Eu só estou cansada. — Fechei os olhos. — Estive pensando. Nós ainda somos jovens. Podemos ter mais filhos.

Ele soltou o ar e me puxou para junto dele, beijando minha testa.

— Vamos. Eu vou estar bem aqui até você melhorar.

Eu me recostei no ombro dele e encarei a cruz na parede.

Orso, você já é um homem morto.

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