Capítulo 2

Nas duas semanas seguintes, eu interpretei uma mulher destruída.

Fiquei no meu quarto. Não comia, não falava, mal dormia. Só quando Orso trazia a comida ele mesmo eu dava algumas mordidas. Meu luto o deixava descuidado. Era essa a intenção.

Porque uma esposa enlutada que não conseguia sair da cama lhe dava a desculpa perfeita para mudar Renata para dentro da casa.

Aconteceu numa tarde cinzenta e chuvosa. Orso abriu a porta do meu quarto e entrou com ela ao lado.

— Saveria, esta é a doutora Renata. — O rosto dele era só preocupação. — Ela é a melhor terapeuta que a família conseguiu encontrar. Eu não aguento ver você sofrer assim. Deixe que ela lhe faça companhia. Por favor.

Ergui o olhar para a mulher no terninho cinza impecável. A roupa era apropriada. Os olhos, não. Eles já calculavam tudo no quarto que em breve seria dela.

— Meus pêsames, senhora Aleria. — Renata sorriu e estendeu a mão. — Vou ajudar a senhora a passar por isso.

Eu queria puxar a arma de baixo do travesseiro e abrir um buraco naquele sorriso.

Em vez disso, apertei a mão dela.

— Obrigada, doutora. O Orso realmente se importa comigo.

O sorriso dela congelou por meio segundo e então voltou.

Orso soltou o ar, aliviado por eu não tê-la repelido.

— Vou deixar vocês duas conversarem. A família tem assuntos a tratar. Vou estar no escritório.

No instante em que a porta se fechou, o calor saiu do quarto.

Renata largou a encenação. Foi até minha cômoda, pegou meu colar de diamantes mais caro e o encostou no próprio pescoço diante do espelho.

— Perder seus filhos deve ser difícil, senhora Aleria. — Ela observou meu reflexo, com o canto da boca se curvando.

— É. — Mantive a voz neutra. — Mas eu já me conformei. Orso só se importa com o futuro da família. Eu não vou ser a coisa que arrasta ele para baixo.

Aquilo a interrompeu. Ela não esperava.

— A senhora devia trabalhar duro, doutora — eu disse, oferecendo um sorrisinho. — Me cure rápido. Aí eu posso dar ao Orso outro herdeiro.

O rosto dela ficou duro. Ela bateu o colar na cômoda e saiu sem dizer uma palavra.

Ótimo. Renata era gananciosa e não tinha paciência. Nunca deixaria que eu carregasse outra criança. Ela pressionaria Orso a agarrar o poder mais depressa — e quanto mais rápido ele se movesse, mais erros cometeria.

Naquela noite, escapei dos guardas e fui até a ala oeste, onde Ottilie morava numa pequena villa só dela. Ela era meia-irmã de Orso e administrava o dinheiro da família. Ela se importava com exatamente uma coisa: o que era dela. Desde que Orso assumira, vinha minando o espaço dela, tentando engolir todo o tesouro para si.

Encontrei-a no sofá, limpando uma pistola. Ela arqueou uma sobrancelha quando me viu.

— Está tarde. A esposa enlutada não deveria estar chorando na cama? O que você quer?

— Vim trazer um presente. — Sentei-me em frente a ela e sustentei seu olhar.

— É mesmo? — Ela pousou a arma, interessada agora.

— Na reunião da família no mês que vem, Orso pretende tomar seus três portos. E todos os canais no exterior que você administra.

O rosto dela esfriou na hora.

— Ele não ousaria.

— Ousaria. E está trazendo Renata para dentro como esposa. — Observei a reação dela. — Você sabe quem Renata realmente é?

Ottilie franziu a testa.

— A terapeuta?

— O primeiro amor dele. Eles têm um filho de cinco anos. — Deixei a informação cair entre nós. — Para abrir caminho para aquele bastardo, Orso afogou meus quatro filhos. Dois meninos, depois meus gêmeos recém-nascidos. Todas as vezes, ele me disse que uma família rival tinha levado eles. Não havia família rival. Era ele.

Ottilie ficou imóvel. O pano ficou esquecido na mão dela.

No nosso mundo, dá para fazer quase qualquer coisa. Mas não se mexe com o próprio sangue. Se os anciãos confirmassem, colocariam uma ordem de morte na cabeça de Orso no mesmo dia.

— Você tem provas? — ela perguntou.

— Ainda não. Vou conseguir. — Levantei e encarei-a de cima. — O acordo é o seguinte. Você me dá cobertura e me fornece o que eu preciso. Eu derrubo o Orso. Quando terminar, a família fica comigo — e cada porto, cada conta, cada dólar do dinheiro fica com você.

Ela ficou em silêncio por um longo momento. Era inteligente o bastante para saber que, quando Orso tivesse tudo nas mãos, ela também seria uma mulher morta.

— Fechado. — Ela se levantou e estendeu a mão. — Prazer em fazer negócios com você, Saveria.

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